Flávio Bolsonaro: a farsa pode ser pior que a tragédia

O filho aprendeu a falar baixo e parecer civilizado, mas pode ser ainda mais cruel que Jair

Por Júlia Pessôa | ODS 16

Publicado em 20/10/2026 - 09h37 (Atualizado há 3 minutos)

Tempo de leitura: 7 min

Todo mundo conhece aquela frase célebre de Karl Marx de que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Não sei se ele imaginava que, quase dois séculos depois, o Brasil levaria a ideia tão ao pé da letra a ponto de colocar outro Bolsonaro no segundo turno de uma eleição presidencial. Mas aqui estamos, diante da possibilidade de entregar o país ao filho de um ex-presidente que tentou permanecer no poder à revelia das urnas e descobriu, no fim das contas, que nem as Forças Armadas estavam dispostas a acompanhá-lo em seus delírios ditatoriais. O problema é que, desta vez, a farsa pode ser ainda pior que a tragédia.

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Jair Bolsonaro era uma caricatura de si mesmo. Um tiozão do pavê tosco, grosseiro, incapaz de sustentar uma conversa sem recorrer a alguma vulgaridade ou bravata de quinta categoria. Tinha o repertório intelectual de um grupo de WhatsApp de condomínio e a autoestima hétero e branca de quem acredita que falar qualquer estupidez que lhe venha à cabeça é demonstração de autenticidade. Houve quem comprasse. E, como país, pagamos caríssimo por isso. Não preciso mais falar da extinção do Ministério da Cultura, do sucateamento da educação, da pandemia e das 700 mil mortes, e dos ataques a mulheres, negros e pessoas LGBTQIAPN+, preciso? (E estou resumindo muito)

Protesto contra Flávio Bolsonaro em São Paulo: farsa ameaça ser pior que a tragédia (Foto: Reprodução / Redes Sociais)
Protesto contra Flávio Bolsonaro em São Paulo: farsa ameaça ser pior que a tragédia (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

Flávio aprendeu a disfarçar melhor. Fala mais baixo e usa frases completas, o que não é nenhum grande mérito intelectual, verdade. Mas, diante do parâmetro familiar, foi suficiente para que parte da imprensa e da classe política começasse a tratá-lo como uma versão moderada do bolsonarismo. E é justamente aí mora o perigo. Flávio é um boneco que repete frases feitas sobre democracia, liberdade e respeito às instituições sem entender o que diz.

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Não acho que Flávio seja menos ignorante que Jair. Inteligência, aliás, nunca foi exatamente um patrimônio abundante na família. Mas ele é politicamente mais funcional. O pai foi uma marionete com delírios de grandeza, convencido de que comandava uma revolução, enquanto era conduzido por militares, interesses econômicos e oportunistas que enxergavam nele a possibilidade de executar seus próprios projetos. Acabou sozinho. Flávio conhece melhor os corredores do poder e sabe construir alianças sem dar um tiro no pé a cada cinco minutos.

Apresentá-lo como uma alternativa civilizada é uma operação que depende de uma espécie de amnésia coletiva. O Brasil não sofreu porque Jair falava palavrão. Sofreu porque sua grosseria era a expressão mais visível de uma concepção de poder autoritária, indiferente à morte evitável de centenas de milhares de pessoas e hostil a quem não coubesse em seu projeto de país. Flávio representa esse mesmíssimo projeto de destruição, agora com menos gritaria e se vendendo como “mudança”. Sabemos que fim o povo levou quando um autoproclamado “caçador de marajás” vestiu a faixa presidencial.

Mas há uma coisa que nem a ameaça da farsa pode deter: a esperança. Não falo de um otimismo pueril, mas justamente do que tem levado milhares de brasileiros às ruas contra o bolsonarismo encarnado na figura de um moleque mimado querendo ocupar a cadeira que já foi do pai. Falo da esperança como uma tecnologia de futuros, que exige memória, ação e alguma disposição para brigar pelo que é nosso: nossos direitos, nossas liberdades, nossa soberania. A história não se repete sozinha. São as nossas escolhas que a fazem avançar ou retroceder. E ainda estamos a tempo de impedir que essa farsa vire uma tragédia.

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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