A vitória das ruas ocupadas por uma novíssima geração de manifestantes

Mobilização dos jovens, enfrentando com alegria e entusiasmo os horrores do retrocesso, contagiou o Rio e o Brasil

Por Oscar Valporto | ODS 11, ODS 16

Publicado em 27/10/2026 - 10h50 (Atualizado há 1 hora)

Tempo de leitura: 8 min

Chovia no Rio de Janeiro na noite de segunda-feira, 5 de outubro, um dia sombrio para os democratas após as urnas indicarem a liderança de Flávio Bolsonaro, filho de Jair, no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Em Niterói, antiga capital do estado, alunos da Faculdade de Direito da UFF (Universidade Federal Fluminense), promoveram um ato, organizado pelo Centro Acadêmico, para mostrar que os estudantes estavam dispostos a reagir e resistir. Não demorou e centenas de alunos de outros cursos estavam reunidos em frente à faculdade: eram mais de dois mil estudantes quando eles saíram em passeata pela cidade, ainda debaixo de chuva.

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As imagens viralizaram facilmente através das redes sociais – como tantas manifestações de jovens, sob muitos outros pretextos, neste século 21. Só que estas imagens inspiraram milhares de alunos – das universidades à frente, depois do ensino médio, depois até crianças. E, no dia seguinte, já eram dezenas de passeatas estudantis, uma novíssima geração de manifestantes, ocupando as ruas, enchendo as praças, cantando e gritando com entusiasmo e alegria para enfrentar o medo – o medo do retrocesso, da violência, do preconceito, da opressão.

Estudantes ocupam a Cinelândia, no Rio, em apoio à reeleição de Lula: vitória de novíssima geração nas ruas (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil - 07/10/2026)
Estudantes ocupam a Cinelândia, no Rio, em apoio à reeleição de Lula: vitória de novíssima geração nas ruas (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil – 07/10/2026)

No Rio de Janeiro, os mais idosos lembraram da Passeata dos 100 mil, em 1968, contra a ditadura militar, liderada por universitários, que hoje são octogenários. A minha geração recordou as manifestações pela anistia em 1980 – inclusive para trazer de volta os líderes de 68 – e, principalmente a campanha das Diretas Já, em 1984: eram os políticos no palanque e os jovens tomando as ruas, com um movimento estudantil recém-renascido. São cinquentões hoje os líderes estudantis de 1992, quando a juventude cara-pintada, tomou as ruas para gritar ‘Fora Collor’.

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Nas ruas ocupadas de 2026, vimos, com os olhos de manifestações passadas na mesma Candelária e na mesma Cinelândia, uma juventude mais diversa, de uma geração universitária revigorada pela política de cotas, com consciência da ameaça da extrema-direita aos seus direitos, aos direitos de todos, ao direito à vida.

O deputado André Janones ainda estava organizando seu exército digital quando as ruas já estavam tomadas por essa juventude defendendo Lula lá de novo. Na sua primeira disputa eleitoral, em 1989, na primeira eleição presidencial após a ditadura, Lula representava, para uma legião de jovens eleitores, a esperança no futuro da nova democracia brasileira. Quatro décadas depois, o octogenário Lula representa, para a juventude, a resistência aos piores retrocessos. Sob essa inspiração, essa multidão de jovens transformou essas três semanas numa sequência de manifestações alegres, animadas, barulhentas, indignadas, divertidas: é uma geração se encontrando na luta, se encontrando nas ruas.

Manifestação liderada por estudantes na Candelária: mobilização dos jovens, enfrentando com alegria e entusiasmo os horrores do retrocesso, contagiou o Rio e o Brasil Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil - 18/10/2026)
Manifestação liderada por estudantes na Candelária: mobilização dos jovens, enfrentando com alegria e entusiasmo os horrores do retrocesso, contagiou o Rio e o Brasil Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil – 18/10/2026)

Foi o professor e historiador Luiz Antonio Simas quem deu a letra nas redes sociais que foi ficando gravada no meu espírito a cada manifestação estudantil. “Eu gosto sempre de lembrar que a alegria é um elemento crucial, inclusive nesse momento de tensionamento. da história brasileira. Mas não uma alegria alienada, uma alegria boba; uma alegria que é compatível com a raiva, como elemento mobilizador do nosso processo histórico. Uma alegria no sentido de transgredir, de resistir, de reinventar mundos onde aparentemente só a morte devia prevalecer”, disse mestre Simas.

Filósofo das ruas e pesquisador das encruzilhadas cariocas, Simas gosta de estudar festa: “não a festa no sentido de alienação, mas a festa como reconstrução do modo coletivo de vida diante de projetos de aniquilação, horror e morte”, como explicou no vídeo onde defende ainda que é crucial que a luta venha acompanhada dessa dimensão de festa, alegria e transgressão. Esse vídeo foi publicado na tarde do dia 5 quando, em Niterói, os estudantes estavam preparando aquele ato de resistência e transgressão, que transbordou para a rua com alegria e entusiasmo.

Tomara que essa novíssima geração de manifestantes siga ocupando as ruas, com essa alegria compatível com a raiva, com disposição para resistir e para avançar. E, sem esquecer, na vitória, aquela lição da derrota de 2018: “ninguém solta a mão de ninguém”; porque a luta precisa ser coletiva. E porque “é na luta que a gente se encontra” – como diz o samba-enredo da Mangueira campeã de 2019, o primeiro Carnaval sob Bolsonaro. Aliás, aqui no Rio de 2026, o samba também ocupou a rua pela reeleição de Lula, mostrando sua legítima raiz de resistência e transgressão, herança nobre dos africanos escravizados.

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Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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