Estamos a 13 dias do segundo turno da eleição presidencial e faltam exatos quatro anos para a conclusão da Agenda 2030, com o cumprimento, ou não, dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). O que uma data tem a ver com a outra? Tudo. No próximo dia 25 de outubro vamos escolher a liderança que deixará o Brasil mais próximo ou mais distante da realização de sonhos como a erradicação da pobreza (ODS 1), da fome (ODS 2), o acesso à saúde e à educação de qualidade para todos, e não apenas para quem pode pagar (ODS 3 e 4) e a universalização do saneamento básico (ODS 6).
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Mas a pergunta que nos interessa neste momento é saber qual dos dois postulantes ao cargo de Presidente do Brasil estaria mais preparado para este desafio: Luiz Inácio Lula da Silva ou Flávio Bolsonaro? Um caminho possível até essa resposta pode ser, por exemplo, a comparação entre os dois últimos governos de Lula e Bolsonaro e o que eles fizeram para atingir essas metas.
Leu essa? Dez notícias que publicamos no Governo Bolsonaro e não queremos repetir
Os dados do IV Relatório Luz, referentes ao ano de 2022, último do governo Jair Bolsonaro, divulgado em junho de 2022, mostravam uma realidade gravíssima, um país adoecido, não só pelos efeitos perversos da pandemia de covid-19, mas, principalmente, pelos desmandos e pela inação do governo. Ao invés de avançar, retrocedemos.
O que está em jogo é algo muito mais importante do que apenas a liderança de uma das maiores economias do mundo. Quem vencer herdará o controle de mais da metade da Floresta Amazônica e, por extensão, determinará as condições para a vida futura na Terra
Chegamos ao último ano de Bolsonaro no Planalto com 33 milhões de pessoas sem comida em casa e com a vergonhosa volta ao Mapa da Fome. O Brasil ficou com o posto de terceira nação em número de mortos pela pandemia e com o risco de ver a poliomielite voltar a atingir nossas crianças. Políticas públicas e sistemas de monitoramento foram interrompidos, orçamentos reduzidos, espaços de participação popular eliminados.
Naquele momento, o país passou a ter menos transparência dos dados públicos e cada vez menos confiança no governo, houve incentivo à liberação de armas e à militarização de espaços civis. Consequentemente, a violência cresceu, especialmente contra mulheres, meninas, jovens negros, quilombolas e população LGBT+. Das 168 metas avaliadas pelo Relatório Luz, 101 ficaram piores do que estavam antes, 16 ficaram estagnadas e 14 ameaçadas de não serem cumpridas, o que dá um total de 80%. Apenas três tiveram um progresso satisfatório, 29 um progresso considerado insuficiente e 5 não tiveram os dados divulgados ou não se aplicavam.
Um editorial do jornal The New York Times, publicado nas vésperas do segundo turno das eleições de 2022, dizia: “No dia 30 de outubro, os brasileiros vão às urnas para eleger seu próximo presidente. Mas o que está em jogo é algo muito mais importante do que apenas a liderança de uma das maiores economias do mundo. Quem vencer herdará o controle de mais da metade da Floresta Amazônica e, por extensão, determinará as condições para a vida futura na Terra”. As razões do jornal americano eram óbvias. A destruição dos biomas nacionais superava em quatro vezes o limite estabelecido na meta climática, que deveria ser cumprida em 2020. Em 2021, o país atingiu 20% de área total desmatada na Amazônia e aumentou em 8% o desmatamento do Cerrado. Entre 2019 e 2021, as unidades de conservação federais perderam uma área de floresta 130% maior do que havia perdido nos três anos anteriores.


Alguém pode argumentar que essa comparação não é justa, afinal de contas os dados que apresentamos até agora são do governo Jair Bolsonaro e não de Flávio Bolsonaro. Não é bem assim. As posições da família Bolsonaro sobre quase todos estes assuntos são antigas e bem conhecidas. No primeiro turno desta eleição, em entrevista ao Jornal Nacional, Flávio defendeu que a crise climática não existe, que se trata apenas de um discurso apocalíptico, e que os eventos extremos que estamos enfrentando (tempestades, enchentes e ventos fortes) são cíclicos. Em seu plano de governo, o candidato do PL sugere, inclusive, o fim de instituições importantes como o Ibama, a Funai e o ICMBio. Além da flexibilização dos licenciamentos ambientais.
Ameaça de cortes na saúde e na educação
Uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada no último dia 7 de outubro, revelou que entre as primeiras medidas de um eventual governo de Flávio Bolsonaro estaria um pacote de medidas fiscais da ordem de 2% do PIB, o que equivale a cerca de R$ 250 bilhões. Entre as áreas atingidas por esses cortes estariam a desvinculação dos reajustes da Previdência Social e do BPC (Benefício de Prestação Continuada) em relação aos ganhos reais do salário-mínimo, além do fim dos pisos constitucionais que atrelam os gastos com saúde e educação ao comportamento das receitas federais. Ou seja, a distância até o cumprimento dos ODS 1 (pobreza), ODS 3 (saúde) e ODS 4 (educação), só para citar alguns, vai aumentar.
