A dura rotina sem glamour dos influenciadores das areias do Rio

Laurinha do Camarão em ação na praia de Charitas: mais de 500 mil seguidores no Tik Tok, 400 mil no Instagram (Foto: Reprodução / Instagram)

Ambulantes cariocas fazem sucesso na areia e nas redes sociais. Exposição, no entanto, omite as dores no corpo, as horas de deslocamento e a luta por sustento

Por Julia Herreira | ODS 8
Publicada em 15 de junho de 2026 - 09:49  -  Atualizada em 15 de junho de 2026 - 09:52
Tempo de leitura: 14 min

Laurinha do Camarão em ação na praia de Charitas: mais de 500 mil seguidores no Tik Tok, 400 mil no Instagram (Foto: Reprodução / Instagram)
Laurinha do Camarão em ação na praia de Charitas: mais de 500 mil seguidores no Tik Tok, 400 mil no Instagram (Foto: Reprodução / Instagram)

Eles são parte do cartão-postal do Rio de Janeiro. É difícil imaginar a experiência nas praias da Cidade Maravilhosa sem a presença visual e sonora desses trabalhadores. Dos cerca de 15 mil ambulantes registrados na cidade, 14,2% atuavam nas praias, segundo dados divulgados pela Prefeitura em 2022. Em meio ao vai e vem de banhistas, sol forte e barracas, esses trabalhadores circulam oferecendo alimentos, bebidas, acessórios e serviços. Com vozes marcantes, gestos e frases criativas, conquistam os clientes — e, cada vez mais, ganham espaço nas redes sociais. O que nem sempre aparece, no entanto, é a rotina de quem vive do comércio informal nas areias.

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Eles compõem o cenário do turismo na cidade. O comércio nas praias do Rio pode movimentar até R$ 4 bilhões por ano, segundo estimativas da Prefeitura. Com jeitos tipicamente cariocas, os vendedores ambulantes utilizam o carisma como ferramenta de venda — e muitos têm ganhado visibilidade nas redes sociais com vídeos que viralizam. Apesar da presença consolidada na orla, essa categoria ainda é pouco contemplada por estudos ou iniciativas públicas.

Em 2024, uma pesquisa do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, em parceria com o Ministério Público do Trabalho, revelou que mais de 70% dos trabalhadores de praia em Salvador têm jornadas superiores a oito horas diárias. Cerca de 40% relataram acidentes de trabalho nos últimos 12 meses — como perfurações, cortes e queimaduras — e 25% apresentaram infecções de pele.

Para o professor do Instituto de Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, Gustavo das Neves, que pesquisa a sociologia do trabalho, o cenário é semelhante em outras capitais. “É curioso, porque eles são um símbolo do Rio de Janeiro, mas acho que faltam estudos sobre eles”, afirma.

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Em 2003, Gustavo acompanhou a rotina de Silvério, vendedor de sorvetes, para escrever o artigo “Mercadores Ambulantes das Praias do Rio de Janeiro: Subjetividades e Economia Política” — um dos poucos trabalhos voltados à categoria no estado. Morador de Comendador Soares, Silvério acordava antes das 4 horas para chegar à Praia do Leblon, enfrentava longas horas no transporte público, caminhava o dia inteiro com pouco descanso e alimentação precária.

Jorge Luiz, o Ponoca do Mate: horas no transporte de Belford Roxo a Ipanema. Foto: Júlia Herrera
Jorge Luiz, o Ponoca do Mate: horas no transporte de Belford Roxo a Ipanema (Foto: Júlia Herrera)

Mais de duas décadas depois, a realidade de muitos trabalhadores se mantém semelhante. Jorge Luiz, o Ponoca do Mate, atua entre os postos 6 e 10 de Ipanema. Morador de Belford Roxo, ele acorda às 4 horas, pega o transporte público e chega à praia por volta das 9 horas. Diferentemente de muitos colegas, que precisam levar os galões já cheios de casa, Ponoca conta com a ajuda de um amigo porteiro que guarda o equipamento para ele. “Tive sorte de ter um amigo que deixa eu guardar o galão no prédio dele”, conta.

Mesmo com esse apoio, Ponoca encara deslocamentos longos e horas de trabalho sob o sol. Em um fim de tarde nublado de julho, comenta: “Chego em casa agora, só dá tempo de tomar um banho, jantar, cochilar um pouco e já sair de novo”. O esforço constante provocou uma crise no nervo ciático que o deixou três meses sem andar. “A areia puxa muito. Nossa caminhada nela é pesada, e a gente pisa muito em falso”, explica.

Como outros ambulantes, Ponoca criou um bordão para chamar os clientes, mas não obteve repercussão nas redes sociais. A pergunta que se impõe é: mesmo os que se tornam conhecidos na internet conseguem escapar das dificuldades comuns à categoria?

