Mulheres formam linha de frente na reciclagem e nas iniciativas de lixo zero

Foto colorida de integrantes da SDV Reciclando. As mulheres estão posando para a foto, com camiseta rosa do coletivo de mulheres catadoras. Elas ajudam a promover a estratégia lixo zero
Foto colorida de integrantes da SDV Reciclando. As mulheres estão posando para a foto, com camiseta rosa do coletivo de mulheres catadoras. Elas ajudam a promover a estratégia lixo zero
Integrantes da SDV Reciclando; catadoras ajudam a promover estratégia lixo zero e atuam como agentes de educação ambiental (Foto: Divulgação / SDV Reciclando)

Catadoras atuam como agentes de educação ambiental e promoção da sustentabilidade no sul. Semana do Lixo em Porto Alegre estimula reflexões sobre consumo sustentável

Por Micael Olegário | ODS 12

Publicado em 22/10/2026 - 10h00

Tempo de leitura: 11 min

A necessidade de obter renda para sustentar cinco filhos foi o que levou Sirlei Batista de Souza, 51 anos, a trabalhar com reciclagem. Aos poucos, a catadora se especializou, fez graduação em gestão ambiental e, hoje, atua como coordenadora operacional do Centro de Educação Ambiental (CEA) da Vila Pinto, no bairro Bom Jesus, em Porto Alegre (RS).

Conhecida nas redes como “Sirlei Recicladora”, ela também produz vídeos em que explica assuntos ligados à reciclagem e dá dicas sobre triagem e separação do lixo. A linguagem simples e popular fez a catadora alcançar cerca de 25 mil seguidores no Instagram.

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Em história entrelaçada com a de Sirlei, as irmãs Stefani e Paula Guedes de Aiedo, uma de 33 anos e outra de 37 anos, moram na Vila dos Herdeiros, na zona leste da capital gaúcha. Apesar do nome, o local enfrenta diversos problemas crônicos, como a falta de infraestrutura básica e um número elevado de famílias de baixa renda.

Stefani e Paula trabalham juntas na SDV Reciclando, cooperativa fundada como resposta às demandas do seu território. “A SDV nasceu da necessidade de mulheres que precisavam trabalhar, gerar renda e sustentar suas famílias, mas que também queriam transformar a realidade do lugar onde vivem”, conta Paula.

Em Porto Alegre e em outros lugares do Rio Grande do Sul, mulheres como Paula, Stefani e Sirlei são as protagonistas de um setor essencial para a vida nas cidades. Muitas vezes pouco reconhecidas, catadoras e recicladoras atuam como agentes de educação ambiental e auxiliam na promoção do conceito de lixo zero. 

Sirlei, por exemplo, é uma das responsáveis por divulgar a 11° Semana Lixo Zero Porto Alegre 2026. Idealizado pelo Instituto Lixo Zero, o evento possui um caráter descentralizado, com diversas atividades de 18 a 24 de outubro. O tema central da edição de 2026 é: “O que a sobra do seu prato diz sobre você?”.

Lixo zero e a agenda climática

A estratégia ou o conceito de lixo zero surgiu no início dos anos 2000, a partir da Aliança Internacional Lixo Zero (ZWIA, na sigla em inglês). A ideia segue a linha de uma economia circular e propõe mudanças nas lógicas de produção, consumo e destinação de resíduos. O foco, no entanto, não está apenas em reciclar, mas em reduzir e produzir menos lixo. 

Nos últimos anos, o debate envolve também a agenda climática, principalmente, devido ao impacto do modelo de sociedade atual na emissão de gases de efeito estufa (GEE). Estimativas indicam que a extração e o uso de resíduos, incluindo combustíveis fósseis e seus derivados – como plásticos -, correspondem a cerca de 70% das emissões globais de GEE.

Neste contexto, extremos climáticos ficam cada vez mais frequentes e aumentam a geração de resíduos. Como exemplo, após as inundações de 2024 no Rio Grande do Sul, estudos calculam que foram gerados cerca de 47 milhões de toneladas de lixo, resíduos que elevam as emissões e o aquecimento global, consequência das ações de parte da humanidade, principalmente, países ricos.

“O conceito lixo zero é uma forma de introduzir a temática de consciência socioambiental. A conexão com as mudanças climáticas se dá pela necessidade de olhar os resíduos como um elemento fundamental antes, durante e depois do evento climático extremo”, aponta Lucas Fontes, pesquisador e empreendedor social, fundador da Green Thinking, plataforma de educação ambiental.

“O principal problema é a improvisação, porque ninguém imaginava. E agora a discussão é como se organiza para qualquer tipo de circunstância. Se vier de novo enchente, como vamos fazer?”, questiona Ana Mercedes Sarria Icaza, professora da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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Em maio de 2024, vários bairros de Porto Alegre ficaram semanas debaixo d’água, inclusive cooperativas de catadores, e diversos serviços foram interrompidos. Segundo Lucas, esse contexto emergencial contribuiu para o volume de resíduos do desastre, resultado da destruição de casas, comércios, prédios públicos e outras infraestruturas.

Lucas enfatiza que a proposta da Semana Lixo Zero é promover ações com foco no consumo consciente, um dos elos do conceito. “A temática deste ano é evitar o desperdício de alimento, então, temos falado muito sobre compostagem, hortas urbanas, veganismo e vegetarianismo”.

Gênero e reciclagem

O cotidiano de quem trabalha com reciclagem não é fácil. As jornadas costumam começar cedo e envolvem coletar materiais, carregar peso, separar, prensar, organizar os recicláveis para a venda. A maior parte desse trabalho é feito por mulheres que são mães de família, logo, elas acumulam ainda tarefas domésticas e de cuidado.

