Rotina da favela: “é alvo todo dia, é alvo toda hora”, diz Lúcia Cabral

A educadora e assistente social Lucia Cabral no Complexo do Alemão: "Quando você nega o CEP a um bairro, você está negando políticas públicas e acesso à existência" (Foto: Educap / Facebook)

Testemunho de moradora do Complexo do Alemão ajuda a ilustrar estudo sobre letalidade e racismo da Rede de Observatórios de Segurança

Por Edu Carvalho | ODS 10ODS 16
Publicada em 14 de julho de 2026 - 09:50  -  Atualizada em 14 de julho de 2026 - 09:53
Tempo de leitura: 7 min

A educadora e assistente social Lucia Cabral no Complexo do Alemão: "Quando você nega o CEP a um bairro, você está negando políticas públicas e acesso à existência" (Foto: Educap / Facebook)
A educadora e assistente social Lucia Cabral no Complexo do Alemão: “Quando você nega o CEP a um bairro, você está negando políticas públicas e acesso à existência” (Foto: Educap / Facebook)

Há mais de 40 anos morando no Alemão, Lucia Cabral aprendeu cedo a diferença entre viver numa favela e ser alvo dela. “A gente nunca deixou de ser alvo desde o nascimento do Brasil”, diz a assistente social e fundadora do Educap, o espaço de convivência que criou em 2007, no mesmo ano em que uma chacina matou cerca de 21 jovens no complexo. “É alvo 24 horas, é alvo todo dia, é alvo a toda hora.” A frase, quase que dita à queima-roupa, é também o nome do estudo que a Rede de Observatórios da Segurança lançou: o Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã, sétima edição de um levantamento que transforma em número aquilo que Tia Lucia sente na pele.

Matança oficial: agentes do estado foram responsáveis por 4 mil mortes em 2024

Os dados que remontam 2025 confirmam o relato: foram 4.330 vítimas da letalidade policial nos nove estados monitorados, alta de 6,4% em relação ao ano anterior, sendo 312 crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos. Entre as vítimas com raça ou cor identificada, 86,3% eram negras, e 64,8% tinham até 29 anos. Um perfil geracional, territorial e de gênero que se repete, edição após edição, sem que o Estado apresente um novo rumo da política de segurança.

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No Rio de Janeiro, onde Lúcia mora e trabalha, o retrato permanece duro. Em outubro de 2025, a Operação Contenção — realizada nos Complexos da Penha e do Alemão — deixou mais de 120 mortos, dos quais apenas quatro eram policiais; e os outros classificados pela autoridade estadual como “narcoterroristas”, linguagem que a pesquisa associa à normalização da violência extrema como política de Estado. No consolidado, o Rio somou 800 mortes por intervenção policial, aumento de 13,8%, acumulando 8.119 vítimas em sete anos de monitoramento. Pessoas negras foram 57,8% da população fluminense, mas 89,5% das vítimas. E os dados não cessam: a taxa de letalidade entre negros (6,3 por 100 mil habitantes) é seis vezes maior que entre brancos (1,1).

Para Lucia, esses números têm nome e têm rua. “Tem corpos de jovens que foram crianças um dia e receberam a sentença de morte”, diz, lembrando da megaoperação de outubro. “O Estado não ocupa a favela com educação, com saúde. E, quando ocupa, ocupa sucateado”. Ela cobra algo que parece simples e não é: o reconhecimento do Alemão como bairro, com CEP e políticas públicas próprias — hoje o território com mais de 100 mil pessoas, segundo cálculo de quando o Exército esteve na região, ainda depende de dados oficiais que ela considera subestimados. “Quando você nega o CEP a um bairro, você está negando políticas públicas e acesso à existência”, resume.

Estudo sobre letalidade e racismo da Rede de Observatórios de Segurança: cor da pele na favela significa ser alvo 24 horas por dia (Ilustração: Nobru Werneck / Rede de Observatórios da Segurança)
Estudo sobre letalidade e racismo da Rede de Observatórios de Segurança: cor da pele na favela significa ser alvo 24 horas por dia (Ilustração: Nobru Werneck / Rede de Observatórios da Segurança)

Para a pesquisadora Manuela Peclat, do Observatório de Redes da Segurança,  a percepção trazida não é exceção, é regra. “Existe um tipo de perfil predominante das vítimas” em todo o país, afirma, e a violência “possui padrões estruturais evidentes”, não se tratando de casos isolados. Segundo ela, expressões como “narcoterroristas” fazem parte de uma disputa narrativa que legitima determinadas políticas de segurança pública — o mesmo mecanismo que, na leitura de Tia Lucia, transforma jovens da favela em alvo antes mesmo de qualquer suspeita. 

Peclat aponta ainda a fragilidade dos mecanismos de controle institucional: mesmo em vigor a ADPF 635, que deveria limitar operações policiais em áreas conflagradas do Rio, ocorreu a Operação Contenção, tendo sido considerada, segundo os números, como a maior chacina da história do país.

O estudo, dentre leituras aferidas também em Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí e São Paulo, aponta que a dinâmica da letalidade policial tem se reconfigurado com a expansão e articulação de facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) em direção às regiões Norte e Nordeste, desencadeando respostas governamentais baseadas exclusivamente na lógica da militarização e do confronto. Como resultado, quatro estados registraram o maior número de mortes de suas séries históricas desde 2019: Ceará (200), Maranhão (142), Pará (632) e São Paulo (834).

Diante desse cenário, o estudo aponta quatro caminhos possíveis: profissionalização policial baseada em inteligência, transparência e padronização nacional dos dados, qualificação independente da investigação de homicídios e mecanismos permanentes de controle institucional. 

São medidas técnicas para um problema que, na experiência de Lucia Cabral, é também espiritual: “A gente vive pelo amor de Deus e de algumas pessoas que colaboram para que esse lugar exista”. Depois de quatro décadas de acolhimento no Alemão, ela segue acreditando que a resistência, mesmo sem verba e sem reconhecimento oficial, ainda é capaz de furar o cerco da bala. “Nada na vida, para mim, é impossível”, diz. “Eu estou aqui”.

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Edu Carvalho

Edu Carvalho é jornalista e apresentador, com passagens pela Globo, CNN e Revista Época. Ganhador do Prêmio Vladimir Herzog pelo #Colabora. É colunista no UOL Ecoa e no Maré de Notícias. Morador da Rocinha, cria do mundo

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