Onde falta trabalho, sobra arte: No Palco da Vida

A história do projeto responsável pela transformação da vida de crianças e jovens na Zona da Leopoldina

Por Edu Carvalho | ODS 1ODS 8

Publicado em 18/09/2026 - 09h24

Tempo de leitura: 8 min

Na disputa por um lugar no mercado de trabalho, o Rio de Janeiro tem um retrato preocupante: cerca de 600 mil jovens entre 15 e 29 anos estão sem emprego e sem qualificação no estado, o equivalente a aproximadamente 17,5% dessa população. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Educação, do IBGE. Nesse cenário, na Zona da Leopoldina, uma tecnologia social vem mostrando que, onde falta trabalho, pode sobrar arte — e é ela quem salva.

Wal Schneider com os alunos de No Palco da Vida: arte como ferramenta de formação e inclusão (Foto: Jorge Paulino / Divulgação)
Wal Schneider com os alunos de No Palco da Vida: arte como ferramenta de formação e inclusão (Foto: Jorge Paulino / Divulgação)

É o que defende Wal Schneider, ator, diretor e fundador do projeto No Palco da Vida, que neste ano completa mais um aniversário transformando a vida de milhares de crianças e jovens da região.

Leu essa? “Quanto mais você perde o som, mais ganha sons da cabeça” – no palco da peça ‘Surda’

A trajetória de Wal também é feita de resistência. Para pagar o curso de teatro, lavou pratos, trabalhou como balconista em padarias e fez faxinas até se formar na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras) e concluir a pós-graduação. Como ator e diretor, construiu uma carreira sólida em novelas como “Páginas da Vida” e a recente “Guerreiros do Sol”, além de produções de cinema e teatro.

Mas o propósito de Wal sempre foi maior do que a própria carreira: ele queria que outras pessoas também pudessem realizar seus sonhos. Em 2007, foi convidado a ministrar uma oficina de teatro no Sesc de Ramos para 50 meninos e meninas do Complexo do Alemão. As oficinas terminaram, mas a vontade de seguir ensinando arte não. Depois de um período itinerante pela região, em 2011, ele alugou um casarão em Olaria, na Zona Norte do Rio, para ser a sede do No Palco da Vida — que se tornaria a primeira escola de artes da região da Leopoldina.

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Wal Schneider à frente da sede nova do No Palco da Vida: mais atividades e mais alunos (Foto: Jorge Paulino / Divulgação)
Wal Schneider à frente da sede nova do No Palco da Vida: mais atividades e mais alunos (Foto: Jorge Paulino / Divulgação)

Quinze anos depois daquele casarão alugado, o projeto ganha um novo capítulo no vizinho bairro de Bonsucesso. “Ao longo desse caminho, já atendemos mais de 10 mil alunos, entre crianças, adolescentes e adultos de toda a região do Rio de Janeiro”, conta Wal. “Sempre sonhei em ter uma sede própria, um espaço onde pudéssemos acolher ainda mais pessoas, ampliar nossas atividades e dar novos caminhos para a arte e para a cultura.”

A nova sede também abriga outro sonho antigo: o Museu da Memória do Teatro, um acervo com mais de 45 mil itens relacionados à história da arte, abraçada por livros, revistas antigas, discos de vinil, DVDs, CDs, programas de teatro e diversos objetos. “Tudo isso só foi possível porque encontramos pessoas que acreditaram nesse sonho”. A nova sede representa para o fazedor muito mais do que um endereço. “É a concretização de 18 anos de trabalho, resistência e dedicação à arte. É um lugar para onde podemos levar nossos sonhos e, principalmente, abrir as portas para que outras pessoas também possam realizar os seus.”

Se há uma prova de que a arte se transforma, ela está nas histórias de jovens que passaram pelo projeto. Wal cita três que resumem o que acredita. A primeira é a de Luiz Henrique, abandonado pela mãe e agredido em casa pelo pai, alcoolista. “Mesmo diante de tudo isso, ele sempre carregava um sorriso no rosto e tinha um brilho muito especial”, conta Wal. O teatro virou espaço de acolhimento e hoje Luiz Henrique é formado professor e voltou ao projeto para dar aulas de teatro infantil – de aluno a educador.

Crianças e adolescentes no Museu da Memória do Teatro Acervo de 45 mil com livros, revistas antigas, discos de vinil, DVDs, CDs, e programas de peças e outros espetáculos (Foto: Jorge Paulino / Divulgação)
Crianças e adolescentes no Museu da Memória do Teatro Acervo de 45 mil com livros, revistas antigas, discos de vinil, DVDs, CDs, e programas de peças e outros espetáculos (Foto: Jorge Paulino / Divulgação)

Há também Will Dubrok, que chegou a lavar carros para comprar cadernos e continuar escrevendo. “Ele carregava uma revolta muito grande dentro de si e encontrou na arte uma maneira de transformar essa inquietação em criação”. Atualmente, Will é um dos coordenadores da iniciativa e dá aulas de audiovisual e teatro musical. Existe ainda Lyriel, jovem com síndrome de Down que encontrou no teatro um lugar para se expressar, carimbando o passaporte como uma das estrelas do espetáculo “Os Saltimbancos”, apresentado pelo grupo.

O trabalho certifica que nascer não basta e de que é preciso continuar vivo. E continuar vivo, para um projeto social, se traduz em uma palavra simples: constância. Foi a falta dela, ano após ano, mês após mês, que transformou a pergunta “e o próximo mês?” em rotina na sede de Olaria. Políticas públicas podem e devem mirar em iniciativas como essa, nascidas do território e testadas pelo tempo.

Mas mirar não é suficiente se, no fim, a iniciativa é deixada de escanteio assim que o holofote do edital se apaga. Apoiar de verdade é oferecer dois pilares ao mesmo tempo, sendo eles dinheiro e caminho. Recurso que não dependa de recomeçar a busca a cada janeiro, e uma política de continuidade que trate o projeto como parceiro de longo prazo, não como beneficiário eventual. 

Nesse palco, o que sustenta a cena não é o aplauso de uma noite e sim o compromisso que garante que as luzes não se apaguem no mês seguinte.

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Edu Carvalho

Edu Carvalho é jornalista e apresentador, com passagens pela Globo, CNN e Revista Época. Ganhador do Prêmio Vladimir Herzog pelo #Colabora. É colunista no UOL Ecoa e no Maré de Notícias. Morador da Rocinha, cria do mundo

Edu Carvalho

Edu Carvalho é jornalista e apresentador, com passagens pela Globo, CNN e Revista Época. Ganhador do Prêmio Vladimir Herzog pelo #Colabora. É colunista no UOL Ecoa e no Maré de Notícias. Morador da Rocinha, cria do mundo

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