Nossa Senhora Aparecida não é arma; fé não é ideologia

Pesquisa mostra que fieis, evangélicos e católicos, não querem briga, mas lideranças seguem tentando misturar política e religião

Por Edu Carvalho | ODS 16

Publicado em 02/10/2026 - 09h01

Tempo de leitura: 6 min

Na reta final da campanha eleitoral de 2026, uma velha guerra voltou à cena: a ideia de que o candidato Flávio Bolsonaro (PL) estaria ligado a um projeto para tirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil. Bastou um estalo para reabrir uma ferida entre católicos e evangélicos que o país conhece bem desde 1995, quando um chute na imagem da santa, televisionado, colocou a padroeira em campo de batalha.

O resumo é curto: o projeto de lei 2.623/2007 propunha trocar “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Foi apresentado pelo então deputado Victório Galli e arquivado em 2008. Disclaimer: o projeto não é de Flávio, mas o assunto ganhou força, com o presidenciável do PL abrindo tiro contra o PT e afirmando que houve ajuda de gente de dentro da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil).

Leu essa? Qual o futuro da transição religiosa no Brasil?

A diretoria da entidade respondeu com nota oficial negando qualquer participação na criação ou circulação de conteúdo falso. O presidente da entidade, Dom Jaime Spengler, já havia dito que a Igreja Católica não se manifesta sobre questões político-partidárias. O estrago já estava feito, com hostilidades à bispos, católicos e evangélicos em riste, e Aparecida e a questão religiosa servindo de combustível na semana mais sensível das eleições 2026.

Imagem de Nossa Senhora Aparecida na basílica da padroeira: religião empurrada para disputa eleitoral (Foto: Karen Gomes / Diocese de Osasco)
Imagem de Nossa Senhora Aparecida na basílica da padroeira: religião empurrada para disputa eleitoral (Foto: Karen Gomes / Diocese de Osasco)

Por trás do barulho está a interrogação: onde termina a fé e começa o palanque? Uma pesquisa recente ajuda mais do que a treta. O levantamento Religião e Vida Pública no Brasil, do Iser com a Quaest, ouviu 15 mil pessoas em 412 municípios, cruzando religião, raça, gênero, escolaridade, renda, idade e território. O quadro que sai dali, com base, desmonta trincheiras.

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Primeiro, o voto por religião esconde diferenças importantes dentro de cada grupo e entre grupos. Não existe “o voto evangélico” nem “o voto católico” como bloco. Segundo, entre os brasileiros que têm ou frequentam alguma religião, de 83% a 90% rejeitam que lideranças indiquem candidatos ou que igrejas sejam usadas para campanha. A maioria de quem está no banco quer preservar a fronteira entre o espaço da fé e a disputa partidária. Ou seja, o fiel, evangélico ou católico, não pede ou pediu briga. Quem insiste em borrar a linha são lideranças que, como o próprio estudo mostra, seguem tentando influenciar o voto.

Existe uma parte do campo evangélico que rejeita a cartilha e o confronto. O Novas Narrativas Evangélicas, movimento que visa o diálogo e exercício das espiritualidades evangélicas resume assim sua proposta: “Acreditamos no amor radical, aquele que, mesmo sem compreender, acolhe antes de tudo. Porque foi esse o ensinamento de Jesus: amar”. Nos valores, fé, justiça e liberdade. Gostando ou não do recorte de cada um, a premissa é difícil de contestar, justamente porque devolve ao evangélico um lugar que a caricatura sequestrou, o de gente que crê e que também quer um país menos violento.

O problema em si não é se posicionar politicamente, e sim reduzir o evangelho a uma cartilha partidária. Na época de Jesus, a Palestina vivia em colapso político. Havia os colaboracionistas do império, os nacionalistas armados e os moralistas da lei. Jesus não se alinhou a nenhum desses projetos, porque o horizonte do reino exigia uma justiça muito mais profunda. A régua vale para o crente e vale para quem o critica: fé com consequência pública é legítima, mas fé usada como fiador de um lado só perde a capacidade de incomodar qualquer lado.

E, enquanto o país gasta energia assim, sobra fome de quem não tem o que comer, multiplica a homofobia, extrapola a violência contra as mulheres, escala-se a precarização do trabalho, além da já sabida chaga maior de nossa história, o racismo estrutural. Nenhuma dessas pautas é de um campo só, e todas dialogam com o que católicos e evangélicos – maiores grupos religiosos do Brasil – dizem acreditar.

No dia 12, o Brasil celebra Aparecida. Mas, agora, no dia 4, vai às urnas. A melhor atitude seria chegar lá com menos guerra e mais questionamento: o que fazemos, juntos, por quem está sofrendo agora?

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Edu Carvalho

Edu Carvalho é jornalista e apresentador, com passagens pela Globo, CNN e Revista Época. Ganhador do Prêmio Vladimir Herzog pelo #Colabora. É colunista no UOL Ecoa e no Maré de Notícias. Morador da Rocinha, cria do mundo

Edu Carvalho

Edu Carvalho é jornalista e apresentador, com passagens pela Globo, CNN e Revista Época. Ganhador do Prêmio Vladimir Herzog pelo #Colabora. É colunista no UOL Ecoa e no Maré de Notícias. Morador da Rocinha, cria do mundo

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