Doulas da comida: o trabalho invisível das cozinheiras escolares

A cozinheira Maria Lucia: "Faço pelas crianças. Quando meu filho era menor, desejava que alguém, assim como eu, estivesse nesse lugar, preparando a comida com amor". (Foto: Guynever Brazil Maropo / Secop Suzano)
A cozinheira Maria Lucia: "Faço pelas crianças. Quando meu filho era menor, desejava que alguém, assim como eu, estivesse nesse lugar, preparando a comida com amor". (Foto: Guynever Brazil Maropo / Secop Suzano)
A cozinheira Maria Lucia: “Faço pelas crianças. Quando meu filho era menor, desejava que alguém, assim como eu, estivesse nesse lugar, preparando a comida com amor”. (Foto: Guynever Brazil Maropo / Secop Suzano)

Entre panelas e mamadeiras, um tipo de amor que também é trabalho; a rotina de quem alimenta, cuida e acarinha crianças que não são suas

Por Guynever Brazil Maropo | Inclusão e Diversidade, ODS 2, ODS 4

Publicado em 30/10/2026 - 09h51 (Atualizado há 44 minutos)

Tempo de leitura: 18 min

É manhã cedo em Suzano, na Grande São Paulo. O relógio marcava 6h40 quando seu Cláudio, o porteiro, abriu o portão para as Marias. As cozinheiras são as primeiras funcionárias a entrar na Escola Municipal Luiza Rodrigues de Oliveira, dispostas a cuidar, mais um dia, da alimentação nutritiva das crianças. A unidade escolar funciona como uma creche, localizada em um bairro periférico da cidade, e atende bebês de até 3 anos. Segundo as funcionárias, a maioria das crianças matriculadas vive em condições mínimas ou desfavoráveis, tendo ali um refúgio seguro. 

Maria Lúcia Penha começa o trabalho conferindo o cardápio do dia e separando os ingredientes para a primeira refeição dos alunos. Hoje será cuscuz com ovo e leite para as crianças tomarem. Ela molha o cuscuz com muita paciência, amor e respeito. É preciso ter cuidado e atenção. “Sou uma pessoa muito centrada no que me comprometo a fazer. Cozinhar é responsabilidade, e para nós virou rotina”, atesta. 

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Ela conta que sua área de formação é distante daquele universo. Diplomada em Ciências Contábeis desde 1995, revela que sempre gostou de cozinhar e viu na oportunidade de trabalho uma forma de se dedicar às crianças, com amor e carinho, da mesma forma que fez com os filhos. A cozinheira começou em cidades vizinhas, 19 anos atrás, até passar em um concurso público para trabalhar em Suzano. “Faço pelas crianças. Quando meu filho era menor, desejava que alguém, assim como eu, estivesse nesse lugar, preparando a comida com amor”, recorda.

O carinho que ela descreve ganhou, nos últimos anos, reconhecimento formal, com a mudança da própria nomenclatura do cargo. Antes de serem consideradas cozinheiras, o cargo era merendeira. Os alimentos chegavam pré-prontos, a maioria dentro de latas, e eram misturados antes de serem servidos aos alunos. Agora como cozinheiras, elas passaram a receber os produtos in natura, preparando tudo fresco diariamente. 

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Na cidade, o cardápio é elaborado por uma nutricionista com base nas diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Os critérios atendem às necessidades dos estudantes para cada faixa etária. Os itens entregues pela agricultura familiar chegam toda segunda-feira ao Setor de Alimentação Escolar, e são avaliados pelos técnicos para então serem distribuídos, semanalmente. “O termo cozinheira abrange mais o aspecto do nosso trabalho. Recebemos tudo fresco, e precisa ser selecionado, higienizado, cortado, para assim começar a preparar, o que é mais difícil”, analisa Lúcia. 

“O que entregamos é qualidade para elas [as crianças] e reconhecimento para nós no âmbito profissional”, complementa a cozinheira Maria Aparecida da Silva. A parceira de cozinha de Lúcia está há 11 anos na profissão, após década e meia em regime CLT na área de produção. Assim como a amiga, participou de processo seletivo e passou a merendeira no estado, onde ficou cerca de dois anos. Posteriormente, migrou para a rede municipal. Parte dessa escolha se explica pela flexibilidade do trabalho, que lhe permite acompanhar a vida dos filhos, mas também a vontade de entregar a mesma dedicação às crianças da escola. “Gosto do que faço, gosto bastante! Porque é uma satisfação a gente ver o preparo e, depois, as crianças comendo”, narra Cida. “Os alunos moram em área de invasão e podermos alimentá-los traz a paz de um trabalho bem feito”, complementa. 

