Mulheres lésbicas cisgênero expõem falta de cuidado e atenção nos atendimentos ginecológicos

Tudo que me aproxima ao sagrado, 2026 (Arte Adrielle Mariana)
Tudo que me aproxima ao sagrado, 2026 (Arte Adrielle Mariana)
Tudo que me aproxima ao sagrado, 2026 (Arte Adrielle Mariana)

Constrangimento, invalidação e despreparo para atendimento inclusivo espreitam essas pacientes nos serviços de saúde

Por Adrielle Mariana | Inclusão e Diversidade, ODS 3, ODS 5

Publicado em 23/10/2026 - 09h49 (Atualizado há 5 minutos)

Tempo de leitura: 12 min

Uma consulta ginecológica é essencial para a saúde das mulheres. Além de acompanhar diferentes fases da vida, é o momento de maior intimidade entre paciente e profissional para esclarecer dúvidas sobre sexualidade e saúde reprodutiva. Esse acompanhamento possibilita a prevenção e o diagnóstico precoce de diversas condições, desde infecções simples até alterações hormonais e estruturais. Entretanto, para mulheres lésbicas cisgênero, o acesso ao serviço ainda é marcado por lacunas e falta de preparo profissional.

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O II Relatório do LesboCenso Nacional de 2024, iniciativa da Associação Lésbica Feminista de Brasília (Coturno Vênus) em parceria com a Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), aponta que 80% das 21 mil entrevistadas afirmaram ter medo de relatar a lesbianidade durante o atendimento de saúde. Além disso, três em cada dez relataram ter sofrido algum tipo de violência em consultas ginecológicas.

“Acho que foi mais doloroso me assumir para a ginecologista do que para a minha família”, relembra a estudante Maria Eduarda Mondaini, 22, sobre o processo de “sair do armário” no consultório. Ela conta que revelou sua orientação sexual à família ainda na adolescência e recebeu acolhimento. Contudo, abordar o assunto com a médica gerou forte apreensão pelo receio do julgamento, já que ela morava em uma cidade pequena, onde a maioria das pessoas se conheciam.

Maria Eduarda: “Foi mais doloroso me assumir para a ginecologista do que para a minha família” (Foto: arquivo pessoal)

Natural de Guarapari, município no litoral Sul do Espírito Santo com 124 mil habitantes, Maria cresceu em um local com poucos profissionais, onde a maioria das mulheres que ela conhecia frequentavam o mesmo consultório. A história ganhou novos caminhos quando ela se mudou para a capital Vitória (ES) com uma população residente de 322,9 mil pessoas.

A apreensão sentida pela estudante é explicada em estudo dos pesquisadores Adriane das Neves Silva e Romeu Gomes, publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva e disponível no repositório da Fiocruz. Segundo os autores, as barreiras no acesso integral à saúde dessa população estão ligadas à negação da sexualidade e à reprodução de violências veladas nos consultórios.

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Para analisar esse cenário, os estudiosos recorrem aos conceitos de habitus e violência simbólica, do sociólogo francês Pierre Bourdieu. O habitus refere-se ao conjunto de modos de pensar, sentir e agir incorporados socialmente ao longo da vida, orientando comportamentos automáticos. Já a violência simbólica ocorre quando discursos, normas e atitudes heteronormativas são reproduzidos como “naturais”, confinando a paciente em posição de inferioridade ou constrangimento.

“Tinha medo de ela ser conservadora, de me olhar com nojo, de me agredir verbalmente ou de comentar com outras pessoas da cidade. Todo mundo ia nela”, relata Maria, lembrando que a profissional atendia familiares e conhecidos da região. A experiência da estudante evidencia como o receio da exposição e do preconceito afasta mulheres do direito a um cuidado digno desde antes da consulta.

A intimidade do figo. Arte Adrielle Mariana

O medo de serem quem são

O receio do julgamento e do estigma ainda faz muitas mulheres lésbicas hesitarem em se abrir no consultório. Para entender esse impacto, a reportagem ouviu oito mulheres cisgênero, de 21 a 31 anos, sobre suas vivências nos serviços de saúde em ginecologia. Diante do tema atravessado por tabus, todas optaram pelo anonimato. A preservação da identidade foi condição essencial para que se sentissem seguras em expor situações vulneráveis. Revelar a orientação sexual ou relatar práticas de sua vida íntima ainda representa o risco de sofrer constrangimento, invalidação de suas dores, preconceito velado ou rejeição, que se refletem também no ambiente familiar e social.

Entre as entrevistadas, cinco (62,5%) disseram que sempre informam a orientação sexual ao profissional. Outras três (37,5%) relataram que só abordam o assunto se forem questionadas. Além disso, a maioria apontou o receio da reação do médico como o principal obstáculo para falar abertamente sobre sua vida sexual.

A ginecologista carioca Mariana Lyrio, especialista em sexologia e sexualidade humana pela Universidade de São Paulo (USP), atua no atendimento à população LGBTQIAPN+ desde a formação e dedica seu consultório ao acompanhamento de mulheres lésbicas, bissexuais, pansexuais e pessoas transmasculinas.

