Como vítima de um relacionamento abusivo, aprendi – e preferia ter ficado burra – que a gente descobre muito sobre um homem pela forma como ele trata uma mulher quando acha que ninguém está vendo. Nos anos em que vivi esse inferno, ouvi ao pé do ouvido, em festas e encontros com pessoas queridas, que eu era “uma vergonha”, que meus amigos só fingiam gostar de mim, que ninguém queria me ouvir. Baixinho, claro. Certas violências funcionam melhor quando só a vítima escuta.
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Há alguns anos, Flávio apareceu num vídeo imitando o que dizia ser a abordagem do irmão Jair Renan “para chegar em mulher”. De sunga, diante dos amigos, soltou: “Sou filho do presidente. Quer me dar?”. Risadas. Jair Bolsonaro, o pai, quando questionado sobre receber auxílio-moradia mesmo tendo imóvel em Brasília, já respondeu que, solteiro, usava o dinheiro “pra comer gente”.
Leu essa? Flávio, um candidato para antecipar o fim do mundo
Eduardo Bolsonaro, quando deputado, se referiu à conduta de deputadas federais da oposição como “gaiola das loucas” durante uma discussão na Câmara. Vão chamar de brincadeira, de piada, do “jeitão” deles. Mas piada também revela quem pode virar objeto e chacota na roda dos homens.
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Veja o que já enviamosA política deixa rastros ainda mais concretos. Em 2009, quando a Assembleia Legislativa do Rio votou a ampliação de 120 para 180 dias da licença-maternidade das servidoras estaduais, o resultado foi 45 a 1. O único voto contrário foi o de Flávio Bolsonaro. Em quase 24 anos de Parlamento, ele apresentou apenas três propostas relacionadas à segurança das mulheres – menos de 1% das 306 de sua autoria. Nenhuma virou lei.
As escolhas ao redor da candidatura, como tem sido amplamente divulgado, também merecem atenção. Seu vice, Alfredo Gaspar, chegou a ser alvo de um pedido de investigação por suspeita de estupro de vulnerável. Flávio, por sua vez, deixou temporariamente a função de senador para atuar como advogado do policial militar acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, atingida por tiros de fuzil em 2021, e apresentou ao STJ uma medida contra a realização do júri popular. Isso diz mais sobre política para mulheres do que qualquer frase de campanha.
A escala 6×1 pesa sobre todo trabalhador, mas encontra as mulheres já carregando outra jornada. Elas dedicam, em média, 21,3 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidados, contra 11,7 horas dos homens. Para muita mulher, a folga única não é descanso: é o dia em que começa o segundo turno do trabalho, o de casa, o “invisível”.
A discussão sobre armas também fica bem menos abstrata quando a gente olha para dentro de casa. Segundo o Instituto Sou da Paz, a presença de arma de fogo em episódios de violência doméstica aumenta em cerca de 85% o risco de a agressão terminar em morte; mulheres negras representam 72% das vítimas da violência armada contra mulheres. Para uma mulher ameaçada pelo companheiro, arma não é símbolo de liberdade, é o que a transforma em estatística de feminicídio.
Eu não acho que linguagem seja detalhe. Quando mulher vira “fraquejada”, alguém para “dar” ou “comer”, ou alguém que precisa “segurar a onda”, isso ajuda a mostrar o lugar reservado a ela em um projeto de país. Quando essa linguagem encontra decisões concretas, como votar contra ampliar a licença-maternidade ou passar décadas quase sem legislar sobre segurança das mulheres, já não estamos falando apenas de um “jeitão”. É política pública.
Em campanha, Flávio diz que “é a mulherada que manda”. Mulher, porém, não vive de slogan. Vive de direitos: salário, tempo, creche, licença, saúde, autonomia, proteção contra violência e do direito muito básico de chegar viva em casa. Campanha existe para ensinar candidato a dizer a coisa certa na hora certa. Histórico serve para lembrar o que ele fez quando ainda não precisava tanto do nosso voto.
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