ODS 1
Território Rampa faz história com titulação coletiva e primeira rádio e TV quilombola


Cultura quilombola ganha espaço no universo digital. Comunidades se mobilizam para buscar autotitulação de forma independente


“O processo que os nossos ancestrais lutaram para iniciar, a gente está aqui mantendo”. A frase é de Raimundo Quilombola, comunicador do Território Rampa, localizado entre os municípios de Cantanhede e Várzea Grande, no Maranhão. A história narrada por jovens como Raimundo entrelaça ancestralidade, cultura e tecnologia, em um contexto de luta por direitos e por reconhecimento.
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Ao todo, o território possui 6.418 hectares e conta com pelo menos 12 comunidades, sendo quatro com associações reconhecidas: Quilombo da Rampa, São Joaquim da Rampa, Pequi da Rampa e Caetano da Rampa. Em outubro de 2025, o Território Quilombola Rampa fez história ao se tornar o primeiro autotitulado de forma coletiva e independente.
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Veja o que já enviamosApós um espera de mais de 20 anos pela titulação nos órgãos oficiais, os moradores se reuniram e arrecadaram recursos para financiar o processo jurídico de regularização fundiária e destinação da posse do território para as quatro associações. “É uma titulação pioneira, pautada na reivindicação de que a área é nossa e queremos permanecer nela”, pontua Raimundo.
Como a posse legal já pertencia a diversos moradores da comunidade e não haviam pessoas externas a serem indenizadas, o processo já foi consolidado. Cerca de 286 famílias vivem no território que possui mais de 200 anos de história, com registro de ocupação desde 1818.
“Permanecemos ali vivendo, celebrando cada dia mais a nossa cultura, muito pautada na questão do tambor de crioula e nas festividades”, explica Raimundo. Criada nos quilombos do Maranhão no período da escravidão, o tambor de crioula é um patrimônio cultural brasileiro que combina dança, canto e percussão de tambores.
Entre as festividades citadas por Raimundo, uma das principais é a Festa de São Bartolomeu, celebrada em agosto e com duração de 10 dias. Nesse período, a comunidade comemora também o aniversário do território quilombola. Segundo o comunicador, esses momentos ajudam a preservar as tradições, como as rezas de pé de altar, passadas de geração em geração.


Rádio e TV Quilombo
“Não existia um espaço em que a gente pudesse mostrar nossa cultura, nossa realidade, a fartura do território, e também fazer denúncia das violações de direitos que as comunidades sofrem”. A percepção dessa lacuna foi o que motivou Raimundo e William Cardoso a começar a contar a própria história.
A partir de materiais improvisados, como uma câmera de papelão e um tripé de bambu, a Rádio e TV Quilombo nasceu em 2017. O objetivo da iniciativa é dar visibilidade para a cultura e para as demandas da comunidade, fazendo da tecnologia uma aliada da ancestralidade e uma forma de registrar e divulgar as tradições quilombolas.
Atualmente, cerca de 60 pessoas participam ativamente das atividades da rádio e TV, a primeira de um território quilombola brasileiro. “Desde a criança ao mais velho ancião, todos podem ser repórter, locutores ou dar um palpite. As pessoas têm essa liberdade para pautar as coisas que vão para a TV e a rádio”, destaca Raimundo.
Em 2018, o projeto foi premiado no 1° Festival de Cinema Móvel de Brasília na categoria “Mídia Alternativa” como melhor reportagem. Cinco anos mais tarde, em 2023, a iniciativa foi novamente reconhecida como um dos veículos de comunicação negra mais admirados do Brasil.
O rol de premiações da Rádio e TV Quilombo inclui ainda o Prêmio Direitos Humanos – Edição Luiz Gama & Esperança Garcia, na categoria “Produção Cultural em Direitos Humanos”, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, recebido em 2025.
Pela atuação no projeto, Raimundo já recebeu convites para viajar para fora do Brasil e conhecer países como Estados Unidos, Japão e Emirados Árabes Unidos. “Buscamos tirar essa visão de que as comunidades só têm dor, sofrimento e miséria. Mostrando nossa realidade em um processo de trocas, de saberes, sabores, de afeto e sobretudo de fartura”, pontua o comunicador.


Crise climática e pressões
A Rádio e TV Quilombo também auxilia nas denúncias e na luta da comunidade contra o racismo ambiental e a crise climática. Para os quilombolas, assim como para outras comunidades e povos tradicionais, o território não é apenas uma fonte de recursos, mas parte da cultura e do sagrado.
Raimundo menciona as pressões no entorno do território, principalmente, pelo avanço das monoculturas e da pulverização de agrotóxicos. “A quantidade de chuva, ela já começa a variar, e é algo muito perverso, porque com essas mudanças, os mais velhos não conseguem mais usar a sabedoria ancestral para o clima”, descreve o comunicador do Território Rampa.
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Nas comunidades são cultivadas diversas espécies de hortaliças, além de roças de arroz, mandioca, maxixe, quiabo, abóbora, entre outros alimentos que garantem a soberania alimentar. O calor extremo e o aumento das temperaturas, por exemplo, têm dificultado a manutenção de sementes crioulas.
“Tem sementes que foram perdidas pelo aumento da temperatura, porque são mais sensíveis. O solo não está como era antes e aquela planta que gosta mais de umidade, se a terra está seca, ela vai se perder com mais facilidade”. Para Raimundo, é preciso que outros setores prestem maior atenção ao modo equilibrado com que as comunidades tradicionais sempre agiram com a terra.
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Micael Olegário
Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.








