Enquanto isso, nos últimos quatro anos de governo Lula, apesar de todos os seus problemas, o país conseguiu vitórias importantes no combate à fome, na redução do desemprego, no combate à inflação e no crescimento do PIB. Dados do IBGE e do Banco Central, organizados por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas, mostram que a taxa de desemprego no Brasil caiu de 10,5% para 5,8%, quando comparamos os primeiros três meses de 2022 (último ano de Bolsonaro) com os primeiros três meses de 2026 (último ano do governo Lula 3). A inflação pelo IPCA foi de 12,13% com Bolsonaro para 4,18% com Lula. Já o PIB cresceu 1,7% com Bolsonaro e 2,9% com Lula.
Quando falamos em preservação da Floresta Amazônica as diferenças são ainda maiores. Nos dois primeiros governos Lula, a taxa de desmatamento caiu 62%; durante o governo Bolsonaro, subiu 54%; e, no terceiro mandato de Lula, já caiu 51%, em comparação a 2022. Segundo o site InfoAmazônia, em média, a Amazônia perdeu 690 mil árvores a menos por dia sob Lula 3 do que durante o governo de Jair Bolsonaro.
Com base nos dados do VI Relatório Luz (junho/2022), um trabalho minucioso feito por Organizações Não Governamentais (ONGs) e universidades do país todo, resolvemos fazer uma lista simples e objetiva com dez razões para não se votar em Flávio Bolsonaro. Consideramos nessa análise que não existem diferenças substâncias entre pai e filho e que as chances de um novo retrocesso são grandes ou, no mínimo, muito prováveis.
Antes de seguir adiante, porém, é importante lembrar que esses 17 objetivos e 169 metas, que se propõem a deixar o mundo mais justo, sustentável e civilizado, não surgiram por acaso, eles foram aprovados por representantes de 193 países presentes na Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, que aconteceu em Nova York, em setembro de 2015. Entre os signatários, estão países como França, Alemanha, Japão, Israel, China, Argentina, Chile e Brasil. Os Estados Unidos foram um dos incentivadores do acordo, assinado pelo então presidente Barack Obama, mas, em 2025, Donald Trump rejeitou o compromisso e abandonou o tratado, assim como fez com o Acordo de Paris que combate a crise climática.
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Veja o que já enviamosDados do Sustainable Development Report (Relatório de Desenvolvimento Sustentável, ou RDS) mostram que os países escandinavos são os que mais avançaram no cumprimento das metas nos últimos 11 anos. Finlândia, Suécia, Dinamarca e Noruega lideram o ranking, que considera notas de 0 a 100. A Alemanha aparece em quinto lugar seguida da Áustria, da França e do Reino Unido. O Brasil está na posição 53, na frente de Israel, da Argentina e do México. A pontuação pode ser interpretada como uma porcentagem de alcance dos ODS. Uma pontuação de 100 indica que todos os ODS foram alcançados.
Dez razões para não apertar o 22
Razão 1 – Erradicação da pobreza e da fome (ODSs 1 e 2) – Por três anos consecutivos (2020 a 2022) nenhuma das metas destes ODSs alcançou resultado positivo. As projeções mostraram que a pobreza extrema aumentara no Brasil, mesmo com o avanço da vacinação e a retomada das atividades econômicas no final do governo. Dados do UNICEF revelavam um crescimento da pauperização da população de zero a 14 anos, causada, principalmente, pelo aumento do desemprego e pela precarização do trabalho no país. Já o número de pessoas que passavam fome subiu de 19,1 milhões, em 2020, para 33,1 milhões em 2021. Além disso, 125,2 milhões de brasileiros viviam com algum tipo de insegurança alimentar. Com isso, o Brasil voltou para o Mapa da Fome, posto que havia abandonado em 2014.
Razão 2 – Saúde de qualidade para todos (ODS 3) – Os últimos três anos do governo Bolsonaro levaram o sistema de saúde ao colapso. Uma política que se recusava a aceitar as evidências científicas dificultou em muito o controle da pandemia, deixando o Brasil com quase 700 mil mortes. Boa parte delas poderia ter sido evitada. Como se não bastasse, a mortalidade infantil voltou a crescer, com 11,51 óbitos para cada 1000 nascidos. Já a mortalidade materna subiu inacreditáveis 223%. Apesar disso, em 2021, o governo deixou de gastar R$ 7,1 bilhões que estavam no orçamento do Ministério da Saúde.