Rodnei, Neimate, em evento: sucesso nas redes e mate muito além da areia da praia (Foto: Reprodução / Facebook)
Rodnei, Neimate, em evento: sucesso nas redes e mate muito além da areia da praia (Foto: Reprodução / Facebook)

Olha o mate, olha o limão — geladinho

Desde 2012, os mateiros são reconhecidos como Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, pois são símbolo de uma das tradições mais refrescantes dos cariocas. Tomar o mate Leão acompanhado do biscoito de polvilho Globo é um clássico nas praias da Cidade Maravilhosa. Eles são figuras que compõem a paisagem e a experiência do Leme ao Pontal. Esses profissionais fazem parte da cultura popular do estado, e seu trabalho ultrapassou os limites das areias, alcançando festas, eventos corporativos, casamentos e universidades. Rodnei Moreira, mais conhecido como Nei Mate, foi um dos primeiros mateiros a participar desse movimento de levar o mate para além da praia.

Trabalhando na orla desde 2015, Nei não tem um bordão específico. Desde o início, buscou outros caminhos para se diferenciar, apostando na construção de uma marca e de uma identidade própria. “Queria que as pessoas me reconhecessem pelo nome, pela minha identidade. Comecei a mudar algumas coisas no uniforme e passei a me destacar naquela época”, conta.

Uma das principais percepções de Nei foi notar a sazonalidade do comércio na praia. “A galera só vendia na temporada. A gente, tentando melhorar o serviço, criou um cartão fidelidade e começou a trabalhar com redes sociais”, explica. Em 2016, com os Jogos Olímpicos no Rio, ele deu os primeiros passos para atuar fora das praias, vendendo mate em locais de transmissão das competições. “Vimos que o mate é querido em qualquer lugar. Basta alguém estar lá para vender”, diz.

Desde então, o “mate do Nei” passou a ser oferecido em eventos diversos, colégios particulares da Zona Sul e até na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde atualmente mantém um ponto fixo. Foi na PUC que ele criou clubes de assinatura e fidelizou ainda mais os clientes. Incentivado pelos próprios alunos, passou a usar com mais frequência as redes sociais, o que ampliou sua visibilidade.

Rodnei já participou de programas como Encontro com Fátima Bernardes e Sem Censura, da TV Brasil. Apesar da projeção, enfrentou dificuldades em 2020, durante a pandemia, quando foi diagnosticado com câncer de garganta. Naquele momento, contou com o apoio dos estudantes da PUC, que organizaram campanhas e lhe garantiram alguma renda.

Ao ser questionado sobre o reconhecimento da profissão como patrimônio cultural e se esse título trouxe algum tipo de apoio público, Rodnei é direto: “Eu tenho consciência de que somos patrimônio cultural, isso eu sei. Mas o governo nunca ajudou a gente, não.”

A visibilidade nas redes e na mídia não torna a rotina de trabalho menos dura. Durante a alta temporada, entre dezembro e março, é possível encontrar Nei percorrendo a orla do Leblon. Ele conta que chega a caminhar mais de oito quilômetros por dia. No início, em 2014, enfrentou dificuldades físicas severas. “Lembro que machucou meu ombro, meu pé. Eu não podia ficar em casa, precisava trabalhar.” A alça do galão machuca os ombros, e o peso constante também fere o quadril. “Conheço muitos vendedores que morreram na praia. Passou mal e faleceu”, afirma.

Símbolos das praias cariocas e reconhecidos como patrimônio cultural, os mateiros seguem à margem das políticas públicas. Trabalham com dores, queimaduras e ferimentos — porque é das praias que obtêm sua fonte de renda.

Ela não é Claudia Raia nem Vera Verão

“Laurinha do camarão.” É assim que os mais de 830 mil seguidores nas redes sociais conhecem Laura Pontes da Silva. Há 21 anos, ela vende camarão na praia de Charitas, em Niterói. Mãe solo de cinco filhos, foi na areia que encontrou uma forma de sustento para a família. Mas os bordões e a fama na internet não a acompanharam desde o início.

“Um amigo falou: quem trabalha com venda tem que ter sempre algo para chamar a atenção dos fregueses. Eu moro em São Gonçalo. Então, vim de lá no ônibus pensando: Laura, Laurinha… Aí fiz a primeira música, que eu canto assim: ‘Camarão da Laurinha, comeu, gamou’”, conta a vendedora ambulante.

Laurinha do camarão na praia de Charitas. Foto: Júlia Herrera.
Laurinha do Camarão na praia de Charitas: vídeos qcom mais 100 mil visualizações (Foto: Júlia Herrera)

O sucesso nas redes sociais chegou em 2021, com vídeos que ultrapassaram 100 mil visualizações. Desde então, Laurinha participou do programa da Eliana, gravou clipes, deu entrevistas para o RJ1 e para a TV Aparecida e, atualmente, integra o reality show New Face Brasil. O alcance nas plataformas não diminuiu ao longo dos anos: um de seus vídeos no TikTok ultrapassaram 19 milhões de visualizações. Mas, ao ser questionada se se considera famosa, responde: “Gente, famoso não fica de cara no sol o dia inteiro. Porque eu fico o dia inteiro de cara no sol.”