Estimativa do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) aponta que as mulheres representam dois terços (66%) da força de trabalho na reciclagem no Brasil. As atividades de coleta e triagem de resíduos geralmente ocorrem em condições precárias, em galpões com pouca infraestrutura, além de desafios na comercialização.

Segundo levantamento do Portal Salário, a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a remuneração média de um catador ou catadora de recicláveis no Brasil é de R$ 1.877,98 por mês, para uma jornada de 44 horas semanais. Os números consideram apenas vínculos formais de emprego.

“Não basta dizer que a reciclagem é importante. É preciso garantir condições para que quem vive dela consiga trabalhar com dignidade”, destaca Paula Guedes. Segundo ela, as mulheres precisam ter espaço nas decisões e na formulação de políticas públicas para gestão de resíduos nas cidades. 

A SDV Reciclando, além do trabalho com economia circular e gestão de resíduos, também promove ações sociais. “Temos a cozinha solidária, a horta comunitária e outras iniciativas para ajudar famílias da comunidade”, descreve Paula. Em 2025, a cooperativa foi destaque no “Expo Favela – O Desafio”, reality promovido pela Rede Globo.

Para as duas irmãs, o trabalho feito na cooperativa serve como uma forma de acolhimento e de estabelecer uma rede de apoio entre as mulheres do bairro, com objetivo de “reciclar histórias, oportunidades e vidas”.

Foto colorida de Paula e Stefani Guedes de Aiedo, irmãs que fundaram a SDV Reciclando. Elas aparecem com uma blusa rosa e sorrindo. São duas mulheres negras, com cabelo preto
Paula e Stefani na etapa nacional da Expo Favela em 2025; cooperativa também realiza ações sociais (Foto: CUFA/Divulgação)

Organização coletiva

A articulação entre catadoras de cooperativas e associações de Porto Alegre e de outros municípios gaúchos levou à criação, em 2018, do Coletivo de Mulheres Catadoras do MNCR/RS. O grupo discute temas como autonomia financeira das mulheres e justiça social, ambiental e de gênero na gestão de resíduos. 

Sirlei Batista comenta que a discussão sobre políticas para os catadores começou a ganhar mais força depois das enchentes. Uma dessas iniciativas é o Programa Cataforte, uma iniciativa do governo federal vinculada ao Comitê Interministerial para Inclusão Socioeconômica de Catadoras e Catadores de Materiais Reutilizáveis e Recicláveis (CIISC).

O programa financia ações voltadas para aquisição de equipamentos por cooperativas e associações de reciclagem, por meio da compra de veículos adaptados para a coleta de recicláveis, prensas, compactadores, e infraestrutura física.

Hoje, Sirlei também cursa sociologia e destaca que a organização coletiva ajuda também na luta por reconhecimento a nível local. Uma das grandes preocupações da catadora e de outras trabalhadoras é com a parceria público-privada (PPP) que prevê conceder a gestão dos resíduos de Porto Alegre por 35 anos. O projeto tem sido alvo de críticas, justamente, pela não inclusão dos catadores.

Foto colorida de plenário da Câmara de Porto Alegre, durante debate sobre PPP da gestão de resíduos sólidos
Audiência pública sobre PPP para destinar gestão de resíduos sólidos em Porto Alegre; projeto é alvo de críticas por não incluir catadores (Foto: Paulo Albano/PMPA)

Debate e responsabilidades

No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) estabelece que a responsabilidade pela gestão do lixo é dos municípios. Em muitas cidades, essa organização que envolve coleta e destinação de resíduos é um dos principais custos no orçamento das prefeituras brasileiras.

Para Lucas Fontes, é preciso ampliar a noção de corresponsabilidade entre os diversos atores envolvidos na produção e consumo, desde fabricantes, passando por vendedores e consumidores. “A partir do momento que eu boto na rua, esse problema não é mais meu, acabamos terceirizando essa problemática”, reflete.

Ana Mercedes, da UFRGS, estuda temas ligados à economia solidária e movimentos sociais, como as associações e cooperativas. Ela enfatiza que as inundações alertaram para a necessidade de incluir catadores e recicladores nos debates sobre a gestão de resíduos nos municípios, como na PPP de Porto Alegre.

A professora critica as soluções tecnocratas, como o sistema de contêineres, o que gerou problemas, como o aumento da mistura dos resíduos levados para os centros de triagem, além de dificultar o trabalho de catadores informais.

“Muitas vezes essas cooperativas são tratadas como um lugar de vulnerabilidade social e não como um espaço onde se produz uma série de serviços para a população”, pontua a pesquisadora da UFRGS. Trata-se de uma visão que considera a dinâmica dos territórios onde estão as cooperativas e associações.

Ao comentar sobre o protagonismo feminino no setor e o coletivo de catadoras, Ana salienta a conexão do debate com um contexto amplo de sustentabilidade  da vida. 

“As mulheres permitem fazer esse link meio que de uma forma, não vou dizer natural, porque as coisas estão construídas socialmente, mas que está em sua forma de olhar e perceber que não é só um problema de gestão, é um problema de relações, de meio ambiente, de voz e território”, complementa a pesquisadora.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Repórter e coordenador de conteúdo e distribuição do #Colabora - Jornalismo Sustentável. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Natural de Caibaté (RS), possui experiência na cobertura das inundações de 2024 no Rio Grande do Sul e da COP30, em Belém (PA). Tem interesse por temas como crise climática, antropoceno, decolonialidade e acessibilidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Repórter e coordenador de conteúdo e distribuição do #Colabora - Jornalismo Sustentável. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Natural de Caibaté (RS), possui experiência na cobertura das inundações de 2024 no Rio Grande do Sul e da COP30, em Belém (PA). Tem interesse por temas como crise climática, antropoceno, decolonialidade e acessibilidade.

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