Foi após a derrota do Brasil na 98ª edição do Oscar, no verão de 2026, que a indústria cinematográfica voltou ao centro dos holofotes. O país comemora o sucesso comercial e crítico em premiações internacionais dos filmes Ainda estou aqui (2024) e O agente secreto (2025), que causaram a ilusão de que o cinema brasileiro estaria florescendo. Mas enquanto isso, mais da metade dos filmes lançados em 2025 não chegou a mil espectadores.
Em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, o audiovisual transforma numerosas realidades por meio de investimentos massivos no setor, como a maior parte do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) e da Lei Paulo Gustavo.
O sudeste tem sido o protagonista dessa indústria desde o surgimento do cinema brasileiro e, conforme dados propagandeados pelas prefeituras de São Paulo e do Rio de Janeiro, essas capitais movimentaram mais de 11,7 bilhões de reais. Mas, mesmo nessas capitais que representam tanta abundância, existe um cenário místico sobre o destino dessas produções.
Embora o investimento público concentrado nesses estados seja robusto em comparação às demais regiões, ele ainda fica aquém das necessidades estruturais da indústria. Mariana Rodrigues, escritora da newsletter Simplificando Cinema, pondera que os incentivos à produção, como a Lei Paulo Gustavo, nasceram sob a lógica de socorro setorial, e não da sustentabilidade do mercado. “Foi uma possibilidade de gerar renda e empregos para um setor atingido severamente pela pandemia, mas não se pensou a longo prazo”, afirma.
De acordo com a pesquisa do banco de dados Filme B Box Office Brasil, dos filmes brasileiros lançados nas telonas em 2025, a maioria fracassou em alcançar mais de mil espectadores. Essa é a quebra de expectativa que os resultados de Walter Salles e Kleber Mendonça Filho impuseram, mas dois filmes isolados não podem ser responsáveis por levar o cinema nacional ao êxito em meio a tantos desafios. A receptividade estrangeira à produção do Brasil não reflete o que se vive nos cinemas locais.

Para além das aparências
O setor cinematográfico brasileiro é apresentado como se tivesse um sucesso maior do que realmente tem. A produção em massa gerou mais obras esquecíveis e salas vazias do que filmes memoráveis, o que ajuda a explicar porque a indústria cinematográfica se encontra em um cenário mais crítico do que aparenta.
A alguns casos contribuíram para a construção dessa ilusão de reconhecimento e consumo, como Homem com H (2025), O último azul (2025) e Vitória (2025). O fato de que dos 203 filmes lançados ano passado, 111 foram vistos por menos de mil pessoas, não denuncia um problema de desinteresse do público, mas de distribuição.
Financiar a produção desses filmes sem gerar também um plano de circulação e políticas que fomentem a distribuição vai sentenciar o cinema nacional a nadar, nadar e, no fim, morrer na praia. Para Marina Rodrigues, a distribuição sempre foi um “tabu” em meio aos investimentos do FSA.
Desde a Lei do Audiovisual de 1993 até a consolidação do FSA em 2006, o setor avançou em matéria de produção, mas a distribuição nunca entrou de fato na equação para ser solucionada. Em 2020, após o sucateamento do setor no governo Bolsonaro, essa onda de desenvolvimento cessou e esses problemas seguem fora de foco.
“A massa estadunidense invadiu o sistema de distribuição brasileiro e forçou goela abaixo todos os seus filmes da época”, afirma Pedro Marchiori, cineasta e estudante de cinema da UFF. Marina reforça o ponto do universitário ao dizer que “muito dessa visão precária de distribuição vem de uma mazela em que o setor exibidor também é regido por um lobby estrangeiro, que sempre ditou o que passaria nas telas de cinema”.
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Veja o que já enviamosO domínio norte-americano foi tão predatório que os brasileiros exibiam as produções hollywoodianas não só por lucro, mas por medo da concorrência desleal. “Também porque os americanos podiam comprar os estabelecimentos que se recusassem a vender seus filmes, de tanta grana que eles tinham e têm até hoje”, aponta o cineasta.
