Lula do Mel: guardião das abelhas e da biodiversidade da Caatinga

Foto colorida de Lula do Mel. Ele é um homem branco, com cabelo grisalho na altura do ombro. Ele está ao lado de uma escultura de uma abelha, no Solar das Abelhas, em Caruaru.

Ambientalistas e meliponicultor idealizou o Solar das Abelhas como um espaço de educação ambiental e convivência multiespécies

Por Micael Olegário | ODS 15
Publicada em 10 de julho de 2026 - 09:44  -  Atualizada em 10 de julho de 2026 - 09:51
Tempo de leitura: 8 min

Foto colorida de Lula do Mel. Ele é um homem branco, com cabelo grisalho na altura do ombro. Ele está ao lado de uma escultura de uma abelha, no Solar das Abelhas, em Caruaru.
Ambientalista e meliponicultor idealizou o Solar das Abelhas como espaço de educação ambiental (Foto: Thalys, The Creator | Caatinga Climate Week)

(Caruaru, PE)* – No Solar das Abelhas, um aroma doce é o primeiro sinal de um espaço pensado para a harmonia entre pessoas, plantas e abelhas. Não por acaso, o idealizador do espaço é conhecido como Lula do Mel. Neste lugar, o ambientalista e meliponicultor apresenta um outro mundo que compartilha com esses pequenos insetos voadores.

Localizado no Alto do Moura, em Caruaru (PE), o Solar das Abelhas é um refúgio de conhecimento e convivência multiespécies. “Meu ofício é criar abelhas e vivo dependendo delas, do mel e dos produtos, mas com respeito e equilíbrio”, afirma João Luiz Aleixo, nome de Lula do Mel.

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Logo na chegada, a arquitetura do espaço impressiona e encanta. Janelas, vidraças e móveis possuem formas geométricas semelhantes às encontradas em colmeias. Em uma das paredes, diversas caixas são lar para enxames de abelhas nativas – que têm suas próprias portas de entrada do lado de fora.

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Antes de fundar o solar, em 2018, Lula chegou a trabalhar com a apicultura industrial. Porém, com o passar do tempo, percebeu que essa lógica não fazia sentido para sua relação com as abelhas. Atualmente, além de um tipo de santuário, o espaço funciona como um Centro de Educação Ambiental para crianças da região.

“As abelhas têm muito a nos ensinar. Um bicho que está aqui há 100 milhões de anos, que passou por várias intempéries e já viu o planeta entrar em colapso antes. E hoje, as abelhas estão dando sinais que o planeta vai mal”, alerta o ambientalista e guardião da biodiversidade da Caatinga. 

“Gostaríamos que mais pessoas nos escutassem como o Lula do Mel. Sempre pensamos no coletivo e fazemos nosso trabalho para que outras espécies possam ter o que comer. Agora, nós também temos nosso alimento ameaçado e corremos o risco de desaparecer” – abelha da Caatinga**.

Foto colorida de caixas com diversas abelhas. As caixas são de madeira e ficam em parede do Solar das Abelhas
Caixas com diversas espécies de abelhas nativas; ação humana ameaça futuro de muitos polinizadores (Foto: Thalys, The Creator | Caatinga Climate Week)

Abelhas e crise climática

Estimativas indicam que 90% da alimentação humana depende de plantas polinizadas por abelhas. Ao mesmo tempo em que depende desses insetos, a agricultura industrial é uma das principais responsáveis pelo declínio na população desses insetos. Desmatamento, poluição e uso de agrotóxicos são exemplos de atividades com alto impacto no habitat e na saúde das abelhas.

A ação predatória de determinados grupos humanos afeta, inclusive, a capacidade de comunicação desses insetos. As abelhas sociais (que vivem em colmeias) transmitem informações entre si sobre as fontes de alimento, como a disponibilidade, a localização exata e o cheiro.

A comunicação das abelhas pode ocorrer por meio de danças (movimentos), vibrações ou sons. Pesquisa feita por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) aponta que as altas temperaturas, consequências do aquecimento global, afetam o ambiente e sua composição química, o que prejudica o desenvolvimento cognitivo desses insetos, ou seja, sua capacidade de emitir sons e vibrações.

Biólogo de formação, Lula do Mel destaca que a emissão de combustíveis fósseis é o problema central a ser encarado, inclusive, ao pensar na preservação de polinizadores. O ambientalista chama atenção ainda para as abelhas solitárias, grupo com maior diversidade de espécies e responsável por grande parte da polinização de plantas e culturas agrícolas.

“Os pequenos polinizadores que as pessoas não valorizam, porque não dão mel, essas abelhas estão acabando na natureza, em função da quantidade de pesticida”, aponta Lula. Ele lembra que essas espécies exercem um papel de bioindicadores da qualidade de um ambiente. 

“Os venenos que colocam nessas plantações de monocultura já mataram muitas de nós. A destruição de plantas companheiras nos deixa sem néctar e sem pólen. A diversidade é essencial para que possamos sobreviver” – abelha da Caatinga**.

Foto colorida de Lula do Mel, de costas, falando com grupo de visitantes em sala do Solar das Abelhas, em Caruaru
Lula do Mel recebe visitantes da Caatinga Climate Week; alerta sobre impacto da ação humana no habitat de polinizadores (Foto: Thalys, The Creator | Caatinga Climate Week)

Educação ambiental

“Sem abelhas, sem alimentos”, este é o título do projeto socioambiental promovido no Solar de Abelhas. A iniciativa promove a conscientização em torno da importância desses insetos e do cuidado com a natureza, a partir de oficinas com escolas de Caruaru e municípios vizinhos.

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“A minha história e meu propósito com as abelhas é despertar nas crianças as pequenas ações no dia-a-dia, de como ser amigo das abelhas na natureza, no reduzir, reutilizar, reciclar, repensar e reconectar”, explica Lula do Mel. Esse trabalho envolve mostrar a relevância da polinização e a diversidade dessas espécies de polinizadores.

Em 2019, Lula recebeu o título de “Personalidade do Ano em Meio Ambiente”, durante a 30° edição do Prêmio Vasconcelos Sobrinho. Porém, mais que condecorações, o que importa para o ambientalista é a conexão espiritual com as abelhas. “Se eu crio abelha, tenho que também plantar e preservar os ecossistemas”, ressalta.

Levantamento do Instituto Butantan indica que existem cerca de 3 mil espécies de abelhas no Brasil, considerando espécies exóticas ou nativas e com ou sem ferrão. Dados compilados pela Associação Caatinga registram 187 espécies na Caatinga, o que inclui espécies endêmicas, como: Mandaçaia, Abelha branca, Manduri e Jandaíra.

“Acreditamos no futuro, porque existem pessoas que são nossas aliadas. O Lula do Mel é uma delas, assim como os povos tradicionais” – abelha da Caatinga**.

Foto colorida de abelha na entrada de uma colmeia, no Solar das Abelhas
Abelhas são essenciais para a polinização e para a agricultura global (Foto: Thalys, The Creator | Caatinga Climate Week)

*O repórter Micael Olegário visitou o Solar das Abelhas durante a programação da Caatinga Climate Week. A participação no evento foi a convite do Instituto Socioambiental (ISA).

**Os trechos atribuídos a uma “abelha da Caatinga” são fabulações especulativas e foram escritos por este repórter, com base na experiência de visita ao Solar das Abelhas e na entrevista com Lula do Mel. Trata-se de um esforço de imaginação, utilizado como uma forma de alteridade com humanos e mais-que-humanos (abelhas, animais, plantas, rios e biomas).

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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