A múltipla jornada das feirantes de Caxias

Thais Chagas: mãe solo de três filhos se desdobra e conta com ajuda da família para trabalhar na feira. Foto Sofia Ricardo

Conciliar maternidade, tarefas domésticas e trabalho duro sobrecarrega mulheres e expõe mazela social brasileira

Por Sofia Ricardo | Inclusão e Diversidade, ODS 10, ODS 8

Publicado em 21/10/2026 - 09h51 (Atualizado há 12 minutos)

Tempo de leitura: 13 min

Em uma das feiras mais famosas do Estado do Rio de Janeiro, localizada na Baixada Fluminense, a tradicional feira livre de Caxias junta algo entre 1.600 a 2 mil barracas. Na maior parte, mulheres são as comerciantes por trás dos diversos produtos vendidos, como roupas, acessórios e comidas típicas nordestinas. Elas carregam diversas responsabilidades na rotina, além do trabalho, precisam cuidar dos filhos e das tarefas domésticas — na maioria dos casos, sozinhas.

A feira de Caxias é reconhecida como Patrimônio Cultural Material e Imaterial do Município e do Estado do Rio de Janeiro. Dentre as diversas mulheres trabalhadoras está Thaís Chagas, que vende tapioca no “Tapiocas Deliciosas”. O empreendimento passou de geração em geração, começando pela sua avó, que ajudou a fundar a feira, depois sua tia e sua mãe, até ela se iniciar como feirante. Frequentando desde criança com sua mãe, decidiu abrir, com 15 anos, sua própria barraca.

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Hoje, aos 31, é mãe de três filhos, de 13, 8 e 5 anos. Ela conta que, no início, precisou amamentar enquanto estava na feira, quase sem interromper o trabalho. Mas, conforme as crianças cresciam e ficavam agitadas, foi preciso deixá-las em casa. “Era um pouco cansativo, né? Tinha que amamentar e trabalhar muito. Do mesmo jeito que a semana inteira a gente faz as coisas, cuida da casa, cuida do filho, cuida de tudo, tem que dar conta”, narra.

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A feirante acorda às 3h da manhã para conseguir se locomover até a feira e deixar tudo organizado, para que assim, às 6h, possa começar a vender. Por volta de 15h, os feirantes começam a desmontar as barracas para às 17h liberarem o local. O restante da semana é dedicado principalmente aos filhos: “Na segunda começa a rotina de casa, tudo de novo. Aí acordo às 6h para botar meu mais novo para a escola. Depois, o mais velho vai às 11h. Aí, depois, fazer as coisas de casa”. Ela ressalta também que precisa levar o filho do meio, autista e deficiente auditivo, ao médico, à terapia e à fonoaudióloga.

Por causa da correria, ela não consegue pegar outros trabalhos durante a semana. “Às vezes pego algum evento, alguma festa para fazer, porque para dar conta de tudo é muito complicado. Mas assim, meus filhos estudam à tarde, enquanto eles estão na escola, faço as coisas de casa. É assim, né? Tripla jornada: filhos, casa e trabalho”.

Feira Livre de Caxias: patrimônio cultural imaterial do município da Baixada Fluminense (Foto: Sofia Ricardo)
Feira Livre de Caxias: patrimônio cultural imaterial do município da Baixada Fluminense (Foto: Sofia Ricardo)

Pesquisa do Infojobs revela que 83% das mulheres dizem conciliar o emprego com tarefas domésticas e cuidados com idosos e crianças, acumulando dupla jornada de trabalho. Além disso, outro levantamento, do IBGE (2024), contabiliza que o percentual de mulheres (37%) que realizava cuidado de pessoas se mantém maior do que o dos homens (26,1%). Os dados revelam o cotidiano e as tarefas das mulheres que enfrentam dupla e até mesmo tripla jornada, precisando dar conta das responsabilidades sozinhas sem apoio.

Thais é mãe solo, e, durante a semana, fica sozinha com as crianças. Nos fins de semana, conta com apoio da família para trabalhar na feira. Normalmente, o filho mais novo fica com a tia, que é paga mensalmente para cuidar dele aos domingos. A mais velha alterna entre a casa do pai, da avó e da tia. Às vezes, ela vai para a casa do pai, em outras, para a avó ou a tia. O filho do meio tem uma tia-avó que sempre fica com ele quase todos os finais de semana. Tudo isso para Thais conseguir trabalhar aos domingos.