Ao todo são 390 profissionais espalhados por 150 unidades, divididas entre creches e escolas. Especialmente na Escola Municipal Luiza Rodrigues de Oliveira, três profissionais se dividem no preparo das refeições. “São duas que preparam o café e a que entra mais tarde [às 8h] ainda auxilia a servir”, explica Lúcia, avaliando que o café da manhã é o período mais desafiador. Mesmo com o auxílio das colegas, ela não esconde a correria por detrás da janela. “A Cida, que entra às 8h, também ajuda no café da manhã, porque aqui é muito corrido. Depois que o nosso cardápio mudou, ficou bastante desafiador, então ela auxilia nas frutas ou na preparação da papinha para o berçário, por exemplo”, relata. 

Além do preparo diário das refeições, as profissionais também precisam estar atentas às necessidades especiais dos alunos com restrição alimentar, intolerantes a lactose ou diabéticos, por exemplo. Segundo a Secretaria de Educação do município, são 329 alunos nestas condições, o que aumenta a atenção no preparo. “A equipe é muito unida, uma respeita o espaço da outra, e estamos aqui para nos ajudar em prol dos alunos”, garante Cida. 

Quanto às particularidades, os alunos que apresentam seletividade alimentar associada a transtornos do neurodesenvolvimento têm os responsáveis chamados para conversar com a nutricionista, a fim de ajustar o cardápio de forma individualizada e com responsabilidade técnica, assegurando o bem-estar da criança.  Na escola de Cida, são seis com cardápio especial. Antes do café da manhã, a equipe já é avisada sobre quais alunos com restrição estão presentes. Dentro da cozinha, um mural apresenta a foto de cada criança, idade, laudo e especificidade, um guia visual que orienta as profissionais na hora de montar o prato certo. Para reforçar esse cuidado, cada um tem seu copo identificado, o que evita qualquer troca na hora de servir. 

Além disso, as cozinheiras, ainda, mantêm contato permanente com as nutricionistas sempre que surge alguma dúvida. Maria Lúcia sabe o peso que carrega cada mamadeira que passa pelas mãos dela. “Como é uma rotina, já sei o que precisa ser feito, mas a mente precisa estar bem focada no que está fazendo, para jamais ter o risco de mandar comida quente para os bebês”, observa. É essa mesma vigilância que separa, na visão das duas, o trabalho de hoje da rotina anterior. As Marias comparam as experiências, na cozinha estadual, com os alimentos enlatados, e na rede municipal de hoje, com a produção in natura. 

A comparação ganhou novo contorno nos últimos anos, quando a Secretaria de Educação de Suzano firmou parceria com o estado, e passou a fornecer também a alimentação para a rede fluminense. Hoje, a municipal atende 26.263 alunos, e outros 37.539 são beneficiados via convênio estadual, somando 63.802 estudantes distribuídos entre as 150 unidade, com média mensal de 64,2 toneladas de alimentos distribuídos.  Para Cida, a diferença entre as duas redes não está só no volume de comida preparado, mas na lógica do trabalho.

Na rede estadual, cada cozinheira responde por um turno: quem prepara o café da manhã não é a mesma que trabalha à tarde, e o cardápio tem poucas opções. Na rede municipal, as três Marias dividem o mesmo turno e cobrem juntas as necessidades dos alunos ao longo de todo o dia, sobretudo dos bebês, que não têm hora certa para comer. “Elas fazem em grande quantidade, sim, mas é arroz, feijão, carne com legumes, uma salada, e acabou. Temos que fazer tudo separado, atendendo cada particularidade de criança. Se o aluno precisa de mamadeira o dia inteiro, é o dia inteiro que ele vai receber. É uma atenção realmente para as crianças”, explica Cida. “Até na hora de pôr no prato, a gente bota separado, eles não gostam que misture”, aponta Maria, arrumando as travessas na bancada. 

Enquanto uma mexe as panelas, a outra separa os alimentos, num ritual diário para garantir o controle da produção. A cada refeição, a dupla confere o cardápio, manuseia os ingredientes, retira a amostra da alimentação, guarda no estoque e preenche a documentação: planilha de temperatura, controle de estoque, controle de qualidade, quantidade servida. Nada escapa do papel.  “Isso é muito importante para a segurança alimentar das crianças. Antigamente só se servia o alimento e pronto, o risco de contaminação era maior”, lembra Lúcia, apontando as planilhas sobre a mesa. Para Cida, essa exigência veio acompanhada de mais cobrança e de mais responsabilidade. “A gente não está aqui de enfeite, cozinha e pronto, temos controle de tudo o que se faz nesse ambiente. Então, nós também temos muita cobrança”, sublinha Maria. 

