ODS 1
Megaeventos em Copacabana trazem impactos positivos também para vendedores ambulantes


Um mergulho nas histórias e desafios de quem trabalha bem longe dos holofotes durante os shows internacionais nas praias do Rio


“Um é two, três é five“, anunciava um vendedor ambulante na linha 125 – Central do Brasil x General Osório, ônibus que liga a região do centro do Rio a Copacabana. O vendedor era um menino de 14 anos, que estava a caminho da praia para vender Biscoito Globo. Entre as diversas histórias de vendas contadas por ele, as mais recentes eram suas favoritas e envolviam os megaeventos em Copacabana. Os relatos do menino não são incomuns entre os ambulantes da cidade.
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Abel Marcos, morador da Baixada Fluminense e também vendedor do famoso biscoito, começou sua jornada pelas areias de Copacabana, aos 14 anos, para ajudar na renda da família. Hoje, aos 20 anos, o jovem enxerga nas praias uma oportunidade de trabalho honesto e rentável. Apesar de a cidade do Rio de Janeiro ter cerca de nove mil vendedores ambulantes registrados, a realidade de quem depende da areia para sobreviver segue invisível em meio aos grandes eventos.


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Veja o que já enviamosEnquanto as imagens dos shows rodavam o mundo, a participação dos vendedores ambulantes nos megaeventos continuou fora de cena. O vendedor Matheus Santos, de 23 anos, defendeu a continuação do projeto, tendo em vista a importância dos shows internacionais na economia do comércio de rua. “Dá uma diferença (na renda) bacana sempre quando tem esses shows, sempre enche. (…) Traz benefícios para a gente que vende em Copacabana, é uma tradição”, compartilhou Matheus, morador de Bangu, bairro localizado a 49 km de distância de Copacabana.


‘Todo Mundo no Rio’: o comércio ambulante e a economia carioca
De acordo com dados levantados por uma parceria entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a RioTur, empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro, o último show do projeto foi responsável por atrair mais de 500 mil turistas e movimentar cerca de 600 milhões de reais na economia fluminense.
Em entrevista, Bernardo Fellows, presidente da Riotur, empresa pública responsável por promover eventos de atração turística e executar uma política comercial geradora de recursos, revelou que somente em maio de 2025, a cidade arrecadou R$66,2 milhões de reais em impostos (ISS) de setores ligados ao turismo, eventos e transporte. “Em resumo, no primeiro semestre do ano, foram 6,8 milhões de turistas – nacionais e internacionais – na cidade, que movimentaram a economia em R$14,5 bilhões” afirmou o presidente.
Segundo o professor Marcos Cavalcanti, pesquisador da UFRJ, os setores informais como os vendedores ambulantes também são diretamente impactados por esse “boom“ turístico gerado pelos megaeventos em Copacabana e são parte essencial do giro da economia. “Os megaeventos sempre impactaram muito fortemente o comércio informal, não só na área do evento, como em toda cidade. (…) Isso tem um impacto gigantesco na economia fluminense que é muito dependente desses trabalhadores autônomos, sem carteira”, afirmou o pesquisador.
Esse reflexo econômico pode ser percebido através de melhorias para a vida dos ambulantes. O vendedor Abel Marcos contou como a renda extra gerada pelos shows trouxe um impacto direto na qualidade de vida de sua família. “Pude ajudar bastante minha família, pude também reformar um pouco a minha casa, evoluir e não deixar nada faltar dentro de casa” compartilhou o morador de Queimados, município da Baixada, a 60 km de Copacabana, uma viagem de cerca de duas horas no transporte público.
Assim como oportunidade de renda extra, as areias também podem ser palcos para a realização de sonhos. Morador de Belford Roxo, o jovem João Pedro Moraes, de 20 anos, vende sacolé na Praia de Copacabana para que possa realizar seu sonho: cursar Psicologia. “Eu investi em coisas do meu trabalho. (…) E também eu ‘tô’ pretendendo fazer faculdade, então, ‘tô’ com um fundo de garantia. Estou juntando dinheiro para caso eu não consiga entrar (na faculdade) pelo Sisu”.
A Praia de Copacabana se tornou um caminho para realização desse sonho devido ao grande retorno financeiro gerado pela economia das praias cariocas. Ainda de acordo com o pesquisador Marcos Cavalcanti, estudos revelam que a economia da praia, gerada através do comércio de rua na região, pode ser estimada em até 12 milhões de reais por semestre.