Ela explica que a violência institucional na saúde se manifesta de diversas formas: da presunção de heterossexualidade e ausência de exames preventivos à criação de ambientes em que a paciente não se sente acolhida. Quando hospitais e postos de saúde falham no acolhimento, acabam afastando essas pacientes da rotina de exames. “Quando a gente exclui essas mulheres dos espaços de saúde, elas têm menos acesso e as lesões chegam muito avançadas”, alerta a médica.

Virgindade não é um “lacre”

Conceitos ultrapassados sobre a sexualidade feminina ainda afetam a prática médica, sobretudo em exames ginecológicos. Pesquisas da Fiocruz apontam que a heterossexualidade muitas vezes é tratada como padrão naturalizado na assistência à saúde e que, em alguns casos, crenças pessoais e religiosas de profissionais acabam interferindo no atendimento. A tendência se refletiu na experiência da professora Cecília, de 27 anos. Mineira residente em São Paulo, ela atua em uma escola privada tradicional e solicitou o uso de um nome fictício nesta reportagem para preservar sua privacidade no ambiente de trabalho.

A professora explica que sua orientação sexual nunca foi um tabu na vida pessoal. Contudo, em consulta de rotina, foi questionada sobre o uso de métodos contraceptivos. Ao explicar que mantinha relacionamento com outra mulher há cerca de dez anos e não se relacionada sexualmente com homens, a abordagem tomou rumo constrangedor. “A médica me perguntou se eu tinha rompido o hímen. Respondi que sim, porque lembrava desse momento. Mas ela insistiu: ‘Você tem certeza de que ele foi rompido?’. Passou a perguntar sobre os brinquedos que eu costumava usar e se havia penetração nas minhas relações. Foi uma experiência bastante desconfortável”, relata.

A ginecologista Mariana aponta que a situação reflete visão antiquada que reduz a vida sexual à penetração e à presença do falo. “Isso faz parte do mito da virgindade tratada como se fosse um ‘lacre’. A virgindade não é a ruptura do hímen, é o início da vida sexual para cada pessoa”, ensina. Segundo a médica, essa incompreensão compromete a própria indicação de procedimentos clínicos, como o ultrassom transvaginal e o exame preventivo (papanicolau), cujas decisões devem ser pautadas por critérios individualizados, e não por estigmas.

A ginecologista carioca Mariana Lyrio, especialista em sexologia e sexualidade humana: atendimento inclusivo é fundamental para mulheres lésbicas e bissexuais (Foto: Reprodução Instagram)
A ginecologista carioca Mariana Lyrio, especialista em sexologia e sexualidade humana: atendimento inclusivo é fundamental para mulheres lésbicas e bissexuais (Foto: Reprodução Instagram)

Informação e acolhimento para um cuidado adequado

Uma consulta ginecológica qualificada começa por escuta, respeito e reconhecimento das diferentes formas de viver a sexualidade. Mais do que garantir a realização de exames, é preciso romper a invisibilidade em torno da saúde sexual de mulheres lésbicas e bissexuais, garantindo acolhimento livre de pressupostos ou julgamentos.

Maria, por exemplo, conta que só percebeu que estava recebendo orientações incompletas após a mudança para a capital. Em Vitória, procurou outra profissional que adotou abordagem diferente e, pela primeira vez, passou por exames de prevenção de ISTs e do colo do útero. A situação a fez entender que o acesso à informação não deveria depender apenas da iniciativa da paciente, mas também da postura do médico.

Para Mariana Lyrio, o primeiro passo é buscar profissional que transmita segurança e esteja preparado para atendimento inclusivo. Ela explica que, embora ainda falte investimento em estudos específicos para essa população, a rotina de exames preventivos segue, em grande parte, as diretrizes do Ministério da Saúde, devendo considerar a idade, o histórico clínico e as práticas sexuais de cada paciente. Entre os principais cuidados estão:

  • Rastreamento do HPV, recomendado a partir dos 25 anos;
  • Mamografia a partir dos 40 anos;
  • Testagem periódica para Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), como HIV, sífilis e hepatites virais.

A médica ressalta que o HPV é transmitido pelo contato entre pele e mucosa, inclusive entre mulheres, e pode estar associado a cânceres de colo do útero, vulva, vagina e garganta. No que tange à proteção, as opções de métodos de barreira e prevenção ainda são escassas e pouco divulgadas no país. Cabe à paciente e ao profissional dialogarem sobre as estratégias mais adequadas para a rotina. Entre as alternativas estão a camisinha interna, o dental dam (barreira de látex para sexo oral), o preservativo externo adaptado e, quando indicado, a prevenção combinada, que inclui a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP).

O conceito do habitus e a violência simbólica não podem ser maiores que o cuidado com a saúde da mulher. Em situações de discriminação, lesbofobia ou violência institucional durante o atendimento, a orientação é registrar formalmente a denúncia nas Ouvidorias do SUS, pelo 136, no Conselho Regional de Medicina (CRM) do seu Estado ou em canais de defesa dos direitos humanos, como o Disque 100.

*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Adrielle Mariana, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.

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Adrielle Mariana

Jornalista formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Voltarredondense apaixonada por música, viajante por profissão, movida pelos sonhos e pelo desejo de descobrir o mundo. Tenho interesse especial por diversidade, relações raciais e cultura.

Adrielle Mariana

Jornalista formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Voltarredondense apaixonada por música, viajante por profissão, movida pelos sonhos e pelo desejo de descobrir o mundo. Tenho interesse especial por diversidade, relações raciais e cultura.

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