Só não veio apoio dos relacionamentos amorosos, repetindo a mazela brasileira de deixar o cuidado dos filhos e da casa sobre a mulher. “Em relacionamento, nunca tive ninguém que me ajudasse aqui. E acho que a maioria tem uma ou outra, consegue um parceiro que ajuda e tal, ou tem os filhos que vêm trabalhar junto. Mas, no fim das contas, o maior responsável é a mulher mesmo. Quem é o chefe da casa? Acabam sendo as mulheres, a maioria aqui da feira”, atesta. “Para mim, o mais difícil mesmo é a questão financeira, que é o que mais pesa. Mas faço o possível para dar tudo de melhor para eles, porque sou sozinha para dar conta de tudo”, relata.

De acordo com dados de 2025, 1,5 milhão de lares do Estado do Rio de Janeiro são chefiados por mulheres, o que equivale a 53% do total de residências. Cresceu ao longo da última década, pois em 2016 elas estavam à frente de 1,1 milhão de domicílios, ou seja, 47,4% das famílias. As informações são da Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE) e da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres e Cuidados do Rio, com base em dados do IBGE.

Thais evita levar os filhos à feira, pois é exaustivo e ela não consegue dar tanta atenção. “Eles também vêm às vezes assim aqui ou então hoje de manhã, como eu vim de Maricá, eles vieram comigo. Mas mandei para casa, porque aqui é muito cansativo para criança. Não gosto de trazer a minha mais velha, como já fez doze anos, ela com dez, onze, eu já comecei a trazer. Aí, com doze anos, de vez em quando, ela vem me ajudar, né? Mas os pequenos eu não trago, eles até pedem para vir. Eles adoram me ajudar a fazer as coisas, Eles gostam, mas é muito trabalho. Eu tenho que vigiar eles enquanto trabalho.”

Ela também comentou sobre a maternidade atípica: “Meu filho do meio gosta de ficar andando em círculo, então ele não fica do meu lado. Daqui a pouco ele estará aí porque a tia dele fica com ele e, no final da feira, quando estou fechando, ela traz ele para mim. Mas assim é só na hora de fechar mesmo ou na hora de manhã cedo. Agora, durante o trabalho, não tem como ficar com criança, não tem como olhar a criança, é trabalhar. E acrescentou: “Enquanto a gente está focada aqui na barraca, não tem como olhar. “

A feirante se acostumou a perder momentos especiais ou de lazer por conta da rotina agitada e de trabalho na feira. Desde criança ela frequenta a feira aos domingos, então não sai sábado à noite já que no dia seguinte acorda cedo. A própria família, com parentes que também são feirantes e cresceram nesse meio, fazem festas de aniversário durante a semana, porém, quando é de algum amigo ela acaba ficando de fora por estar trabalhando.

O matriarcado estrutura grande parte da feira, comandada em sua maioria por mulheres. De acordo com dados do Sebrae, o empreendedorismo feminino no Brasil cresceu. Os números apontam crescimento de 27% na última década, superando em 16 pontos percentuais o avanço registrado entre os homens no mesmo período. Porém, no meio desse crescimento e empreendedorismo, parte das mulheres precisam dedicar tempo a outras responsabilidades, como os filhos. 

Em meio ao trabalho, Thais busca ter momentos bons, vibrando com a feira cheia, as pessoas aproveitando. Além disso, ela ainda organiza o tempo para levar os filhos para passear e conhecer museus, entre outras atividades.

Claudia Teodoro, do Acarajé da Jô: "Você termina trabalhando 24 horas, né? Não é como na CLT" (Foto: Sofia Ricardo)
Claudia Teodoro, do Acarajé da Jô: “Você termina trabalhando 24 horas, né? Não é como na CLT” (Foto: Sofia Ricardo)

Acarajé da Jô: mãe, feirante e empreendedora

Claudia Teodoro vende acarajé na Feira Livre de Duque de Caxias, no “Acarajé da Jô”. Assim como Thaís, ela enfrenta a correria do dia a dia como feirante e mãe. Nascida em Sergipe, conheceu o marido em São Paulo. Vieram os dois para o Rio, após descobrir a gravidez do filho, Matheus, atualmente com 29 anos. Foi através da sogra, já feirante, que começou a trabalhar na feira. Após os sogros irem morar na Bahia, Claudia assumiu a barraca, que cresceu ao longo dos anos e agora possui diversos pontos de venda.

