Há imagens que pedem legenda e há imagens que dispensam. Faz alguns dias que durante o Estúdio i, da GloboNews, tivemos a que pertence ao segundo grupo: de um lado do telão, Flávia Oliveira, 57 anos, a menina de Irajá que se tornou uma das vozes mais respeitadas do jornalismo no país; do outro, Ana Elisa Santos Silva, 21 anos, filha de professora, estudante de Direito em Divinópolis, recém-eleita deputada federal por Minas Gerais com mais de 524 mil votos. Entre as duas, 36 anos de diferença e uma mesma história.


Desde o resultado das urnas, Ana Elisa vem recebendo ataques racistas e misóginos, ameaças de morte e de estupro. A resposta não veio em tom de denúncia protocolar e sim como quem conversa com uma mais velha da família. Ana Elisa lembrou aos comentaristas e também à entrevistadora Andréia Sadi que a ancestralidade é marcada pela dor, e que o lugar que a própria Flávia ocupa também é alvo. Admitiu que teme pela vida, mas disse que vive um dia de cada vez, porque sabe que é “o sonho mais sonhado da minha ancestralidade”. Flávia chorou, enxugou as lágrimas ao vivo, ficou alguns segundos em silêncio, e nós, o país, assistimos querendo abraçá-la.
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Numa corrida eleitoral marcada por cortes de vídeo raivosos e ódio fabricado sob medida para o algoritmo, foi um dos poucos momentos em que o afeto tomou conta da tela. Não o afeto encenado da propaganda, com trilha emotiva e drone sobrevoando lavoura. Foi, ali, um afeto de reconhecimento. Uma mulher negra que abriu caminho a duras penas olhando para outra que chega agora, e enxergando nela tudo o que custou chegar.
Por décadas, a televisão brasileira mostrou mulheres negras como pauta, quase nunca como quem faz a pergunta e quem responde a ela com autoridade. Ali, as duas cadeiras eram delas. A jornalista não era figurante da notícia e tampouco a entrevistada não era personagem de reportagem policial. Eram, as duas, profissionais no pleno exercício do ofício, e é justamente por isso que a emoção se desarma. Quem batalhou muito para fazer o que faz reconhece, no outro, o tamanho da batalha.
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Veja o que já enviamosA Câmara eleita em 2026 tem 109 mulheres, a maior bancada feminina da história, mas ainda apenas 21% das 513 cadeiras. Mulheres negras, pretas e pardas, serão 34 deputadas, ou 6,6% da Casa, segundo levantamento do portal Alma Preta, num país em que elas somam mais de um quarto da população. A organização Mulheres Negras Decidem chama atenção para um dado que conversa diretamente com a cena da GloboNews: a maioria das mulheres negras eleitas para a próxima legislatura é jovem. No Senado, nenhuma das 12 eleitas é negra. Avanço, sim, mas equidade, um lugar mais distante.
É neste contexto que uma imagem importa. Uma deputada de 21 anos que nunca tinha ocupado cargo eletivo chega a Brasília como a mulher mais votada da história de Minas para a Câmara e a deputada mais jovem já eleita no país. Uma jornalista que fez carreira num mercado que raramente se parecia com ela é quem a recebe. Uma vê na outra o futuro; a outra vê na primeira a prova de que é possível.
Ana Elisa usou parte da entrevista para desmontar o clichê de que sua geração não quer saber de política. A própria biografia responde: escola pública até o fim do ensino médio, militância estudantil por bolsas, permanência e passe livre, estágio no Tribunal Regional do Trabalho, a política aprendida acompanhando a mãe ao sindicato. E uma meta ousada: daqui a quatro anos, quer ter ajudado a eleger um exército de mulheres pretas de 21 anos para a Câmara. Ela já resumiu a ambição de outro jeito: ser a primeira não significa querer ser a única.
Ninguém alcança 524 mil votos aos 21 anos sozinha. Ela chega carregada por uma mãe solo professora, por uma escola pública que a viu florescer, pelo congado da sua terra, por gerações de mulheres que não puderam estar onde ela estará. Quando Flávia chorou, chorou também por esse percurso, o de quem sabe que cada cadeira ocupada por uma mulher negra foi conquistada em mutirão.
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