32° Feicoop: economia solidária depende de respostas à crise climática

Foto colorida do palco da 32° Feicoop, durante cerimônia de abertura do evento. Na imagem, aparecem diversas pessoas da organização reunidas no palco. Evento discute impacto da crise climática na economia solidária

Maior feira de economia solidária da América Latina discute impactos das mudanças climáticas no meio urbano e rural

Por Micael Olegário | ODS 12
Publicada em 13 de julho de 2026 - 09:22  -  Atualizada em 13 de julho de 2026 - 09:51
Tempo de leitura: 8 min

Foto colorida do palco da 32° Feicoop, durante cerimônia de abertura do evento. Na imagem, aparecem diversas pessoas da organização reunidas no palco. Evento discute impacto da crise climática na economia solidária
Abertura da 32° Feicoop; evento discute mudanças climáticas e seus impactos na economia solidária (Foto: Felipe Ferreira / Prefeitura de Santa Maria)

(Santa Maria – RS) – Em meio aos corredores repletos de expositores e visitantes, a crise climática é assunto constante nas conversas e debates da 32° Feicoop (Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária). Da última sexta-feira (10/07) à domingo (12/07), a iniciativa colocou em evidência o impacto de extremos de calor, seca e chuva em setores como a agricultura familiar, o artesanato, as agroindústrias e os povos tradicionais.

“Não tínhamos chuvas muito intensas como agora. Isso prejudica as safras, elas estão diminuindo e não tem período exato de dar, por exemplo, as andirobas”, conta Katia Pantoja. Moradora da comunidade São José do Rio Maniva, em Afuá (PA), ela trabalha com a produção de cosméticos e óleos essenciais a partir de sementes de espécies nativas da Amazônia, como andiroba, pracaxi e açaí.

Katia enfrentou quase três dias de viagem de barco e avião para vir do norte da ilha de Marajó até Santa Maria (RS). Segundo ela, o esforço para estar na Feicoop é um meio não apenas para comercializar os produtos feitos na comunidade, como para transmitir uma mensagem em defesa do bioma amazônico e de suas riquezas.

Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.

Veja o que já enviamos

Considerada a maior feira de economia solidária da América Latina, a Feicoop é realizada no Centro de Referência Dom Ivo Lorscheiter, na área central da cidade de Santa Maria. O evento é organizado pelo Projeto Esperança/Cooesperança, em parceria com instituições públicas e organizações da sociedade civil.

José Carlos Peranconi, mais conhecido como Zeca, define a feira como um espaço para mostrar a possibilidade real de uma sociedade mais justa. “A economia solidária nos ensina que é possível produzir riquezas sem abrir mão da dignidade, da inclusão social e da preservação do meio ambiente”, disse o coordenador-geral da feira e presidente do Projeto Esperança/Cooesperança.

Foto colorida de Katia Pantoja. Ela é uma mulher branca, com cabelo preto com mechas loiras, liso. Ela sorri e segura potes de pomadas.
Katia viajou de comunidade na Ilha do Marajó para participar da Feicoop no RS (Foto: Micael Olegário)

Clima e economia solidária

“Temos visto dizerem que o Rio Grande do Sul se superou, que está produzindo e vendendo mais, mas a realidade dos nossos empreendimentos, em grande maioria, não é essa”. Na abertura da feira, a presidente do Conselho Estadual de Economia Solidária do RS, Maribel Kauffmann, descreveu a situação de muitas iniciativas após as enchentes de 2024 e cobrou respostas mais efetivas do poder público.

As inundações e as chuvas intensas que atingiram o RS há pouco mais de dois anos afetaram diretamente os agricultores que participam do feirão semanal da economia solidária em Santa Maria. A situação revela o paradoxo injusto da crise climática, uma vez que, as práticas adotadas pela agricultura familiar têm menos impacto ambiental que a agricultura convencional.

Agricultor e apicultor em Agudo, município da região central do RS, Jonas Neuenschwander perdeu a lavoura de arroz e quase todas as caixas de abelhas que possuía nas inundações de 2024. Atualmente, a feira do centro de economia solidária representa cerca de 80% da sua renda. 

