ODS 1
Como registrar a história oral de povos tradicionais: prestar atenção é o melhor caminho




O catador de caranguejos Antônio Júlio em seu barco: protagonista de um podcast para mostrar o que a Ilha Grande e os povos tradicionais do Delta do Parnaíba podem revelar sobre preservação do meio ambiente e exploração do trabalho (Foto: Beatriz Trevisan)
Um guia despretensioso para criar um podcast sobre clima e trabalho
No final de julho, eu publiquei o podcast narrativo Cidade de Lama. É uma série sobre as relações íntimas e profundas de uma família de Ilha Grande, no Delta do Parnaíba, no Piauí, com a cidade e a natureza à sua volta. O podcast narra as nuances de um trabalho difícil e invisível – a cata de caranguejo nos manguezais – , as transformações da natureza e as dinâmicas do poder. Durante a investigação, porém, eu entendi que se tratava, sobretudo, de uma história sobre a condição humana e que mostra que, se existir um futuro, ele deverá passar pelo Piauí.
Cidade de Lama foi apoiado pelo Pulitzer Center e lançado de forma independente. E o Pulitzer me pediu para escrever um artigo sobre os bastidores dessa produção, no qual eu falasse sobre “melhores práticas para podcasts relacionados a questões oceânicas”.
Vou acabar por reproduzir neste artigo as técnicas e orientações que os grandes repórteres, documentaristas e escritores – esses sim você deveria ouvir, não eu – já disseram exaustivamente sobre esse trabalho tão misterioso e magnético. Por outro lado, investigar uma história e publicá-la no formato de um documentário em áudio é mais difícil do que parece.
Como repórter, eu olho de perto e escrevo sobre histórias que chamam minha atenção. As complexidades da vida comum me interessam. E me preocupo mais com a história que um personagem tem para contar do que com o tema maior que a vida dele representa. Calhou de o cotidiano de comunidade de catadores de caranguejo, em uma cidade desconhecida do Piauí, esconder uma história tão real a ponto de ser inacreditável. E foi isso que me obrigou a contá-la.
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Veja o que já enviamosIlha Grande, no Piauí, é a terra dos homens de lama, os catadores de caranguejo. Antônio Júlio, ou Seu Julinho, é a pessoa mais famosa da ilha. O homem de lama que fundou a cidade de lama. Ele é chamado de ativista e de poeta. Transita pelas salas do poder e chama atenção. Criou uma família de mais de cem pessoas. Recebeu um cheque em branco de empresários pela venda de seu território – e recusou.
Graças a Antônio Júlio, o preconceito contra os caranguejeiros ficou no passado. Todo ano ele é homenageado no Festival do Caranguejo. Júlio parecia ter Ilha Grande em suas mãos. Mas eu passo um mês na cidade e descubro que não é bem assim.
Eu sabia a história que eu queria contar desde o começo e tinha bons personagens que pudessem contá-la. Era a história de um homem (e de uma família) que representa uma cidade, um país e um planeta. Eu também tinha uma pergunta para responder: o que Ilha Grande e os povos tradicionais do Delta do Parnaíba nos contam sobre preservação do meio ambiente, exploração do trabalho e como o Brasil olha para seu povo e suas reservas naturais?
Outras perguntas surgiram no caminho: o poder de Antônio Júlio é real? Sua voz é levada em conta nas decisões que podem causar mudanças reais na estrutura? A história da relação do homem com os mangues tem o mesmo valor na vida prática que tem no discurso? (Spoiler: eu vou descobrir no fim da investigação que a ideia é mais bonita do que a realidade, como em todos os grandes contos sobre a vida na terra).
Foi essa a minha proposta para o Pulitzer no edital de Climate and Labor Reporting Grant. Esse edital é recorrente, qualquer pessoa pode submeter uma ideia a qualquer momento, e a resposta vem em poucos dias.


Dados sobre os caranguejeiros?
A relação de Ilha Grande com os manguezais, as tradições da cidade e as lutas dos catadores de caranguejo pelo direito ao território e a melhores condições de trabalho foram pouco registradas. Ainda hoje, é difícil encontrar dados oficiais ou pesquisas acadêmicas que tenham se debruçado sobre a história e o cotidiano dos caranguejeiros do Delta do Parnaíba, especialmente de Ilha Grande.
Não existe uma classificação específica nas leis de pesca para esse tipo de trabalho. Também não existem políticas públicas desenhadas para os trabalhadores dos mangues. Por mais que a Reserva Extrativista do Delta do Parnaíba só exista por causa deles, ainda hoje não se tem números oficiais de quantos catadores de caranguejo trabalham na região.
Essa não era uma história que eu conseguiria investigar à distância, por meio de dados e pesquisas na tela ou no papel. Na cidade também não há associação ou entidade voltada especificamente aos catadores de caranguejo. Então, a minha principal fonte de pesquisa foi a história oral dos trabalhadores dos mangues de Ilha Grande. Eu entrevistei mais de cinquenta pessoas, de perfis variados. Tanto para criar um mosaico o mais fiel possível da realidade, quanto para checar todas as informações que chegavam até mim.