Legumes e hortaliças que serão utilizados na alimentação das crianças: comida saudável. Foto Secop Suzano

Cozinhar e servir podem parecer simples a quem observa de fora. Cida discorda. “Não é um serviço simples. A merendeira servia e pronto. Somos cozinheiras profissionais, temos capacitação, temos formação para que exercer essa função”, orgulha-se. Enquanto preparam a última refeição do dia, as duas relembram os desafios de variar o cardápio. É nesse momento que a criatividade de cozinha caseira se aproxima da inventividade dos chefs badalados, testando o que dá certo e o que precisa ser refeito. Cida é uma das pioneiras nessa busca por novas receitas. Ela experimentou bolo com casca de banana, bolo com flocão de milho e mingau de flocão com banana amassada, sempre sem adição de açúcar. “Quando entrou o flocão, testei um bolo. A diretora dá o aval e invento umas novas”, comenta, orgulhosa da autonomia que conquistou. 

Se a criança rejeita algum item, cabe à professora retirá-lo, sem prejudicar o restante da refeição. Nem tudo, porém, é resistência. Há pratos que os alunos pedem para repetir, e é Maria Lúcia quem lembra deles com um sorriso enquanto arruma as panelas para o dia seguinte. “Eles gostam bastante de canja. O ovo também foi muito bem aceito, pedem bastante ovo mexido. Ovo cozido gostam também”, lista. 

São nesses pequenos pedidos repetidos, mais do que em qualquer elogio formal, que as Marias encontram a prova de que o trabalho está dando certo. É um reconhecimento que cabe num prato vazio e na criança que volta pedindo mais. Fora da cozinha, porém, o reconhecimento quase nunca aparece. Poucos enxergam o tanto de cuidado, técnica e repetição que sustenta cada refeição do dia, do café da manhã ao jantar. Aparece já na segunda-feira, quando a fome dos alunos expõe o tanto que esse trabalho pesa sobre elas, mesmo sem ninguém perceber. 

Com preocupação, Cida revela realidade difícil com a qual precisam lidar todo início de semana. “Aqui é uma região muito carente, tem área de invasão”, lamenta Maria. Aparecida continua o raciocínio. “Então aqui eles têm uma rotina, mas quando chegam de casa depois do fim de semana, estão morrendo de fome”, descreve. Não é coincidência que a segunda-feira seja o dia em que o cardápio caprichado mais importa: cuscuz com ovo e leite pela manhã, arroz com feijão, legumes e carne moída no almoço.  “É o dia em que eles mais se alimentam. Sentem falta da comida, e é aqui que comem saudável”, explica Maria Aparecida. 

Cozinheira na escola: importância da participação da família na alimentação dos alunos (Foto: Guynever Brazil Maropo / Secop Suzano)
Cozinheira na escola: importância da participação da família na alimentação dos alunos (Foto: Guynever Brazil Maropo / Secop Suzano)

Enquanto cozinham os alimentos para a próxima refeição, as Marias relembram que a escola é importante para que as crianças tenham a possibilidade de descobrir novos sabores e formas de se alimentar. Mas reforçam que é um trabalho que só funciona em conjunto com a família.  “Elas ficam o dia inteiro aqui e recebem o que precisam. Mas, quando chegam em casa, a mãe dá o que elas querem, de nada adianta o nosso esforço”, desabafa Aparecida, acrescentando que muitos pais chegam a questionar por que a escola não pode simplesmente servir a mesma comida que a criança come em casa.  

Para as Marias, formar o paladar e os hábitos de uma criança é tarefa que precisa unir escola e família, o papel dos pais, das professoras, e também das cozinheiras. No entanto, elas notam que a creche ainda carrega, para muita gente de fora, a imagem de refúgio para não lidar com o filho, ou de simples espaço de recreação. “Não é mais assim, a vaga na creche não é só para a mãe que trabalha, é para garantir, no todo, que eles se desenvolvam, e a alimentação faz parte disso. Se ele estiver bem nutrido, bem alimentado, a mente vai funcionar”, receita Cida. 

