A esperança também sabe brigar

Reeleição histórica de Lula não nasceu da ausência de medo, mas da coragem de uma multidão que decidiu enfrentá-lo

Por Júlia Pessôa | ODS 16

Publicado em 03/11/2026 - 09h24 (Atualizado há 28 minutos)

Tempo de leitura: 8 min

Em 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito, eu me lembro do medo profundo que tomou a minha casa imediatamente. Eu tentei ligar pra todos os meus amigos gays (e olha que não são poucos), porque me veio um pânico instantâneo de que eles fossem atacados nas ruas. Não era e continua não sendo um medo infundado. Estamos em 2026 e a sanha violenta da extrema direita deixou um rastro de mortes e pessoas feridas em todo o país, como o engenheiro ambiental Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, que foi brutalmente espancado em Santos e morreu dias depois.

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A reeleição de Lula é diferente de todas as outras três vezes em que vimos o maior estadista da América Latina (para mim, do mundo, mas esse texto não é sobre mim) subir a rampa do Planalto. Como bem sabemos, foi conquistada na unha, voto a voto. Vencemos as falcatruas da Meta e do TSE pra nos desfavorecer. Vencemos os prefeitos que deixaram de disponibilizar transporte para a população. Vencemos aquela vozinha que ficava no fundo da nossa cabeça, “e se esse Janones for só um maluco?”. Vencemos o nosso cansaço, a nossa tristeza e o nosso próprio medo de voltar àquela noite horrorosa de 2018, coroada por anos que levaram 700 mil pessoas da gente. Vencemos, e essa vitória vai muito além de continuarmos tendo Luiz Inácio Lula da Silva como presidente.

Estudantes nas ruas do Rio: reeleição de Lula nasceu da coragem a multidão em derrotar o medo (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil - 07/10/2026)
Estudantes nas ruas do Rio: reeleição de Lula nasceu da coragem a multidão em derrotar o medo (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil – 07/10/2026)

Primeiro, porque seremos um farol em todos os cantos do mundo em que o fascismo tem tentado se criar, e tem obtido algum sucesso. Depois, porque é um recado inconfundível a Donald Trump, que não tem medido esforços para colocar as Américas sob seu controle, como se nossa sina fosse ser colônia. Com a recente guinada à direita de países como Chile, Peru, Bolívia e Colômbia, seguindo os passos da Argentina de Milei, o Brasil parecia ser a última fronteira para os planos trumpistas de subordinar os países sul-americanos aos interesses dos Estados Unidos. Com o tetra de Lula, Trump será obrigado a entrar em diálogo conosco, e espera-se que seja com mais diplomacia do que o tarifaço que tentou impor por aqui e se tornou um tiro que saiu pela culatra.

Há também o sabor especial de ver a família Bolsonaro, que ataca, que legitima todo tipo de violência e é comprovadamente mais suja que pau de galinheiro (acredito ser esse o termo técnico para definir a idoneidade deles), absolutamente derrotada. As lágrimas de Flávio enquanto uma horda reza um Pai-Nosso são um banho de livramento para quem se escandalizou com as mortes da pandemia. Com o assassinato de Ana Clara. As festas com prostitutas em lancha pra negociar vacina enquanto mil pessoas morriam por dia. Todas as relações com a milícia, todos os Pix do Vorcaro.

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Eu poderia continuar a lista de despropérios desse cara, mas me dediquei muito a fazer isso nas últimas semanas em tudo que é rede social. Como a maioria das pessoas que eu conheço, cruzei várias fronteiras da minha dignidade virtual: usei status do WhatsApp, criei um Kwai pra compartilhar vídeos, postei no TikTok pela primeira vez, engajei todas as hashtags do General Janones, fingi não ser a grandessíssima lulista que sou para tentar convencer indecisos, e por aí vai.

E é nessas pessoas que eu estou pensando enquanto digito aqui. Em tantos vídeos de pessoas idosas e com mobilidade reduzida indo votar, reduzindo massivamente o número de abstenções nas urnas. Em cada pessoa que publicava nas redes sobre o rastro de corrupção, violência e trambiques dos Bolsonaro e seus aliados. Em toda a onda de “como você está” que inundou as mensagens de pessoas próximas e distantes que sabiam da ameaça de ter Flávio sentado à cadeira de presidente. No movimento de estudantes da UFF, que logo após o primeiro turno fizeram uma passeata gigante, quando ainda estávamos atordoados e abatidos com o fascismo baforando em nosso cangote. Foi isso que levou a oceanos de pessoas a irem às ruas pelo país inteiro, com uma mensagem inconfundível: é Lula. A todo mundo que passou por mim, adesivada, e deu um sorriso cúmplice, ou fez o L. A geral que vinha perguntar “você acha que vai dar?”, e eu respondi, firme: “Tô confiante”, apesar do medo.

E estava confiante mesmo. Cada ato a que fui me levou ao próximo, cada pessoa que abracei deu uma carga de esperança, cada adesivo que me pediram me fez acreditar que “ia dar”, e deu. Em mais um feito histórico para colecionar, Lula foi o presidente mais votado da democracia brasileira, de virada, no segundo turno, como “nunca antes na história desse país”, mérito seu, incontestavelmente, mas também da população. E foi como prega o texto da Constituição, que Flávio disse nominalmente que mudaria e Lula ergueu junto à nossa bandeira, “todo poder emana do povo”.

É claro que, com o Senado e o Parlamento que se configuraram, teremos anos difíceis pela frente. Mas por hoje eu quero celebrar nossa gente. Como nos lembra Luiz Antônio Simas, “a gente não faz festa porque a vida é boa, a gente faz festa exatamente porque ela não é.” Quando o ato inicial do golpismo que assombrou a política brasileira escorraçou a presidenta Dilma Rousseff do poder em 2016, ela cravou: “Nós voltaremos. Voltaremos para continuar nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano”. E nós voltamos, Dilma. Mais uma vez. E voltaremos quantas vezes for preciso.

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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