Nos holofotes da fiscalização
Mesmo sendo personagens importantes na economia carioca, os vendedores ambulantes encontram dificuldades com a Prefeitura. Ainda no mês de maio deste ano – período palco do show de Lady Gaga, o prefeito Eduardo Paes estabeleceu novas normas para as orlas da cidade, visando uma convivência harmoniosa na utilização do espaço público. Apesar de o decreto ser voltado, em sua maioria, para quiosques e barracas autorizadas, os vendedores ambulantes não passaram despercebidos: os utensílios para preparo e manuseio de alimentos, como palitos, churrasqueiras e carrinhos seriam fiscalizados.
As medidas geraram revolta entre barraqueiros, donos de quiosques e ambulantes, que se uniram em um protesto em maio de 2025, em Copacabana, que resultou em uma reunião com o prefeito e uma flexibilização de algumas medidas do decreto. Apesar dos vendedores ambulantes serem mencionados no decreto, apenas representantes dos barraqueiros e donos de quiosques foram convocados.
Embora façam parte do comércio de rua, barraqueiros e ambulantes pertencem a categorias distintas. Os barraqueiros têm ponto fixo, atuam de forma legalizada e pagam impostos, enquanto parte dos vendedores ambulantes não são registrados e, por conta disso, não são obrigados à pagar impostos. Apesar da distinção, todos compartilham do mesmo palco: o dia a dia das praias, que cria e fortalece uma união entre esses trabalhadores.
Apesar de ser um vendedor ambulante, quando perguntado sua opinião sobre os megaeventos, Abel Marcos levantou como ponto negativo um problema que não atingia a si, mas aos barraqueiros. “Por um lado é bom, porque vem bastante turista, vem bastante gente de fora e com isso dá pra gente lucrar bastante. Por um lado é ruim, que afeta também os barraqueiros (…) que pagam imposto também e não têm direito de trabalhar em dia de evento”, afirmou o jovem.


O barraqueiro Wesley da Silva, de 34 anos, trabalhou nos shows do projeto Todo Mundo no Rio, e ainda que tenha gerado um bom lucro, defendeu a necessidade de um olhar mais empático sobre a organização dos eventos e a legislação do comércio de rua. “Eu acho que o governo do Estado do Rio está muito preocupado com o show (…) mas as coisas não são assim, porque eles tão’ querendo acabar com os ambulantes e colocar regras que não existem pros barraqueiros”. Wesley é mineiro, e veio trabalhar nas praias do Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor.
Questionada em entrevista sobre a fiscalização dos vendedores ambulantes durante os megaeventos, a Secretaria Municipal de Ordem Pública afirmou que os vendedores são cadastrados especificamente para esses eventos. “Com isso, a fiscalização é facilitada. O ambulante autorizado recebe o isopor identificado, um colete, uma tabela de preços e uma credencial”. Além disso, a Secretaria afirmou que a Subsecretaria de Operações (SUBOP) atua em conjunto com a Guarda Municipal e emprega o uso da força, caso necessário.
Ainda de acordo com Bernardo Fellows, presidente da Riotur, esse e outros planos de ordenamento urbano feitos em parceria com diversas secretarias e órgãos municipais têm a finalidade de garantir segurança durante o evento e beneficiar o comércio local. “O objetivo é permitir que milhões de pessoas possam viver a festa com conforto, segurança e organização, ao mesmo tempo em que o comércio local e o turismo sejam beneficiados”, afirmou o presidente.


