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Veja o que já enviamosA Copa dos sabotadores
Ao se entregar ao criminoso Donald Trump em troca de (muito) dinheiro, Gianni Infantino, o presidente da Fifa, fere gravemente o próprio futebol
Na paleta das indignidades que a Fifa impõe ao planeta bola, a 23ª Copa do Mundo entra para a história como contundente ação de sabotagem contra o próprio futebol. Após se abrir ao ditador Vladimir Putin, em 2018, e abraçar a teocracia inimiga dos direitos humanos do Qatar, quatro anos depois, a dona do esporte mais popular da Terra agora se entrega ao supremo criminoso global. Ao se curvar a Donald Trump e seu interminável rosário de bestialidades, ajuda a corroer o prestígio do jogo que pavimenta seu poder.
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Quando o ítalo-suíço Gianni Infantino, presidente da entidade, concedeu ao bizarro mandatário estadunidense um prêmio da paz – tentativa surreal de emular o Nobel –, achou-se que, na bajulação desavergonhada, o fundo do poço chegara, enfim. Engano: era ainda aperitivo para a barbaridade real oficial, que veio com a aproximação da própria Copa. Trump transformou o Mundial em veículo de suas barbaridades racistas e xenófobas, atingindo a própria “família futebol”.


A competição quadrienal começou nesta quinta, no lendário Estádio Azteca, com a vitória do coanfitrião México (o outro é o Canadá, que compartilha da desimportância) sobre a África do Sul (2 a 0), mas nasceu manchada por episódios constrangedores. O árbitro somali Omar Artan, eleito o melhor da África ano passado, foi sumariamente barrado na imigração, ao desembarcar nos EUA; os jogadores do Senegal passaram por embaraçosa revista ainda na pista do aeroporto de Raleigh, na Carolina do Norte, escala na viagem até San Antonio (Texas); e a seleção do Uzbequistão enfrentou inspeção com cães farejadores ao pisar em Chicago, para amistoso com a Holanda.
Nada se compara à odisseia de humilhação imposta ao Irã. Integrantes da equipe técnica não receberam vistos e, pior, toda a delegação foi proibida de pernoitar em território ianque. Assim, ficará no México, mas fará as partidas da fase de grupos nos EUA – a única das 48 seleções obrigada a viajar no mesmo dia dos jogos. O protocolo de todas as outras prevê a chegada na véspera, para um treino no campo do duelo e a necessária noite de sono antes da disputa. Comparação oferecida pela história: os nazistas trataram muito melhor o negro americano Jesse Owens, nas Olimpíadas de 1936, em Berlim; dá nem para comparar. Agora, a intolerância trumpista humilha todo um país e fere a isonomia esportiva, manchando em definitivo a competição. (Com a repercussão, o mandatário ensaiava recuar da medida. Mas a hostilidade seguirá Copa adentro.)
Noves fora a naturalização de o Mundial acontecer no país em guerra contra uma das nações participantes, o mesmo Irã. O conflito está em curso, soma milhares de mortos e ameaças apocalípticas do presidente estadunidense. Os iranianos desembarcaram no México usando broche com o número 168, referência às meninas assassinadas por bomba atirada numa escola de Minab, no sul do país, pelos subordinados de Trump. De qualquer jeito, torcedores do país não receberam vistos de entrada, para acompanhar sua seleção.
Diante de tantos absurdos, qual a reação da Fifa? Cri, cri, cri… Silêncio cúmplice, subserviência absoluta e obscena incoerência em relação a ocorrências anteriores. A mandachuva da bola levou quatro dias para punir a Rússia, quando o país de Putin iniciou o ataque à Ucrânia; os EUA massacram o Irã desde o fim de fevereiro e Trump virou o herói pacifista da entidade. Perguntado sobre a contradição, Infantino escondeu-se: “Não podemos resolver problemas geopolíticos”. O cartola parecia outra pessoa quatro anos atrás. “Devemos garantir a entrada dos torcedores, caso contrário, não pode ser considerado um Mundial sem os apoiadores dos times participantes”, decretou, antes da Copa russa. “Não podemos interferir nas decisões de um país sobre quem entra e sai”, fugiu agora.
Mas para quem tem o acúmulo de moeda corrente como religião fervorosa, o paraíso está logo ali – e compensa qualquer vexame. A Fifa prevê arrecadar US$ 8,9 bilhões com a Copa na terra do fentanil e do armamento desenfreado. Somente a venda dos direitos de transmissão renderá US$ 3,9 bilhões.
A montanha de dinheiro não debela a desvalorização mais grave, não monetária, que está se acentuando nos movimentos de Infantino. Em sua cruzada sabotadora, suas alianças, sua insensibilidade, sua teatral alienação, ele arranha profundamente a imagem do futebol. Pela primeira vez, uma Copa do Mundo está sob (grande) risco de não ser salva nem pela excelência das seleções recheadas de craques.
Com seu aval às truculências, o cartola vira as costas à real preciosidade do evento que lhe dá poder no patamar chefe de estado (e, no bojo, decifra a façanha de superar a ONU em número de filiados). O futebol, por si só, vale quase nada. A magia da Copa do Mundo está no que evoca além dos limites do campo: a reunião dos povos, a ostentação da diversidade humana, o encontro de bípedes dos cantos mais remotos da Terra, a confluência de religiões, etnias e contextos sociais díspares – tudo unido pela diversão suprema do jogo de bola.
Pedaço robusto da salada não será servido dessa vez. E a Fifa é assumidamente sócia do descalabro. Um crime contra o futebol, o espírito que rege o esporte, o feitiço da festa concebida para (re)unir.
Gol contra como nunca se viu.


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