‘O mundo precisa conhecer Nina’: a história da Rainha de Boipeba

Foto colorida de Nina 100 Babado de costas. Ela é uma mulher trans negra, tem cabelo preto, longo ondulado. Ela usa um vestido laranja

Artista trans ganha destaque em ilha turística da Bahia e vira protagonista de curta independente

Por Micael Olegário | ODS 17
Publicada em 23 de abril de 2026 - 09:38  -  Atualizada em 23 de abril de 2026 - 10:01
Tempo de leitura: 6 min

Foto colorida de Nina 100 Babado de costas. Ela é uma mulher trans negra, tem cabelo preto, longo ondulado. Ela usa um vestido laranja
Curta mostra a realidade e a luta por respeito da artista trans da Ilha de Boipeba (Foto: Divulgação)

Nina 100 Babado, a Rainha de Boipeba. É esse o nome da artista trans que tem movimentado a Ilha de Boipeba, no sul da Bahia. A trajetória dela teve início há cerca de 4 anos e, desde então, as apresentações de Nina, 27 anos, têm atraído diversos turistas e visitantes na ilha – reconhecida pelas praias e pela beleza natural.

O espaço na Casinha Latina também serviu para Nina conquistar o respeito da comunidade e exercer seu ativismo. “Nas noites de quinta-feira, posso trazer um pouco da militância, sobre os nossos direitos de ser mulher, não apenas mulheres trans. Somos todas mulheres e lutamos pelos mesmos direito de sermos respeitadas”.

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Apesar de sempre ter sentido uma proximidade com o universo artístico, Nina pensava se tratar apenas de um interesse. A primeira vez em que ela subiu ao palco foi à convite da drag queen Barbárie Bundi, cantora e compositora em Salvador.

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“Sempre achava que mulheres trans não faziam drag, mas pelo contrário. Ela sempre me convidou e eu sempre dizia que não. Teve um certo dia que fui e, nossa, foi muito mágico”, conta Nina. 

A visibilidade como artista também tem contribuído para a luta constante de Nina contra o preconceito. Segundo ela, a transição de gênero foi um processo difícil, permeado por questionamentos e incompreensão, tanto dentro de casa quanto na comunidade.

“Eu precisava despertar de qualquer forma e, no dia que me levantei, meu amor, eu disse: ‘Não, agora ninguém vai, ninguém mais vai me desrespeitar’. E o primeiro passo foi começar a minha transição”, descreve a artista.

Foto colorida de Rafael Lorran ao lado de Nina
Rafael Lorran e Nina 100 Babado: curta surgiu de visita não planejada de Rafael à ilha de Boipeba (Foto: Divulgação)

Curta

Recentemente, Nina 100 Babado foi protagonista de um curta independente. A produção de Rafael Lorran mostra um pouco do cotidiano da artista na ilha de Boipeba, seu trabalho constante de conquista do respeito e trechos de suas apresentações na Casinha Latinha.

Natural de Belo Horizonte (MG), Rafael se mudou para Lisboa aos 13 anos e, atualmente, mora em Barcelona, na Espanha. A ideia para o curta nasceu depois de um imprevisto. Em novembro de 2025, Rafael veio para Salvador fazer uma gravação que acabou cancelada por conta do mau tempo.

Com o tempo livre, o publicitário e cineasta decidiu visitar a Ilha de Boipeba. Rafael conhecia Nina pelas redes sociais e, por acaso, a encontrou em um bar. Foi quando ouviu a história da artista e fez o convite para gravar o filme.

“Não é um curta documental da vida dela, é mais basicamente para celebrar o que ela conquistou na ilha”, explica Rafael. “Rainha de Boipeba: uma luta por respeito” tem cerca de 8 minutos e foi lançado oficialmente em fevereiro deste ano, em uma exibição na própria ilha de Boipeba.

Impacto além de Boipeba

Em março, o curta foi convidado para ser exibido no Barcelona Queer Film Festival. “Estou tentando receber isso com responsabilidade, porque é uma causa que envolve pessoas e uma luta diária. Mas também tô muito feliz. É uma surpresa, porque era um projeto sem investimento”, descreve Rafael.

A produção está disponível com legendas em inglês e espanhol e, segundo o cineasta, esse primeiro convite serve de incentivo para enviar o curta a outros festivais. Assim, outras pessoas passam a conhecer a potência de Nina 100 Babado.

“É gratificante demais. No começo da minha da minha trajetória, eu olhava para os quatro cantos e dizia ‘quero ser alguma coisa, quero ser eu e quero ser vista’. É muito gratificante levar essa resistência para outros lugares fora da ilha de Boipeba”, destaca Nina.

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), apontam que, em 2025, foram assassinadas 80 pessoas trans e travestis no Brasil. Apesar dos números indicarem uma redução de 34% em relação ao ano anterior, a entidade pontua o contexto de ausência de políticas públicas específicas de enfrentamento à transfobia no país.

Em meio a um crescimento da agenda antitrans, inclusive, com movimentos políticos articulados para atacar os direitos dessa população, a arte e o ativismo de Nina se tornam ainda mais necessários. Como ela mesma diz: “o mundo precisa conhecer Nina”.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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