O campeão que não existe mais

Seleção brasileira fracassa pela sexta Copa seguida, bate recorde de jejum e expõe as muitas mazelas do futebol por aqui

Por Aydano André Motta | ODS 17

Publicado em 24/07/2026 - 12h23

Tempo de leitura: 9 min

Vinicius Jr: solitário protagonista da seleção, insuficiente para garantir vitórias. Foto Nelson Theme/CBF

A onipresente alegria de Martin se dissolveu, substituída pela fisionomia sisuda, de aparições bissextas em seus 5 anos e meio de vida. Ele, então, sentou-se em silêncio (outra raridade) num canto da sala, o olhar parado em lugar nenhum. Por fim, chorou. Ainda vestia a camisa amarela com cinco estrelas no peito, quando sentiu o inédito entendimento da Copa do Mundo ruir em frustração e lágrimas.

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A desenxabida seleção brasileira de Vinicius Jr, Carlo Ancelotti, Neymar, Casemiro e, sobretudo, da CBF acabara de ser eliminada pela Noruega, equipe consistente e neófita, de retrospecto invisível no teatro da elite boleira. Sem oferecer grande resistência, caíra eliminada nas oitavas-de-final, igualando a desventura de 1990, o pior resultado desde que o Mundial passa ao vivo pela televisão.

No bojo, materializou recorde no jejum de conquistas. A última, no remoto 2002, só não some na poeira dos tempos graças à internet e seu permanente looping das imagens dos passes, dribles, tabelas e gols de craques como não mais existem. Garrinchas, Didis, Gersons, Ronaldos, Rivaldos, Rivellinos, Bebetos, Romários – e Pelé, que só cabe no singular – vivem lá, tragicamente sem sucessores.

O choro ingênuo – e legítimo – do minitorcedor não dá conta das mazelas que confinaram o país pentacampeão na desimportância dos perdedores. Tudo obra de adultos velhacos e suas barbeiragens dentro e, especialmente, fora de campo. Décadas de incompetência e leviandade tenazes desbotaram a lendária camisa canarinho até ela quase não ser mais reconhecida em campo.

A meia dúzia de revezes na principal competição do futebol ostenta quilométrico prontuário de equívocos, a ponto de evocar diagnóstico assustador: a Brasil desaprendeu seu jeito de jogar, um dia cultuado em dimensão planetária, e não pôs qualquer outro no lugar. Reduziu-se a um pastiche que jaz pelas Copas, à espera de ser batido pelo primeiro oponente melhorzinho a lhe cruzar o caminho.

A viagem nefasta do topo à lama passa por muitas estações. Nem todas são culpa exclusiva do Brasil. Periférico na ordem ultracapitalista do planeta bola, o país transformou-se em vigoroso exportador de pé-de-obra. Nenhum menino ou menina que se inicia no penoso projeto de chegar ao esporte profissional sonha atuar no seu time do coração ou mesmo na seleção. A obsessão está na Europa, chega a um dos dez times obscenamente ricos que dominam o negócio. Para materializar o plano, vale tudo – até se desfigurar como escola de futebol.

Estamos nessa há algumas décadas, tempo suficiente para envenenar a formação de talentos por aqui. O país de Zizinho, Rivellino, Zico, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo – de Pelé, o maior de todos, em todos os campos, por todos os tempos – não produz mais camisas 10. A terra de Ademir Menezes, Romário, Ronaldo, Reinaldo, Careca, Adriano Imperador virou um deserto de centroavantes. Duas posições que, ao longo da história, consolidaram-se como emblema da magia mais brasileira, deram lugar a uma linha de montagem de pontas, atacantes especializados em atuar pelas laterais do campo, normalmente assistentes dos reais protagonistas.

E por quê? Mais um item para ratificar a figurinha do Karl Marx telefonista e a frase “Seu problema se deve ao capitalismo; mais uma alguma coisa que eu possa ajudar?” No sonho da fortuna instantânea dos campos europeus, o extrativismo se adequa ao mercado. Na outra ponta, os clubes brasileiros, dominantes economicamente no cenário regional, resolvem nos países vizinhos as carências imediatas. Daí, o melhor camisa 10 em território nacional ser, há alguns anos, o uruguaio Arrascaeta.

Não será fácil voltar atrás – talvez seja impossível. O Brasil está lotado de observadores dos zilionários, à caça de talentos para levá-los o mais cedo possível. Brotam ainda escolinhas franqueadas pelos clubes europeus – Real Madrid, Manchester City, Paris Saint-Germain, Chelsea, Barcelona, Benfica e vários outros – oferecendo “formação para atuar nas equipes mais ricas do mundo”. Como não existe almoço grátis, será do jeito que os endinheirados determinarem. Assim, os meninos e meninas ainda na infância não brincam mais de bola; são adestrados a partir de conceitos táticos, métodos físicos, ordens rígidas para os movimentos mais banais em campo. O lúdico está morto.

As famílias dos pequenos prodígios da bola têm nada com isso e devem ter autonomia para escolher seus caminhos. A liberdade para se trabalhar como e onde quiser inclui-se nos preceitos do estado de direito. Virar o jogo envolve questões econômicas, políticas, globais. Tremendamente complexo.

Ainda mais porque não tem ninguém preocupado com essas e outras agendas. Os “donos” do futebol brasileiro superam-se no vexame de posturas, atitudes, decisões e comportamentos equivocados, venenosos e antiéticos. Entre as seis Copas do jejum, cartolas foram presos por corrupção; afastados por assédio sexual; desmoralizados internacionalmente por atos patéticos, uma numerosa coleção de constrangimentos.

Agora mesmo, enquanto a seleção toureava as próprias carências na Copa, o presidente da CBF, Samir Xaud, cruzava os céus da América do Norte para se dividir entre mulher e amante. Escolhas. Pode-se até invocar o bordão “vida pessoal” como muleta, mas imagem conta – muito. A entidade que ele preside fracassa sistematicamente, enquanto os mais diversos males corroem o futebol por aqui. Parece que para ser cartola de futebol precisa nadar na lama, ignorar padrões éticos e patologias afins.

O italiano Carlo Ancelotti: técnico mais vencedor da história do futebol de clubes fracassa na seleção brasileira. Foto Rafael Ribeiro/CBF

Trata-se do país que tomou de 7 a 1 na Copa jogada no seu território – evento histórico tratado por cartolas, treinadores e parte considerável da mídia como “algo extraordinário, fora de qualquer parâmetro” e, por isso, inútil como sintoma. Pura empulhação retórica. Atribuir os insucessos da seleção a “dias em que tudo deu errado” ou “azar em campo” ou “resultado injusto” ou qualquer outra desculpa não contribui no enfrentamento às urgências.

O time que fez Martin chorar acaba como consequência dessas e de muitas outras mazelas. O técnico Carlo Ancelotti chegou em cima da hora (outro equívoco da CBF, esperar tempo demais por ele), os convocados foram, salvo uma ou outra omissão, aquele famoso o que tem para hoje. Houve, sim, o mico Neymar, a solidão de Vinicius Jr, as ausências de Estevão e Rodrygo lesionados… Tudo verdade. Mas as perspectivas estão mais para cinza sombra do que para o ensolarado amarelo canarinho de outros tempos.

A seleção ainda fará muita criança chorar – e não será de alegria.

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Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

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