A felicidade ganha uma. Mas a luta continua

Em rara vitória da classe trabalhadora, Câmara aprova fim da escala 6x1. Medida abre novas perspectivas para a política e a sociedade

Por Aydano André Motta | ODS 10ODS 12ODS 16
Publicada em 1 de junho de 2026 - 10:19
Tempo de leitura: 5 min

Erika Hilton e Rick Azevedo: novos e potentes líderes políticos. Reprodução
Erika Hilton e Rick Azevedo: novos e potentes líderes políticos. Reprodução

A autoproclamada casa do povo que, historicamente atravessada por inconfessáveis, escusos e, sobretudo, antirrepublicanos interesses, pouco (ou nada) pensa no povo rendeu-se, enfim, a uma pauta popular. Em contrariada goleada de 461 votos a 19, a Câmara dos Deputados consagrou o fim da escala 6×1, melhorando a vida de pelo menos 20 milhões de trabalhadores brasileiros e suas famílias. Vitória (bissexta) da felicidade.

Leu essa? Basta ao inferno do trabalho

É disso que se trata: do direito de ser feliz, a maior revolução possível. Descansar, amar, se divertir, beijar na boca, pegar sol, ouvir música, se exercitar, dormir, ler, pensar, namorar, gargalhar, olhar para o teto, caminhar, cuidar da saúde, brincar – viver. Nada poderá ser mais progressista. A selvageria escravagista da elite brazuca nega a banalidade civilizatória, para confinar a massa ao cativeiro da exploração. Dessa vez, perdeu (mané).

O sucesso – ainda à espera da ratificação no Senado – se espraia por camadas políticas, econômicas, sociais e eleitorais. Para começar, a mais urgente: a salvação está na mobilização popular e seu pendor de constranger a politicalha. Sequer foi a primeira vez. Para ficar no passado recente, a indignação barrou o projeto de equiparar o aborto ao homicídio, barbaridade inventada pela direita em sua cruzada medieval nos costumes. Também brecou a privatização das praias brasileiras, bizarrice do senador Flávio Bolsonaro, sempre prospectando negócios que lhe encham o bolso.

Ou seja: o povo se mobiliza pelo realmente que lhe interessa. E não faltam agendas a serem contempladas. Aos parlamentares sabujos do agronegócio, da Faria Lima, da indústria de armas, da destruição ambiental – e do crime organizado –, restou o constrangimento explícito nas cenas da votação. Viraram, todos, baratas atarantadas, movendo-se a esmo sob efeito do inseticida da ação popular. Coisa linda.

A camada econômica vai desmoralizar os empresários tacanhos, mesquinhos (ó, redundância), que embarcaram na ladainha do “país vai quebrar”, exumado a cada avanço trabalhista. O lazer decorrente do novo dia de descanso vai movimentar serviços, aquecer consumo, melhorar indicadores e, consequentemente, gerar emprego. O fim da escala 6×1 é, acima de tudo, bom para o capitalismo (escusas pelo baixo calão). Jamais por acaso, o descanso de dois dias está completando um século nos EUA, a partir da iniciativa de Henry Ford, o inventor da linha de montagem que revolucionou a indústria automobilística primeiro, e as outras depois. Simples: quem trabalha não consome.

O patronato sabe, mas o jogo dele é bem outro. Dessa vez “não é a economia, estúpido”, mas o poder, o controle sobre outros seres humanos, os trabalhadores. As lágrimas derramadas agora são bisnetas das derramadas no fim da escravidão, netas dos protestos contra a CLT, filhas dos muxoxos na criação do 13° salário, irmãs caçulas da imolação quando da decretação do FGTS, primas das lamúrias com a PEC das Domésticas. Basicamente, qualquer medida que empodera o povo causa urticaria nas elites.

O avanço social foi explicado por Domenico De Masi (1938-2023) ainda no fim do século 20, no ócio criativo, postulação que exalta o tempo livre, longe de ser negativo, como estímulo à inventividade pessoal. Os estudos do italiano sustentam que a sociedade pós-industrial valoriza a liberdade para pensar, viver e até trabalhar, num ambiente favorável à criatividade e à maturidade profissional. Ganha-se independência e bem estar, para completar o ciclo virtuoso.

Por fim, a camada eleitoral revelou nova liderança e sedimentou outra, as duas essenciais para as batalhas mais necessárias. O tocantinense Rick Azevedo, inventor da causa, era um esgotado balconista de farmácia no Rio, quando decidiu se insurgir contra a exploração doentia. Batizou o movimento de “Vida além do trabalho”, passou a divulga-lo em vídeos no TikTok e viralizou, pavimentando sua eleição à Câmara carioca. A causa ganhou musculatura pelas mídias digitais, até se apossar do Congresso.

A batalha pela aprovação na Câmara teve a condução da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que brindou o país com discursos inflamados e postura inegociável a favor dos trabalhadores. Corajosa e preparada, ela atropelou as patéticas contradições dos conservadores, demolindo, uma após a outra, as tentativas de desqualificar a iniciativa. Termina a jornada pronta para protagonizar muitas outras batalhas. A burocracia viciada nas mumunhas do poder, presa em suas táticas emboloradas, está obrigada a olhar para Rick e Erika como ativos eleitorais preciosos – craques do time, para ficar mais claro.

Porque nossa sociedade precisa aprender: a felicidade é o único caminho.

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Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

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