Não é por acaso que todas atendem pelo mesmo nome. Maria Lúcia, Maria Aparecida (Cida), e Márcia Maria, os apelidos mudam, mas o “Maria” permanece. Para além da coincidência, o nome carrega uma história. Durante décadas, foi comum que patrões chamassem cozinheiras e funcionárias domésticas por apelidos que apagavam quem elas eram. O nome genérico servia para lembrar o lugar que a sociedade esperava que ocupassem: o da servidão e não o da individualidade. Porém, existe uma palavra que fez o caminho inverso. “Doula” vem do grego doulē, que significa mulher que serve. A palavra atravessou séculos e hoje batiza profissão de prestígio, a de quem acompanha com técnica, formação e presença, o parto de outra mulher.  

O nome “Maria”, designado aquelas que cozinham para as crianças mais pobres da cidade, ainda espera essa mesma travessia. Como as doulas, Maria Lúcia, Maria Aparecida e Márcia Maria, também acompanham processo delicado de nutrir e formar o paladar de uma criança nos primeiros anos de vida, com técnica, atenção individualizada e afeto. A diferença é que, enquanto uma profissão se libertou do peso do nome de origem, a outra segue presa a ele. É justamente sobre esse reconhecimento, ou a falta dele, que ambas falam sem hesitar. 

Questionadas se a comunidade escolar e os pais entendem que há dedicação, atenção e técnica por trás do que fazem, ou se acreditam que o trabalho se resume a servir a comida, ambas respondem, em um só coro. “Não”. Maria segue no desabafo. “Não tem reconhecimento nenhum. Muitas vezes, vou falar a verdade, eles acham que a gente é só a cozinheira da escola. Somos cozinheiras prestadoras de serviço, para atender o aluno nutricionalmente, desde o recebimento até o fim do dia”, desabafa Maria sobre seu papel à frente da cozinha. 

Maria Aparecida respira fundo antes de continuar, os olhos já marejados. Para ela, o reconhecimento que resta é apenas o de si mesma, a certeza, ao final do dia, de que fez um bom trabalho.  “Então, não tem reconhecimento nenhum. Mas a gente tem um reconhecimento interno. Eu, pelo menos à noite, boto minha cabeça no travesseiro e penso, fiz a minha parte, fiz um bom trabalho”, confessa, emotiva. Maria Lúcia também se emociona e, com a voz embargada, afirma que esse reconhecimento é algo pessoal, que só quem já ocupou o mesmo lugar de trabalho consegue enxergar de verdade.  “A questão do reconhecimento é uma coisa muito pessoal. Tenho em mim que faço um bom trabalho. Mas o reconhecimento do ser humano é outra coisa”. 

Além dos desafios da própria função, Lúcia aponta invisibilidade que vem até dos colegas de trabalho, que, às vezes, nem bom dia oferecem. “Geralmente, quem reconhece é quem trabalhou aqui. A gente tem as colegas que passaram pela cozinha, elas sabem o roteiro, vamos dizer assim”, relata a cozinheira. Ela lembra de diretores que sempre valorizaram o trabalho da equipe, mas também de outros que raramente a cumprimentavam ao passar pela cozinha. Lúcia cita ainda professores incapazes de um “bom dia” ou “até logo”. “Mas isso, para mim, não incomoda. A gente às vezes também passa e nem vê a pessoa, né? O reconhecimento é muito pessoal”, conforma-se. 

O relógio já marca o fim de tarde quando Cida para um instante, ainda de luvas, para falar sobre esse cuidado extra que parece não caber na descrição do cargo. Para ela, é parte do trabalho, e não vê motivo para negá-lo. “Fiz um concurso, sou profissional, sei o que eu vim fazer aqui. Eles não sabem”, completa, com a voz mais firme. É esse saber, segundo ela, que sustenta cada ajuste feito ao longo do dia, mesmo quando dá mais trabalho. 

Maria cita o exemplo de um bebê de seis meses, que não segue horário fixo para mamar. Se estiver dormindo na hora prevista, a mamadeira espera; se acordar fora do horário, é a cozinha que se adapta. “Eles estão aqui para serem bem cuidados, serem amados. Eles são jogados, vamos dizer assim, de forma pejorativa, no meio de adultos que nunca viram antes. E se eles não tiverem isso, a minha forma de acolhê-los é essa. Faço, com amor”, finaliza Cida, encerrando mais um dia de trabalho e cuidado na cozinha.

*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Guynever Brazil Maropo, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.

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Guynever Brazil Maropo

Jornalista, correspondente da Agência Mural. Gosta de ouvir, de conversar e de contar histórias, e se sensibiliza com cada vida que encontra pelo caminho em Suzano e região.

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Jornalista, correspondente da Agência Mural. Gosta de ouvir, de conversar e de contar histórias, e se sensibiliza com cada vida que encontra pelo caminho em Suzano e região.

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