´Mais fácil aprender japonês em braille’

Entre linguagem terapêutica, empresariês, crossfitismos e afins, precisamos aprender novos idiomas para viver em 2026?

Por Júlia Pessôa | ODS 4

Publicado em 08/09/2026 - 09h44 (Atualizado há 40 segundos)

Tempo de leitura: 8 min

Eu não sei vocês, mas dia sim, outro também, vivendo normalmente minha vidinha, eu me deparo com algum termo ou expressão indecifrável, mas que parece que eu deveria saber. Não, não estou falando de “farmar aura”, “gag” e outras criações típicas da juventude, que desde sempre cria seus dialetos e gírias como forma de identidade, pertencimento, diferenciação, etc, etc… Tô falando de coisas simples, que eu aparentemente deveria ter alguma fluência para ser uma mulher de quarenta e poucos e dar conta do meu dia a dia.

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Sei que a língua é viva e tenho horror de defensores de uma gramática perfeita acima de tudo. Não se trata disso. Tampouco sou ufanista a ponto de ficar irritada com um ou outro estrangeirismo em alguns contextos. Até porque o mala que dá chilique quando ouve “deadline” em vez de “prazo” certamente é o mesmo que fala “Ínstagrrêm”, com sotaque de gringo. Mas nada disso é o que tem alugado o proverbial triplex na minha mente.

Palavras, conceitos e idiomas para sobreviver em 2026 (Ilustração: Júlia Pessôa com IA)
Palavras, conceitos e idiomas para sobreviver em 2026 (Ilustração: Júlia Pessôa com IA)

O que tem me intrigado é a quantidade de palavras – e conceitos até – que, em algum momento, foram naturalizadas e parece que sempre estiveram ali, no nosso dia a dia, nas coisas que a gente precisa fazer pra trabalhar, ser saudável, socializar, e por aí vai. Comecemos pelas atividades físicas.

Outro dia eu estava numa aula de funcional, e no fim da aula, eu já pelas tabelas, o professor diz que o último bloco é AMRAP, termo que ele escreveu no quadro. Ninguém estranhou. Eu já tinha me acostumado com nomes exóticos de exercícios tanto que sei que odeio “burpee”, gosto de “stiff” e. dependendo do dia, pego a “kettleball” mais leve ou mais pesada. Mas AMRAP acabou sendo o meu inferno, na terra, que era repetir a mesma sequência de exercícios por 12 minutos ininterruptos. “As many repetitions as possible”, um amigo meu que é crossfiteiro explicou, literalmente “o maior número de repetições possível”.

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Outra vez foi por escrito, conversando com amigas no WhatsApp e tentando realizar o milagre contemporâneo de coordenar nossas agendas para a gente se ver. “Podemos tentar no HH”. Sem saber o que dizia, supus ser algum lugar que eu ainda não conhecesse, mas era o velho “happy hour” encolhido em duas letrinhas. Só quem sabia, claro, eram as meninas que já trabalham há anos em ambientes empresariais – digo, “business”.

Mas talvez o que mais me incomode seja ver o quanto o vocabulário da psicologia e da terapia escapou do consultório e passou a circular por aí como diagnóstico de bolso, esvaziado de significado e apropriados a bel-prazer. Nem toda babaquice de homem é abuso e violência de gênero – e isso é uma defesa do peso da palavra abuso e do que ela significa, e não um habeas corpus de abusador ou de babaca. Até porque, se tudo é abuso, nada o é, e é aí que está o perigo, a gente se distanciar do que precisa ser visto.

Tomar um “ghosting” – que é mais um termo moderno para explicar quando alguém desaparece da sua vida sem dar explicações – pode sim, ser enlouquecedor, frustrante, revoltante, mas, muitas das vezes, é só o antiquíssimo ato de alguém saindo à francesa da vida de outra pessoa, por ser frouxo demais pra dizer que não volta. Covardia? Sim. Abuso? “Não, porque nem sempre”, como já disse um hermano.

Outra patacoada que me irrita muito é tudo que diz respeito ao conceito de “amizade de baixa manutenção”. O próprio termo me arrepia, porque parece que eu estou escolhendo uma airfryer. Depois, porque há dois extremos. Tem o povo que acha que bom na vida são essas tais amizades de baixa manutenção, daquelas que todo mundo tem uma para contar, que a gente fica sem ver por meses, anos a fio até, e num reencontro, são a mesma coisa. Já outra facção diz que essas não existem, e requerem dedicação, doação, investimento de tempo, etc… Das duas proposições, eu tenho é preguiça, porque parece que tudo que a gente vive é capaz de caber num tutorial, num formato ideal, num carrossel que nos diga “5 coisas que não querem que você saiba sobre amizade.”

Eu não tenho um osso tilelê no meu corpo – a não ser pela ocasional astrologia – mas fecho com Gilberto Gil e acredito que, na amizade e na vida, “mistério sempre há de pintar por aí”. E acho que cada amizade tem a manutenção que é possível e desejável demandar, como um jardim, ou uma mata, sei lá. Pensei nas plantas aqui de casa, por exemplo. Em algumas estações, elas são quase que autossuficientes: preciso regar pouco, checar pouco a luz, me dão muito menos trabalho. Em outras épocas, as regas são mais frequentes, preciso girar os vasos para que peguem luminosidade, por igual, exigem que eu fique mais atenta.

Ainda assim, na minha pequena selvinha urbana, tenho cactos, jiboias, bambus, espadas-de-são jorge, umas orquídeas guerreiras e outros exemplares. Cada uma exige um tipo de cuidado, outras mais outras menos. Se as plantas são assim, querer que as pessoas caibam numa fórmula de alta ou baixa manutenção é de uma mediocridade vocabular e afetiva de dar dó.

Talvez, em tempos de IA, estejamos ficando megalomaníacos pra dar nomes às coisas e bem piores em entender ou aceitar que algumas delas sejam confusas, contraditórias, inclassificáveis. Humanas, enfim. Por isso, enquanto não inventarem um KPI para afeto ou um AMRAP para amizades de baixa ou alta manutenção, pretendo seguir regando minhas plantas e minhas relações, vivas como a língua, conforme elas forem pedindo. Se alguém quiser um tutorial simplificado, Djavan já advertiu há muito tempo: “mais fácil aprender japonês em braille”.

 

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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