A feirante conta que, quando Matheus tinha 3 anos, não gostava de ficar em casa e ela o levava aos domingos. Ele ia para o pula-pula brincar, levados por alguns clientes conhecidos. Ela relembra que em dias de chuva era ainda mais complicado, mas os clientes parceiros faziam barquinhos de papel para botar nas poças e assim distrair o menino. 

Claudia engravidou novamente e teve Maria Eduarda, atualmente com 14 anos. Como o negócio já estava maior e o cardápio expandiu, ela precisava deixar a menina com alguém aos domingos e, assim, foi desafiador, tanto em casa para o preparo das comidas, como para poder chegar até a feira.

Além da barraca na feira, Claudia tem uma loja no centro de Caxias. Assim, a rotina para organização de trabalho dos espaços envolve uma preparação semanal. Ela vai ao Ceasa fazer compras, prepara alguns alimentos com antecedência e congela. Para auxiliar no trabalho, tem funcionárias nos dois lugares, mas ela e o marido que cozinham. “A gente compra, chega aqui, faz, produz e fica até o fim do dia”.

Claudia relatou que ser empreendedora demanda carga horária muito grande. “Quando você trabalha para você, não tem descanso. A sua mente não descansa”, descreve. “Você termina trabalhando 24 horas, né? Não é como na CLT. Você trabalha e quando sai, acabou. Aqui, o trabalho está dentro da minha casa 24 horas… É muito estressante”.

Resultado da tripla jornada, o tempo para lazer e descanso é quase inexistente. A situação cria uma maior tendência para as mulheres sofrerem e estresse, burnout, e prejudicarem a saúde mental e física. Estudo da Universidade de Cambridge apurou que as mulheres que cumprem uma dupla jornada têm 40% mais chances de experimentar sintomas de ansiedade e depressão em comparação com aquelas que não têm responsabilidades laborais e domésticas ao mesmo tempo. Outra pesquisa, publicada no Journal of Occupational Health Psychology, destaca que as mulheres com dupla jornada experimentam níveis mais altos de estresse crônico.

A barraca do Acarajé da Jô: sucesso da Feira de Caxias. Foto Sofia Ricardo

Somado aos fatores de sobrecarga, Cláudia lamenta que as férias são escassas. Às vezes tiram 15 dias em janeiro, mas não é sempre. E, dependendo do ano, só consegue ficar de folga quando o Natal ou o Ano Novo caem no domingo. Mas o trabalho a priva de momentos importantes, inclusive alguns eventos na escola da filha. Tenho que me organizar muito para tentar ir, mas às vezes nem assim”, lamenta. Os filhos reclamam e ainda falta tempo para cuidar da saúde e praticar atividade física.

Diferentemente de muitas mulheres, Claudia tem o apoio do marido. “Ele trabalha muito junto comigo. Tenho o privilégio, mas claro, não são todas as mulheres, né? Toda regra tem sua exceção”.

Conforme uma pesquisa encomendada da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base em dados do IBGE, atualmente, mais de 41 milhões de domicílios têm mulheres como principais provedoras. Além disso, de cada cem lares brasileiros, 52 são chefiados por mulheres. Os números revelam que as mulheres são responsáveis pelas principais tomadas de decisão.

Claudia afirma que na feira ela cria diferentes laços e clientes se tornam família. Para ela, trabalhar na feira é uma surpresa, pois nunca se sabe o que vai acontecer, que pessoas vão passar por você e o aprendizado do dia.

Devido à parceria e à tradição de ser passado de geração em geração, as mulheres dominam grande parte da feira, deixando claro que conquistaram seu espaço e independência financeira. Porém, elas ainda enfrentam dificuldades e desigualdades, e se esforçam para ter a mesma liberdade que os homens feirantes, já que muitos deles não enfrentam dupla ou tripla jornada como elas. E, mesmo com apoio, muitas ainda sofrem uma jornada intensa, pela quantidade maior de responsabilidades.

*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Sofia Ricardo, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.

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Sofia Ricardo

Sofia Ricardo é jornalista em formação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e atua como redatora, repórter e filmmaker. Também tem experiência nas áreas de fotografia, comunicação institucional e assessoria de imprensa. Nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, acredita na pauta jornalística como arma de combate.

Sofia Ricardo

Sofia Ricardo é jornalista em formação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e atua como redatora, repórter e filmmaker. Também tem experiência nas áreas de fotografia, comunicação institucional e assessoria de imprensa. Nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, acredita na pauta jornalística como arma de combate.

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