Há um ano, foi ali, no coração da Penha, que moradores enfileiraram dezenas de corpos retirados da mata da Serra da Misericórdia, porque o Estado que entrou atirando não teve a decência de recolhê-los. Desta vez, a praça recebeu mães, irmãs, companheiras e vizinhos, que soltaram balões brancos. Tauã Brito estava lá. Ela ainda guarda no celular a mensagem em que Wellington pediu socorro antes de morrer.

Em outubro passado, quase três mil policiais civis e militares entraram nos conjuntos do Alemão e da Penha na chamada Operação Contenção. Saíram de lá deixando cerca de 122 mortos, sendo 117 moradores e cinco policiais, na ação policial mais letal da história do país, não do Rio. Um ano depois, ninguém sabe dizer oficialmente como aquelas pessoas morreram.
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O que já se sabe mesmo, incomoda: pelo menos 17% das câmeras do Bope analisadas foram desligadas de propósito pelos próprios policiais, e em outras houve indício de lente tapada. Na Polícia Civil, dos 685 agentes que participaram da operação, só 62 usaram de fato a câmera no corpo. Quando o equipamento que existe para proteger o cidadão e o policial é desligado justamente no dia mais sangrento da história, deixa de ser falha técnica e passa a ser modus operandi.
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Veja o que já enviamosNa época, o então secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, reagiu com uma pergunta: “Quem disse que foi a polícia?”. Cito isso pra trazer que a falência da política de segurança do Rio não começa em 2025. É a mesma lógica das últimas quatro décadas: entra, mata, sai, volta. Trata favela como território inimigo e morador como dano colateral (que também dá nome ao livro da jornalista Natália Vianna sobre a intervenção de militares na segurança). Não há inteligência que chegue ao dinheiro, ao fuzil que atravessa fronteira, ao agente público que vende arrego. No fim, temos espetáculo, e como se viu, rende voto.
O mesmo Curi citado acima foi eleito deputado federal com mais de 133 mil votos, e votação expressiva justamente nas zonas eleitorais perto da Penha. O coronel Marcelo de Menezes, que comandava a PM naquele dia, chega em 5 de janeiro na Alerj. Já o delegado Bernardo Leal, baleado durante a ação, também foi eleito. Os protagonistas daquela terça-feira passaram o ano em podcast e rede social, transformando chacina em currículo.

E o governador? Cláudio Castro, que chamou de “maldita” a ADPF das Favelas no dia da operação, fugiu – só que pra casa – no fim do mandato. Na véspera de o TSE retomar o julgamento que poderia cassá-lo por abuso de poder nas eleições de 2022, renunciou. Quis sair “de cabeça erguida”, rumo ao Senado, mas não conseguiu. Esta inelegível até 2030 pelo esquema de cargos na Ceperj e na Uerj.
O Rio escolheu, em primeiro turno, Douglas Ruas, do mesmo PL de Castro, aliado dele, ex-policial civil. Ruas fala em “guerra contra o crime”, na retomada de territórios, em reconhecimento facial e drones, com convocação de todos os concursados das polícias. Na campanha, criticou as regras que fazem policiais perderem gratificação depois de confrontos. Quem tem memória sabe o que isso lembra: a velha gratificação faroeste, que premiava a morte. Ruas prometeu também que a polícia não sairia dos territórios depois das operações.
No Brasil, Lula foi reeleito no domingo. O governo federal terá mais quatro anos para decidir se vai continuar assistindo de longe ou se vai, de fato, disputar o modelo de segurança pública do país, com dinheiro, inteligência e controle sobre as polícias. Afinal de contas, neutralidade diante de 122 mortos, é posição, não é mesmo?
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