Entre a venda, a cultura e o zelo
Em meio a lucros, correrias e sotaques vindos de todo o mundo, os vendedores ambulantes não carregam consigo apenas produtos – mas sim, histórias, vivências e cultura. Para eles, a praia pode funcionar não só como local de trabalho, como também um palco para intercâmbios culturais com turistas e aprendizados diários, que são impulsionados devido aos megaeventos em Copacabana.
O vendedor de artesanato José Antônio Cordeiro, de 63 anos, enxerga nos grandes eventos e no comércio de rua uma oportunidade de conhecer outras culturas. “Antes de começar (a trabalhar) na praia, eu nem pensava em dialogar em espanhol. Hoje em dia, eu dialogo em espanhol, consigo me entender com franceses, norte-americanos e australianos, e assim a gente vai conhecendo um monte de culturas diferentes da nossa”, compartilhou José Antônio. O artesão, inclusive, refletiu sobre a importância de manter as praias limpas durante os eventos: “As pessoas têm que ter consciência. Tipo: eu trouxe meu lixo, eu devo levar o meu lixo.”
Ainda de acordo com José Antônio, o artesão defendeu a necessidade do Estado reforçar medidas de segurança no dia-a-dia das praias, não só nos dias de grandes eventos. “Eu acho que o poder, tanto municipal e estadual, deveriam não só se preocupar nos dias de evento. Tipo assim: não pode entrar com garrafa, não pode entrar com faca, mas isso deveria ser feito todos os dias, porque aqui é o nosso local de trabalho. (…) Se eu não cuidar bem do meu local de trabalho, isso aqui vai virar um lixão. O Rio de Janeiro, querendo ou não querendo, é a porta de entrada, é um cartão postal do Brasil para o mundo”, refletiu o artesão, que trabalha nas areias de Copacabana há 10 anos.
A imagem do Rio de Janeiro como um cartão postal para o mundo também é defendida pelo barraqueiro Marllon Souza, de 36 anos. O carioca morou em Portugal por 2 anos, e aprendeu a falar outros idiomas nesse período. Hoje, Marllon recepciona os turistas em diferentes línguas. “Eu gosto de estar na praia, gosto do sol, gosto de falar com as pessoas, eu amo meu trabalho. Gosto (dos megaeventos), com certeza. Fomenta o turismo e mostra Copacabana pro mundo inteiro”, compartilhou o morador de Pilares, bairro localizado a 25 km de distância de Copacabana, uma média de 1 hora e 15 minutos de distância.


Quando o show acaba, quem fica?
Mesmo que as luzes se apaguem e os palcos sejam desmontados, as areias de Copacabana continuam sendo o palco da vida desses vendedores, onde eles performam em busca de seus sonhos e melhor qualidade de vida. As falas e vivências compartilhadas mostram que os ambulantes são muito mais do que cerca de nove mil personagens secundários, mas sim, protagonistas do cotidiano nas praias de toda a cidade. O impacto dos megaeventos na vida dessas pessoas vai muito além do financeiro: envolve esperança e expectativas na busca por uma vida melhor e pertencimento no próprio local de trabalho.
Desde vendedores ambulantes que precisam começar sua jornada de trabalho nas areias ainda na adolescência, movidos pela necessidade de ajudar financeiramente suas famílias, até aqueles que enxergam nas praias a realização de ter um trabalho prazeroso – todos carregam consigo subjetividades cativantes e sensíveis, que são constantemente ofuscadas e subestimadas.
(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.
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Luisa Cuerci
Luísa Cuerci é estudante de Jornalismo na UFRJ, repórter da Rádio UFRJ e apaixonada pela arte de ouvir e contar histórias. Natural da Baixada Fluminense, tem interesse em jornalismo comunitário, cultural, esportivo, sempre guiada pelo apreço às narrativas humanas e sociais. Acredita no jornalismo como uma forma de escutar o mundo com atenção e compartilhar histórias que nem sempre encontram espaço para serem contadas.








































