Derrotismo é luxo, futuro é direito inalienável

Para quem depende de política pública para viver, desistir antes da hora nunca foi uma opção

Por Júlia Pessôa | ODS 16

Publicado em 06/10/2026 - 08h11

Tempo de leitura: 8 min

Qualquer um com o mínimo de bom senso acordou nesta segunda com a sensação de ter levado uma chinelada de Havaianas bem no meio da cara, daquelas que deixam marca. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno das eleições de 2026 na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de pouco mais de 2,2 milhões de votos.

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Então tá tudo certo em sentir medo, tristeza, desespero, aquela vontade de olhar o resultado e pensar “de novo essa merda?”. A gente se lembra bem dos mais de 700 mil mortos da pandemia, lembra de arminha de dedo sendo apontada pra gente LGBTQIAPN+, pra mulher, pra qualquer pessoa de vermelho. Lembra das universidades a um passo de fecharem as portas. São recordações frescas de um passado aterrorizante. Por isso mesmo, quem não tá com raiva, triste ou com medo, só pode ser doido, desmemoriado ou conivente. O que me incomoda é quando o medo ganha roupa de análise política, de quem começa a dizer que “acabou”, que “o Brasil é isso mesmo”, que não tem jeito, que é melhor “aceitar a realidade e preservar a saúde mental”.

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Porque o derrotismo é um privilégio. É relativamente fácil decretar a derrota quando existe alguma distância entre a política e a própria sobrevivência. Trabalhador fodido de esquerda não pode se dar ao luxo de se conformar e dizer que “o povo escolheu isso”. Quem depende do SUS, de escola pública, de universidade, de salário mínimo, de um remédio que não conseguiria comprar, de uma política de moradia ou simplesmente de um Estado que não trate pobreza como defeito de caráter não tem essa escolha.

Lula em evento para a expansão do tratamento de câncer pelo SUS: na comparação com os mais de 700 mil mortos de covid-19 sob Bolsonaro, derrotismo vira luxo (Foto: Ricardo Stuckert - 23/06/2026)
Lula em evento para a expansão do tratamento de câncer pelo SUS: na comparação com os mais de 700 mil mortos de covid-19 sob Bolsonaro, derrotismo vira luxo (Foto: Ricardo Stuckert – 23/06/2026)

Talvez eu pense assim também porque, em 2021, tive câncer de mama e vi a perspectiva da finitude soprar no meu cangote. Câncer tem esse inconveniente brutal de acabar com algumas abstrações. Uma coisa é saber intelectualmente que todo mundo morre; outra é descobrir alguma coisa crescendo dentro do próprio corpo e perceber que aquela ideia preguiçosa de futuro, bem “depois eu resolvo”, virou uma pergunta bastante objetiva.

Eu fiz meu tratamento pelo plano de saúde, mas a medicina que me tratou não pertence a um universo exclusivo a quem paga mensalidade. Cirurgia, quimioterapia, radioterapia e acompanhamento oncológico também fazem parte da estrutura do SUS. É a possibilidade de que uma mulher que não tem meu plano de saúde também possa chegar a uma sala de quimioterapia e ter uma chance de continuar aqui.

Desde 2023, o Brasil tem uma Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no SUS que estabelece, entre seus objetivos, garantir acesso ao cuidado integral e reduzir mortalidade e incapacidade pela doença; mais recentemente, o programa Agora Tem Especialistas colocou a oncologia entre suas prioridades e registrou redução de 35% no tempo de espera para cirurgias oncológicas nas ações monitoradas, além de novos investimentos em radioterapia. Em comparação, o governo de Jair Bolsonaro propôs um corte de 45% na verba pública destinada à prevenção e ao controle do câncer.

Depois do câncer, ficou ainda mais claro pra mim um ideal bastante inegociável: eu quero que as pessoas vivam, e vivam bem. Não apenas que sobrevivam o suficiente para entrar numa estatística, mas que tenham futuro, com tudo de banal e maravilhoso que isso significa. Que possam criar os filhos, estudar, mudar de emprego, se apaixonar pela pessoa errada, fazer uma viagem superestimada, comer bem e desperdiçar uma tarde inteira fazendo nada. Uma mamografia feita na hora certa, uma biópsia que não leva meses, uma cirurgia que acontece quando ainda existe possibilidade de cura ou um medicamento disponível para quem jamais conseguiria pagá-lo são, no fundo, maneiras muito concretas de entregar tempo a alguém.

É também por isso que não consigo pensar nessa eleição apenas como uma disputa entre duas marcas concorrentes. Flávio Bolsonaro construiu sua candidatura reivindicando a continuidade do bolsonarismo. Quem atravessou a pandemia sabe o tamanho da diferença que uma concepção de Estado pode fazer quando a sobrevivência deixa de ser figura de linguagem.

E talvez seja justamente isso que eu mais queira preservar quando penso em política: a possibilidade de que a vida não seja uma competição permanente por um lugar na área VIP. Tenho pensado muito nessa obsessão contemporânea pelo camarote, porque parece que uma parte enorme da política brasileira aprendeu a vender exatamente isso. Se você não tem casa, faltou empreender; se está exausto, faltou disciplina; se está endividado, faltou educação financeira; se não consegue tratamento, deveria ter comprado um plano melhor. Um problema coletivo, que deveria ser aplacado com políticas públicas, vai sendo desmontado até parecer uma sucessão de fracassos individuais.

É aí que entra a esperança, que para mim não tem nada a ver com pensamento positivo ou com aquela conversa meio tilelê de manifestar boas energias para o universo.Esperança política é outra coisa: é trabalho, organização, disputa, política pública e a disposição meio teimosa de olhar para uma realidade ruim sem tratá-la como profecia. Nesse sentido, o derrotismo é profundamente conservador, porque entrega ao presente o direito de durar para sempre.

Pra mim, na política e na vida, o futuro deixou de ser uma palavra bonita. Passei a pensar nele como um direito: o direito de ter amanhã suficiente para descobrir coisas que hoje nem sabemos que queremos, e de viver numa sociedade em que essa possibilidade não seja privilégio de quem conseguiu comprar ingresso para a área VIP – por nepotismo, herança ou se acotovelando pra chegar lá. E qualquer chance deste futuro só pode ser possível, mais uma vez, com Lula.

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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