Amazônia recupera superfície de água após dois anos de seca severa

Seca extrema no Rio Solimões, no Amazonas, em 2024: após dois anos consecutivos de seca severa, a Amazônia recuperou a superfície de água em 2025, ano em que esteve abaixo da média histórica durante apenas dois meses (Foto: Nilmar Lage / Greenpeace - 24/09/2024)

Estudo do MapBiomas aponta que Pantanal fica 56% abaixo da média histórica, o pior resultado entre biomas brasileiros em 2025

Por Oscar Valporto | ODS 13ODS 14ODS 15
Publicada em 16 de junho de 2026 - 09:33  -  Atualizada em 16 de junho de 2026 - 09:37
Tempo de leitura: 10 min

Seca extrema no Rio Solimões, no Amazonas, em 2024: após dois anos consecutivos de seca severa, a Amazônia recuperou a superfície de água em 2025, ano em que esteve abaixo da média histórica durante apenas dois meses (Foto: Nilmar Lage / Greenpeace - 24/09/2024)
Seca extrema no Rio Solimões, no Amazonas, em 2024: após dois anos consecutivos de seca severa, a Amazônia recuperou a superfície de água em 2025, ano em que esteve abaixo da média histórica durante apenas dois meses (Foto: Nilmar Lage / Greenpeace – 24/09/2024)

Após dois anos consecutivos de seca severa, a Amazônia recuperou a superfície de água em 2025, ano em que esteve abaixo da média histórica durante apenas dois meses. O bioma, que concentra 61,4% de toda a superfície de água do Brasil, tem como destaque os estados do Pará (+142 mil hectares) e Amazonas (+87 mil hectares) que tiveram os maiores ganhos em relação à média histórica entre 1985 e 2025.

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Os dados são do MapBiomas, iniciativa multi-institucional que monitora transformações na cobertura e uso da terra no Brasil e indicam também outros quatros biomas brasileiros recuperaram água; só o Pantanal continua muito abaixo da média histórica. “A recuperação da superfície de água na Amazônia em 2025 é um sinal positivo após dois anos de seca severa. Em 2025, a superfície de água ficou acima da média histórica, associada ao aumento da precipitação em relação ao ano anterior”, afirma o engenheiro florestal Bruno Ferreira, da equipe Amazônia do MapBiomas e do Imazon.

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O pesquisador alerta, entretanto, que a Amazônia não está livre de ameaças climáticas. “Mesmo com essa recuperação, a situação ainda é preocupante no longo prazo, já que na região eventos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes, além de sinais de instabilidade no regime hídrico, influenciados tanto pelas mudanças climáticas quanto pelas transformações no uso da terra”, acrescenta Ferreira.

Em 2025, a superfície de água na Amazônia ficou 2,6% acima da média histórica. No entanto, essa melhora não foi uniforme: 20 sub-bacias (37% do total) no bioma ainda apresentam superfície de água abaixo da média histórica. Esses eventos afetam especialmente as comunidades ribeirinhas, das quais pelo menos 50% estão localizadas até 50 km dos 12 principais rios da Amazônia.

Superfície de água mensal nos biomas: Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Caatingativeram todos os meses de 2025 acima da série história (Fonte: MapBiomas)
Superfície de água mensal nos biomas: Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Caatinga tiveram todos os meses de 2025 acima da série história (Fonte: MapBiomas)

O Pará apresentou o maior ganho de superfície de água no país: 142 mil hectares em 2025 acima da média histórica (1985-2025). Goiás foi o segundo estado com maior ganho de superfície de água em 2025. A região teve um aumento de 91 mil hectares de superfície de água. Amazonas aparece em terceiro lugar, com ganho de superfície de água de 87 mil hectares em 2025 em relação à média histórica.

O MapBiomas também registrou um aumento de até 1000 mm de precipitação em 2025 em relação a 2024 em algumas regiões na Amazônia. Entretanto pesquisadores e autoridades temem nova seca severa e mais incêndios florestais com a aproximação de um El Niño extremamente forte nos próximos meses. O governo federal instalou uma sala de situação permanente sob coordenação da Casa Civil, reunindo 13 ministérios e diversos órgãos públicos. O grupo acompanha continuamente os cenários climáticos e planeja respostas antecipadas para reduzir impactos ambientais e sociais.

