ODS 1
Eletrificação ganha força rumo à COP31 com apoio de governos de cinco continentes


Campanha lançada na Semana Climática de Londres busca elevar a participação da eletricidade no consumo final de energia para 35% até 2035


(Cínthia Leone*) – Nove governos, além da Comissão Europeia, lançaram nesta terça (23/06) a campanha Electrify Now durante a Semana de Clima de Londres. Entre os apoiadores estão a Turquia, anfitriã da COP31; a Austrália, presidente das negociações da COP31; a Etiópia, futura anfitriã da COP32; além de Coreia do Sul, Filipinas, Barbados, Canadá e Reino Unido. A iniciativa também recebeu apoio da Agência Internacional de Energia (IEA) e de mais de 40 organizações em todo o mundo.
O lançamento ocorreu após um discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, que afirmou que a eletrificação dos transportes, edifícios e da indústria está “entre as formas mais rápidas de reduzir emissões e romper a dependência de combustíveis fósseis importados”.
Guterres, que lançou iniciativa para enfrentamento da crise climátca e um chamado para ação contra o metano, destacou a urgência imposta pelas mudanças climáticas para o uso de energias renováveis. “Para a agenda climática, este é ao mesmo tempo o melhor e o pior dos tempos. O pior, porque os impactos climáticos estão se intensificando, pontos de não retorno se aproximam e a crise energética expôs os profundos riscos da dependência dos combustíveis fósseis. Mas também o melhor, porque a revolução das energias renováveis está em pleno andamento. Uma revolução de energia limpa, eletrificação, redução de custos, aumento da ambição e enormes oportunidades,”
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A eletrificação vem sendo apresentada como um dos principais temas da COP31, em Antalya. Murat Kurum, presidente da COP31 pela Turquia, anunciou uma meta global para que a eletricidade represente 35% do consumo final de energia até 2035, como parte da Agenda de Ação da presidência. “Hoje faço um chamado a todos os governos, empresas e instituições financeiras: escolham a transformação em vez da turbulência. Participem desta plataforma e da revolução da eletrificação. Não se trata apenas de uma tarefa climática, mas de um imperativo de segurança energética, uma estratégia de competitividade e uma oportunidade econômica”, enfatizou Dan Jørgensen, comissário europeu para Energia e Habitação.
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Veja o que já enviamosA Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA) afirma que a eletrificação representa uma “oportunidade ganha-ganha para países de todo o mundo”, à medida que solar e eólica se tornam cada vez mais competitivas em custo. Segundo a agência, as energias renováveis podem responder por 92% da geração global de eletricidade até 2050. “Espero muito que, em Antalya, todos os países do mundo se unam e concordem com uma meta global: alcançar uma participação de 35% da eletricidade no consumo final de energia até 2035. Esse será um dos grandes legados da COP31”, disse Fatih Birol, diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (IEA).
Para Claudio Ângelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, a economia real está mandando sinais na Semana Climática de Londres que a diplomacia não conseguiu dar semana passada na conferência de Bonn. “Enquanto a segunda onda de calor em poucas semanas varre a Europa, a eletrificação desponta como palavra de ordem da Semana do Clima aqui na Inglaterra e pode vir a ser um atalho para sair das duas crises a que se referiu o secretário-geral António Guterres: a energética e a climática, ambas causadas pelos combustíveis fósseis. Os governos precisam agora captar esses sinais e transformar em ação acelerada”, afirmou.
Transição para longe dos fósseis
O dia também marcou a divulgação do relatório da Conferência de Santa Marta sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis. Colômbia e Países Baixos, copresidentes da conferência, entregaram o documento à diretora-executiva da COP30, Ana Toni. “A entrega do relatório à presidência da COP30 marca um passo importante para enfrentar tanto a crise climática quanto a insegurança energética, profundamente ligadas à dinâmica dos mercados de combustíveis fósseis. A transição para longe dos combustíveis fósseis já não está em debate, nem é uma aspiração distante. Ela se tornou uma agenda global, baseada na ciência e impulsionada pela sociedade civil”, disse Irene Vélez Torres, ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia.
O relatório da Conferência de Santa Marta traz cinco inovações centrais: 1. Transição como transformação econômica e soberania energética;
2. Coerência entre clima e economia, destacando que a ambição climática não pode avançar isoladamente, e é necessário alinhar os processos da Convenção do Clima da ONU com debates internacionais sobre comércio, dívida, tributação, financiamento e investimento; 3. Coalizão aberta para implementação, com a reunião de 57 nações, 14 capítulos temáticos de partes interessadas e três frentes de trabalho voltadas à transformação da ambição em ação concreta; 4. Dos diagnósticos às soluções, com a identificação de caminhos concretos para acelerar uma transição justa e ordenada; e 5. Renovação do multilateralismo: o processo de Santa Marta é apresentado como uma demonstração de que atores diversos ainda podem convergir em torno de soluções comuns, fortalecendo a confiança, a solidariedade e a cooperação em um contexto geopolítico fragmentado.
O Brasil lançou, durante a COP30 em Belém, um processo internacional de elaboração de roadmaps para a transição para longe dos combustíveis fósseis (TAFF Roadmaps). O governo brasileiro afirma esperar que a agenda de eletrificação se conecte a essa iniciativa.
Também nesta terça (23), Cazaquistão, Chade e Trinidad e Tobago anunciaram que trabalharão com a Beyond Oil and Gas Alliance (BOGA) e a NDC Partnership no desenvolvimento de seus planos de transição para longe da dependência de petróleo e gás. A nova parceria oferecerá apoio ampliado a países produtores que desejam fortalecer seu planejamento para reduzir a dependência econômica dos combustíveis fósseis.
*Cinthia Leone é jornalista, doutora em Ciência Ambiental pela USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora de diplomacia climática do ClimaInfo
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