O Brasil figura entre os países mais desiguais do mundo, marcado por disparidades históricas de classe, gênero, geração, raça/cor, região e religião. A sobreposição desses marcadores socioeconômicos produz combinações dinâmicas que influenciam as atitudes e as escolhas políticas, fazendo da heterogeneidade uma característica estrutural da sociedade brasileira. No cenário eleitoral, essas clivagens condicionam o comportamento dos eleitores, especialmente nas disputas presidenciais marcadas por intensa polarização. Isso não significa, porém, que existam blocos sociais homogêneos: a diversidade de posições, interesses e preferências é a regra.
Leu essa? Influência da religião sobre os votos de Lula e Flávio no Brasil e nos estados
No recorte das filiações religiosas, entretanto, observa-se um padrão recorrente nas duas últimas eleições presidenciais. Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), obteve maior apoio relativo entre os católicos, as pessoas sem religião e os adeptos de outras religiões. Em contrapartida, Jair Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), em 2022, e seu filho Flávio Bolsonaro, também do PL, em 2026, consolidaram o alinhamento predominante do eleitorado evangélico com o campo político bolsonarista. Embora essa clivagem religiosa não determine, por si só, o voto individual, ela constitui uma dimensão relevante para compreender a dinâmica da polarização política brasileira e o resultado das eleições.
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Veja o que já enviamosO Laboratório de Antropologia da Religião (LAR) da Unicamp construiu um agregador de pesquisas eleitorais por religião, com informações sobre a intenção de voto dos candidatos a partir de um banco de dados com informações dos Institutos: Atlas, AtlasIntel, Btg/nexus, Datafolha, Futura, Futura Inteligência, Gerp, Ideia, MDA, Nexus, Nexus – Pesquisa E Inteligência De Dados, Poder Data e Quaest.
Os gráficos abaixo mostram as intenções de voto para Lula da Silva e Flávio Bolsonaro para quatro grupos de religião, segundo o agregador do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR) da Unicamp. A intenção de voto total indicou 46% para Lula e 48% para Flávio. Em termos de votos válidos, a média das pesquisas indicavam intenções de 49% para Lula e 51% para Flávio.
Olhando para os segmentos religiosos, Lula manteve um melhor desempenho em três segmentos, chegando à frente entre católicos (52% x 43%), sem religião (55% x 35%) e outras religiosidades (53% x 39%), enquanto Flávio manteve uma grande vantagem entre os evangélicos (60% x 29%).

Considerando o perfil médio das amostras dos institutos de pesquisa, estima-se que os católicos representem aproximadamente 50% do eleitorado, os evangélicos, 30%, as pessoas sem religião, 12%, e os adeptos de outras religiões, 8%. Com base nessa distribuição e nos dados de intenção de voto, a tabela a seguir estima a votação de cada candidato por segmento religioso, tomando como referência o total de 124,1 milhões de votos válidos registrados no segundo turno.
De acordo com as estimativas obtidas a partir do agregado das pesquisas, Flávio Bolsonaro venceria a disputa com 63,4 milhões de votos, contra 60,7 milhões de Lula. A distribuição dos votos por filiação religiosa revela diferenças importantes entre os segmentos. Lula teria uma vantagem estimada de 5,9 milhões de votos entre os católicos, de 3,3 milhões entre as pessoas sem religião e de 1,5 milhão entre os adeptos de outras religiões. Flávio, por sua vez, teria uma vantagem de aproximadamente 13 milhões de votos entre os evangélicos. Esse diferencial compensaria as vantagens de Lula nos demais segmentos e garantiria a Flávio uma dianteira estimada de 2,7 milhões de votos no resultado geral.

Contudo, enquanto a maioria dos Institutos de Pesquisa davam vitória à Flávio Bolsonaro, o resultado das urnas do dia 25 de outubro de 2026 consagrou 64,3 milhões de votos para Lula (51,79%) e 59,8 milhões de votos para Flávio (48,21%).
Uma das explicações apontadas para a vitória de Lula foi o aumento do comparecimento eleitoral entre o primeiro e o segundo turno, de 125,3 milhões para 128,2 milhões de eleitores, acompanhado pela redução da taxa de abstenção de 21,08% para 19,22%.
Nesse contexto, a maior mobilização do eleitorado jovem, nordestino e das pessoas idosas teria contribuído para o resultado favorável a Lula. Essa hipótese merece atenção também sob a perspectiva religiosa, uma vez que tanto o Nordeste quanto as faixas etárias mais avançadas apresentam maior proporção de católicos e os jovens possuem maior proporção de pessoas que se declaram sem religião. Assim, a composição demográfica e religiosa do eleitorado pode ajudar a compreender a dinâmica territorial e social da votação.
Uma análise preliminar das pesquisas indica que Lula mantinha vantagem entre católicos, pessoas sem religião e adeptos de outras religiões, enquanto enfrentava expressiva desvantagem no eleitorado evangélico. Contudo, as estimativas dos institutos não se refletiram integralmente no resultado das urnas. Essa divergência sugere que o desempenho real de Lula nos diversos segmentos religiosos foi superior ao projetado pelo agregador de pesquisas. A confirmação dessa hipótese, no entanto, dependerá da disponibilidade de dados eleitorais desagregados por filiação religiosa.
Em suma, a análise das eleições presidenciais de 2026 reafirma a relevância da dimensão religiosa na compreensão do comportamento do eleitorado e da dinâmica política brasileira. Embora os dados agregados das pesquisas tenham indicado uma forte vantagem de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos e a liderança de Lula nos demais segmentos, o resultado final das urnas destacou a capacidade de mobilização de frentes mais amplas e a influência de fatores demográficos (geracionais) e territoriais (regiões geográficas).
A discrepância entre as estimativas prévias e a votação apurada sugere que o desempenho real de Lula avançou além do projetado, reforçando que a clivagem religiosa opera em permanente interação com outros marcadores socioeconômicos. Assim, o desfecho do pleito não apenas consolida a heterogeneidade da sociedade brasileira, mas também reforça a resiliência das instituições democráticas, da tolerância religiosa e do compromisso com o Estado laico.
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