Talvez as pessoas comecem a refletir que o problema de distribuição é a ausência de políticas públicas. E que, a partir daí, se inicie uma coalizão para melhorar o cinema nacional, nos moldes da mobilização pelo fim da escala 6×1
Essa exploração encontrou uma brecha na lei de cotas, que muitos consideram mal formulada. “A cota de tela continua sendo o principal mecanismo de defesa do mercado interno que os países utilizam há mais de 100 anos. O problema brasileiro não está na lei, mas sim na forma como isso é pensado”, explica Mariana Rodrigues, especialista em políticas públicas. Redes instaladas nos shoppings têm exibido filmes nacionais em horários com poucos ou nenhum espectador presente para seguir a cota de tela, política que reserva 16% das obras em cartaz para produções brasileiras.
“O Brasil carece de um sistema de cota de tela eficaz. A maioria dos filmes (salvo exceções e as grandes comédias da Globo Filmes) vem e vai sem chegar ao grande público, se reservando às exibições em festivais e, quando muito, a sessões fora do horário comercial”, diz Gabriel de Freitas, roteirista e estudante de Rádio TV na UFRJ. O descaso resulta em salas ocupadas por produções americanas com marketing milionário e garantia de público.

Distribuição
“Desde a sua implementação durante o governo Vargas, a cota ficou aquém do que era necessário para a formação de público e a defesa do cinema nacional. Por exemplo, há décadas, existia a regra 8 por 1: a cada 8 filmes estrangeiros, era necessário exibir um filme brasileiro”, relata Mariana Rodrigues. Em seu âmago, a lei de cotas aproximou o público mais do cinema americano do que do brasileiro. Não seria com reles regulamentações que o mercado mudaria.
O estudante Gabriel de Freitas revela ainda ter fé no futuro da cena local: “O Brasil avançou no incentivo à produção, mas ainda precisa investir na distribuição, na divulgação e na formação de público. Também acredito que mecanismos como uma cota de tela mais forte poderiam ajudar a garantir mais espaço para o cinema brasileiro nas salas de exibição”. Além do cumprimento da lei, a cota de tela deve resultar na formação de público para que essa indústria enfim floresça.
Pedro Marchiori explica que parte da invisibilidade da distribuição dos filmes é pelo fato de as produtoras pagarem os próprios custos por meio do financiamento público de editais. “As produtoras não dependem do lucro da exibição no cinema. As obras que dependem, como Ainda estou aqui, ficam meses em cartaz”, conta o universitário. O jovem cineasta acrescenta que “os complexos que ditam o que entra em cartaz não põem a arte em primeiro lugar”.
O mercado brasileiro não é autossustentável, ele depende do financiamento do Estado. Caso os editais cessem, a produção nacional cessará por consequência, como aponta Lia Bahia em seu livro Discursos, políticas e ações: processos de industrialização do campo cinematográfico brasileiro. Ela ilustra essa dependência ao relembrar o que houve após o governo Collor extinguir a Embrafilme.
Novo Plano
O Conselho Superior de Cinema aprovou, no dia 27 de fevereiro, o Plano de Diretrizes e Metas do Audiovisual 2026–2035, iniciativa que reconhece a insuficiência da indústria e os problemas de desenvolvimento do setor. O plano estabelece diretrizes para o florescimento do campo na próxima década.
Uma delas é ampliar e aprimorar um ambiente regulatório caracterizado pela defesa da competição e dos consumidores, pelo fortalecimento das empresas e pela promoção e circulação das obras brasileiras — em especial as independentes —, garantindo a participação de grupos vulnerabilizados
O setor, ao contrário do que aparenta, está sim ciente de que não está germinando. A expectativa é que, com o plano, a indústria doméstica não sofra com mais queimadas.
Para Pedro Marchiori, o sucesso astronômico de Ainda estou aqui e O agente secreto faz com que a massa enxergue o cinema como um agente cultural, tal como as novelas. Ele cita o longa cubano Morango e chocolate (1993), que impulsionou os debates contra a homofobia presente no país caribenho. “Talvez as pessoas comecem a refletir que o problema de distribuição é a ausência de políticas públicas. E que, a partir daí, se inicie uma coalizão para melhorar o cinema nacional, nos moldes da mobilização pelo fim da escala 6×1″.
*Reportagem produzida originalmente para a disciplina de “Reportagem I”, do curso de jornalismo da UFRJ, sob orientação do professor Plínio Fraga.
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