Metodologia para um podcast
Eu também apostava que as pessoas iam gostar de ouvir o que Antônio Júlio, o protagonista da série, tinha a dizer. Literalmente ouvi-lo. Porque o modo como ele fala sobre sua relação com a cidade e a natureza é tão ou mais relevante que as palavras por si só. Eu sabia que precisava contar essa história em áudio. Sem contar o universo sonoro riquíssimo da cidade e do Delta do Parnaíba. A minha ideia era criar uma imagem de Ilha Grande através dos sons da ilha.
Então, eu passei vinte dias em Ilha Grande em novembro de 2025. A metodologia do meu trabalho nessa etapa de produção foi rodar a ilha ao lado de Júlio e conversar com o máximo de pessoas que eu pudesse. O meu objetivo era retratar um cotidiano e traçar um perfil não só de uma família, mas também da própria cidade. Para isso, eu precisava ver e ouvir a vida na cidade acontecendo, com pouca ou nenhuma interferência.
Meu papel era quase de uma documentarista, uma observadora. Vinte dos vinte dias que passei em Ilha Grande foram de trabalho. Eu passava horas e mais horas entrevistando Júlio, seus familiares e todo qualquer personagem que se mostrava relevante para a história. Eu sabia as perguntas que eu queria fazer, é claro. Tinham assuntos inevitáveis. Mas eu também deixava a conversa fluir. Foi em um desses momentos sem roteiro, por exemplo, que Júlio me revelou da vez que uma empresa de turismo tentou comprar seu apoio a um projeto de resort de luxo – para mim, uma das informações mais importantes da série.
Eu acompanhei Júlio nos momentos que pareciam mais triviais, como um almoço em família, uma missa ou um encontro corriqueiro com um antigo colega de trabalho. E também estava ao lado dele nos eventos políticos, no Festival do Caranguejo e é, claro, nas viagens pelo Delta do Parnaíba. Diálogos e cenas essenciais surgiram em ambos os casos. Por isso, afirmo que o inegociável é prestar atenção no que é falado, mas também no não dito, ou na conversa jogada fora, na risada que parece sem importância, mas que diz mais do que muitos discursos.
Não quer dizer que não exista método, critério ou propósito narrativo. Se você assistir ao Edifício Master, de Eduardo Coutinho, também vai ter a impressão de que ele só batia nas portas das pessoas, abria a câmera e via magicamente uma grande história de vida surgir. Infelizmente, não é assim que funciona. O segredo é fazer uma pesquisa profunda. Todo documentário ou série passou por uma grande pesquisa e um pente fino.
O meu roteiro era conhecer a cidade e seus personagens mais marcantes pelo olhar de Antônio Júlio. E ter um roteiro também é inegociável. Do mesmo jeito que é importante desobedecer o roteiro. Eu queria saber como ele reagia à cidade e como a cidade reagia a ele. Lembrando que se tratava de um documentário em áudio, então tudo precisava ser gravado. Eu usei um gravador Zoom H4n Pro, com um protetor de vento, porque a maior parte das gravações foi ao ar livre. No caso de um podcast, pensar na qualidade da gravação também é essencial.
Eu levei mais de cem horas para transformar toda a investigação em uma narrativa coesa, imersiva e que pudesse prender a atenção do ouvinte. Um bom documentário em áudio alia rigor jornalístico e boas escolhas editoriais com um fio narrativo envolvente, com capítulos redondos e bons ganchos, sem repetições desnecessárias.
História no comando, metodologia replicável
Eu defendo que a melhor prática para um podcast sobre questões oceânicas (ou qualquer outro assunto sobre a humanidade) é entender que a história é soberana. É ter humildade para aceitar que nós, os repórteres, sabemos de quase nada e se deixar levar pelo desconhecido. É entrevistar muita gente sem se colocar em qualquer posição de autoridade. E também aceitar que nem um terço dessas entrevistas vão entrar no corte final. É escolher o caminho da clareza e da compreensão, em vez do caminho rebuscado.
Eu levo para onde for duas dicas do Chico Felitti, meu editor na Pachorra Áudios Livros & Filmes. A primeira delas é que uma boa história é aquela que você chega eufórica para contar para sua melhor amiga em um bar. A segunda é que a sua avó deve conseguir entender a história que você escreveu.
No fim, para mim é tudo muito simples: quem manda é a história. A história dita o que eu devo ou não dizer. Eu só preciso prestar atenção. Me concentrar. Olhar muito tempo para uma história até finalmente entender o que ela quer me dizer. E, então, eu digo.
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