Apesar da fama (mais de 500 mil seguidores no Tik Tok, 400 mil no Instagram), Laura segue com a rotina de sempre. Sai de São Gonçalo, compra os camarões no Mercado de Peixe São Pedro, em Niterói, volta para casa, prepara os produtos e retorna à praia — tudo de ônibus. O trajeto total leva cerca de três horas e quarenta minutos. Na areia, Laurinha é conhecida. Em poucos minutos, é abordada por clientes que compram camarão, pedem fotos e gravam vídeos.

Mas ela garante que o movimento não depende da visibilidade online. “A minha venda não influi na minha rede social. Por quê? O meu camarão tem um diferencial. É gostoso, é tudo feito com amor. O resultado é maravilhoso. O camarão da Laurinha é: comeu, gamou. E se gamar, come mais.”

Quem come, gama mesmo. A clientela fiel foi conquistada ao longo de duas décadas com a qualidade e a procedência dos produtos — e não com os vídeos virais. Segundo Laura, hoje a internet ajuda, principalmente nas épocas de frio: “Fiz uma publicidade em março para a Seda. É isso que vai suprindo”, explica. A exposição na mídia lhe trouxe um pouco mais de estabilidade financeira — realidade distante para grande parte dos ambulantes.

Porém, o que muitos não veem nos vídeos curtos é o esforço cotidiano. Laurinha continua a se deslocar de transporte público, a caminhar por toda a extensão de quase mil metros da praia e a trabalhar sob o calor intenso. A rotina, que pode parecer glamourosa para quem a vê pela tela do celular, segue próxima da vivida por outros trabalhadores informais. “Encaro aqui o sol de 40 graus no verão. Aqui, nessa praia, criei cinco filhos. E agora estou criando meus sete netos”, diz.

Assim como 49,1% das mulheres brasileiras, segundo o Censo do IBGE de 2022, Laura chefia sozinha o seu lar. Precisou buscar alternativas para sustentar a família — e foi à luta. “Não, não me classifico como famosa. Eu sou sobrevivente.”

Dificuldades nas reivindicações dos ambulantes

Apesar da importância econômica e cultural do comércio ambulante nas praias do Rio, a categoria segue sem uma organização formal que atue na defesa coletiva de seus interesses. A informalidade, a sazonalidade e a dispersão territorial desses profissionais dificultam a criação de entidades estáveis de representação.

Denilson Bandeirinha, de 63 anos, trabalha como ambulante na orla carioca há mais de quatro décadas. Conhecido entre colegas e fiscais, ele passou a atuar informalmente como ponto de contato entre os vendedores e a Prefeitura. “Quando houve a última distribuição de crachás e coletes, quem me procurou foi a Prefeitura. Fiz questão de manter contato com os ambulantes, inclusive nas redes sociais, para que, caso o poder público quisesse diálogo, soubesse onde me encontrar”, explica.

Denilson chegou a ocupar o cargo de diretor do departamento de ambulantes dentro de uma associação de barraqueiros. Criou também um grupo no WhatsApp para facilitar a troca de informações entre os trabalhadores e mobilizar colegas em casos de urgência. “Há uns 20 anos, organizei, junto com um representante dos barraqueiros, dois mutirões de licenciamento. Foi a forma que encontrei de contribuir com a categoria. Desde então, assumi esse papel de representar, mesmo que de forma informal. Eu costumo dizer que sou um representante em stand by.”

Segundo ele, a ausência de articulação coletiva contribui para a descontinuidade das políticas públicas. “Os ambulantes são sazonais e dispersos. É praticamente impossível formar uma entidade estável. Quando surge alguma iniciativa, como o uso do colete padronizado, a ideia não se sustenta porque falta diálogo e continuidade.”

Para Denilson, o problema mais recorrente está na atuação da fiscalização, que frequentemente penaliza os ambulantes licenciados e ignora os que atuam sem qualquer regularização. “Sempre que há alguma operação de ordenamento, os fiscais vão em cima de quem tem licença, cobrando uso de crachá, colete ou pagamento de taxas. Já os que estão completamente irregulares saem de fininho e voltam a trabalhar. Isso desestimula a regularização e aumenta a evasão.”

Apesar das limitações, ele reconhece que parte da responsabilidade está na própria estrutura do comércio informal: “A administração pública faz o que pode, cadastra e tenta ordenar. Mas o desemprego e os baixos salários da economia formal empurram milhares de pessoas para as praias. Já virou um fenômeno de deficiência social, creio eu.”

A falta de um canal institucional de representação deixa a categoria sem voz diante de decisões que afetam diretamente suas condições de trabalho — e reforça a lógica de precariedade, em que cada trabalhador precisa negociar, se proteger e sobreviver por conta própria.

(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.

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Julia Herreira

Júlia Herrera é graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, produtora da TV Band Rio e repórter da Rádio UFRJ. Apaixonada por carnaval, cultura, história e gastronomia. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social, capaz de dar voz às pessoas e contribuir para mudanças.

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