Razão 3 – Educação de qualidade para todos (ODS 4) – Nenhuma meta deste ODS teve avaliação positiva. Em 2020, 6,4 milhões de estudantes ficaram sem acesso às atividades escolares e o governo pouco ou nada fez para recuperar o tempo perdido. As matrículas na pré-escola caíram 9% entre 2019 e 2021. O cenário geral foi de cortes na Educação. O orçamento de 2022 foi menor do que o de 2019, que já havia sido menor do que o de 2018.
Razão 4 – Igualdade de gênero (ODS 5) – Em 2020, mais de quatro milhões de mulheres foram agredidas fisicamente, com tapas, socos ou chutes. Uma média de 8 a cada minuto. Foram quase 60 mil casos de violência sexual, sendo que mais ou menos 20 mil envolviam crianças. Cerca de 13 milhões de brasileiras experimentaram o tipo mais comum de violência: a ofensa verbal. As violências contra as mulheres negras e indígenas também cresceram no período. Números absurdos, mas que não surpreendem num país onde o presidente diz para uma deputada da oposição que ela não merecia ser estuprada.
Razão 5 – Saneamento básico (ODS 6) – O serviço de abastecimento de água potável estagnou e 36,6 milhões de pessoas no Brasil estavam sem acesso a esse direito em 2020. Rios e reservatórios seguiram com índices de qualidade inadequados. Apenas 45% da população tinham acesso a ligações de esgoto em suas casas e somente 50,8% desse esgoto recebiam algum tipo de tratamento.
Razão 6 – Trabalho descente e crescimento econômico (ODS 8) – Após seis anos de recessão e estagnação econômica, o Brasil fechou o ano de 2022 com uma taxa de desemprego de 10,5%. Eram 11,3 milhões de pessoas desempregadas, especialmente entre a população mais jovem. Pesquisa do Conselho Nacional da Juventude revelou que a proporção de jovens entre 15 e 19 anos que não trabalhavam e nem estudavam subiu de 10% para 16% nesse período. Entre 2020 e 2021, mais de 1.700 pessoas foram resgatadas por estarem em situação análoga à escravidão.
Razão 7 – Redução das desigualdades (ODS 10) – O rendimento domiciliar em nível nacional, em 2021, ficou 0,94% menor que a média registrada em 2020 (R$ 1.367,00), mantendo o retrocesso neste objetivo. O avanço do empobrecimento da população, como sempre, afetou mais fortemente as mulheres, a população negra, os povos indígenas e os grupos sociais mais vulneráveis. De acordo com o IBGE, em 2022, 125 milhões de pessoas estavam em situação de insegurança alimentar e o desemprego se mantinha na casa dos dois dígitos há mais de quatro anos.
Razão 8 – Cidades Sustentáveis (ODS 11) – O governo cortou 98% dos recursos para a produção de unidades habitacionais para as famílias com renda igual ou inferior a R$ 1.800,00. A rubrica habitação recebeu 0,0001% do Orçamento da União em 2021. A falta de investimentos em habitação se repetiu em itens como transporte público, infraestrutura e prevenção aos impactos das mudanças climáticas.
Razão 9 – Ação contra a crise climática (ODS 13) – Este, definitivamente, não era um objetivo que o governo tivesse intenção de cumprir. Em novembro de 2021 ele chegou a propor a revogação da Política Nacional de Mudança do Clima. Ainda em 2021, o país apresentou os dados oficiais de emissões de gases de efeito estufa, mascarando o despejo de 400 milhões de toneladas de CO². Os recordes sucessivos no desmatamento são outra prova do desinteresse do governo em combater a crise climática. A destruição dos biomas superou em quatro vezes o limite estabelecido na meta climática, que deveria ser cumprida em 2020. Entre 2019 e 2021, as unidades de conservação federais perderam uma área de floresta 130% maior do que havia perdido nos três anos anteriores.
Razão 10 – Paz, justiça e instituições eficazes (ODS 16) – Os sucessivos ataques do governo federal aos direitos humanos e a instituições como o judiciário e a imprensa compuseram o cenário de regressão deste ODS. A presidência da república seguiu disseminando notícias falsas, limitando e bloqueando o acesso a dados oficiais e violando a Lei de Acesso à Informação. No item violência, Bolsonaro pouco fez além de incentivar ao uso de armas pela população, o que acabou provocando mais mortes. Só em 2021 foram registradas quase 120 mil denúncias de violências contra crianças e adolescentes, sendo que 19 mil foram de violência sexual.
Se você chegou até aqui, parabéns. Sinal de que se interessa pelo futuro do Brasil e do mundo. Esta lista tem como objetivo único ajudar na reflexão. Foram usados apenas alguns indicadores de cada ODS, não haveria espaço e nem tempo para cobrir as 168 metas. Mas, com certeza, o quadro completo teria sido pior do que faz parecer este resumo. A decisão agora é sua. Só você e a urna. Faça a sua parte.
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