Brigadista do Prevfogo no combate a incêndio durante seca no Pantanal em 2024: bioma com perda acelerada de superfície de água (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil - 29/06/2024)
Brigadista do Prevfogo no combate a incêndio durante seca no Pantanal em 2024: bioma com perda acelerada de superfície de água (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil – 29/06/2024)

Pantanal vem perdendo água de forma acelerada

Em 2025, a superfície de água no Pantanal ficou 56% abaixo da média histórica (média histórica de 1,56 milhões de hectares de 1985 a 2025), sendo o único bioma brasileiro em que todos os meses do ano ficaram abaixo da média. Em 2025 o bioma apresentou uma superfície de água anual de 679 mil hectares, 34% acima do registrado em 2024, com 506 mil hectares, quando o bioma registrou uma seca histórica. “A dinâmica das águas no Pantanal mudou; a década de 80 foi marcada por grandes inundações, mas desde 2019 a região enfrenta secas prolongadas. Os períodos secos e úmidos são essenciais na manutenção da biodiversidade no bioma”, explica geógrafa Mariana Dias, analista de geoprocessamento e integrante da equipe do Pantanal do MapBiomas.

Não por acaso, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso lideram o ranking dos estados que em 2025 estiveram com a superfície de água abaixo da média histórica (1985 a 2025), com reduções de 527 mil hectares e 336 mil hectares, respectivamente. Os dois estados englobam a Região Hidrográfica do Paraguai, que perdeu mais da metade (53,8%, que correspondem a 877 mil hectares) da superfície de água em 2025 em relação à média histórica.

Mapeamento mensal da superfície de água no Pantanal entre 1985 e 2025 (Fonte: MapBiomas)
Mapeamento mensal da superfície de água no Pantanal entre 1985 e 2025 (Fonte: MapBiomas)

Em 2025, quase metade (45%, ou 2.511) dos municípios brasileiros esteve com superfície de água abaixo da média histórica e novamente esses números são impactados pela perda de superfície de água do Pantanal. Os municípios com maior retração da superfície de água em relação à média histórica estão nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que são influenciados pelas variações que ocorrem no bioma Pantanal.

Corumbá (MS) registrou perda de 474 mil hectares e Cáceres (MT) perdeu 189 mil hectares em relação à média histórica. “A Bacia do Alto Paraguai e os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul refletem essa dinâmica registrada pela variação da água no bioma”, destaca a pesquisadora Marina Dias.

A primeira grande cheia do Pantanal, desde o começo do monitoramento pelo MapBiomas em 1985, ocorreu em 1988. Em 2018, os satélites registraram a última cheia no bioma – 52% menor do que a cheia de 1988. Em 2024, houve uma seca histórica no Pantanal: com isso, o ano de 2025, mesmo sem cheia, houve um aumento de 34% na superfície de água quando comparado ao ano anterior. Mas ainda 56% abaixo da média histórica e 82% abaixo da cheia de 1988.

Tendência de superfície de água no Brasil e nos biomas - 1985 a 2025 (Fonte: MapBiomas)
Tendência de superfície de água no Brasil e nos biomas – 1985 a 2025 (Fonte: MapBiomas)

Queda por década desde 1985

Em 2025, o Brasil apresentou uma superfície de água de 18,2 milhões de hectares — número 5,3% superior aos 17,2 milhões de hectares registrados em 2024, ambos abaixo da média histórica (de 18,5 milhões de hectares). Atualmente, a superfície de água representa 2% do território nacional em 2025. A análise por década revela tendência de redução contínua da superfície de água no Brasil: de 1985 a 1994, a média ficou 19,86 milhões de hectares; de 1995 a 2004, caiu para 18,71 milhões de hectares; de 2005 a 2014, a média recuou para 18,16 milhões de hectares; na década de 2015 a 2024, teve mais uma queda, para 17,28 milhões de hectares

A última década (2015-2024) apresentou uma redução de 887 mil hectares em relação à década anterior. Entre a primeira década (1985-1994) e a última (2015-2024), a média de superfície de água reduziu em 2,6 milhões de hectares. “Mesmo com sinais pontuais de recuperação, a situação ainda é preocupante no longo prazo. Ao longo das últimas quatro décadas, observa-se uma tendência de redução da superfície de água no Brasil. Como se trata de um parâmetro naturalmente dinâmico, não podemos olhar apenas para o dado de 2025 de forma isolada”, comenta Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água.

Essa redução é ainda maior quando comparada exclusivamente com o que acontece com os corpos de água naturais. No Cerrado, houve um aumento de 87% na superfície de água de reservatórios desde 1985 e atualmente, os corpos de água naturais representam somente 34,4 % de superfície de água no bioma.

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Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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