“A agricultura familiar é duramente impactada pela mudança climática. Primeiro, porque ocupa áreas periféricas e de morro, que são mais propícias à erosão e à deslizamentos. E também pela questão do tamanho da área: são poucos hectares que eles cultivam, então quando perde, perde tudo”, explica Tatiana Balem, professora do Instituto Federal Farroupilha (IFFar) e integrante da comissão organizadora da Feicoop.

Agrônoma de formação, Tatiana trabalha com agroecologia e também é docente do curso de pós-graduação em Extensão Rural da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Ela comenta sobre a preocupação constante com possíveis novos eventos extremos, principalmente, diante das previsões em torno do retorno do fenômeno El Niño.

Leu essa? Vale do Taquari: refazer a vida em meio ao temor de novas enchentes

“Tem muita gente traumatizada e que não dorme de noite. Quase ninguém fala, mas existe o medo e receio de perder tudo de novo. Mas também a gente se acolhe”, pondera Tatiana, ao mencionar o trabalho feito pelas cozinhas solidárias no município, principalmente, durante situações de calamidade pública. 

Foto colorida de Cristina Santos. Ela é uma mulher negra, com cabelo cacheado preto e segura uma boneca de pano negra.
Cristina Santos é artesã em Niterói (RJ); economia solidária diminui impacto ambiental ao reutilizar e reciclar materiais (Foto: Micael Olegário)

Contexto urbano e respostas

Idealizadora do “Retalhos da Preta”, a artesã Cristina Santos viajou com um grupo de 80 participantes para participar pela sexta vez da Feicoop. Moradora de Niterói (RJ), ela coordena a Feira da Economia Solidária do Campo de São Bento e também sente os impactos da crise climática no setor.

“Às vezes diminuímos o horário de exposição, o pessoal está com gastronomia sofre, perde o produto. No artesanato, o Sol bate no tecido e acaba queimando, então estar no tempo realmente é complicado”, detalha Cristina. Nas cidades, quem trabalha com a economia solidária geralmente são pessoas que buscam a inclusão produtiva e vivem em áreas de periferia, ou seja, mais expostas ao clima extremo.

Ao mesmo tempo, tanto a agricultura familiar quanto a economia solidária praticada no contexto urbano oferecem alternativas para a resiliência e adaptação. “Os empreendimentos urbanos, por exemplo, trabalham muito com reutilização de materiais, com reciclagem e com a produção manual, muito menos poluente do que uma produção industrial”, enfatiza Tatiana Balem.

Cristina, por exemplo, utiliza tecidos de roupas que seriam descartadas para produzir bonecas inspiradas em personagens negras, em uma tentativa de promover representatividade. “Se você tiver esse olhar e investimento para a economia solidária, a gente pode fortalecer a economia do município, do estado e a economia do Brasil”, aponta a artesã.

Foto colorida que mostra um pavilhão da Feicoop com vários expositores
Feira promove economia solidária e reúne caravanas de diversas regiões do Brasil e de países vizinhos (Foto: Micael Olegário)

Sobre a 32° Feicoop

Ao todo, 556 expositores de diversas regiões do Brasil e de países vizinhos participaram da 32° edição da Feicoop. A organização afirma ter recebido cerca de 100 mil visitantes ao longo dos três dias de feira. Nesta edição, o tema foi “Construindo a ecologia integral frente às emergências climáticas”.

Além da comercialização e troca de experiências, a programação contou com seminários, oficinas e rodas de conversa. Em conjunto com as mudanças climáticas, o encontro abordou temas como agroecologia, cultura popular, saúde mental, soberania alimentar e políticas públicas.

Realizada desde 1997, a feira foi idealizada pelo bispo dom Ivo Lorscheiter, responsável por estimular a economia solidária em Santa Maria e na região. A edição de 2026 contou com homenagens ao frei Sérgio Antônio Görgen e ao músico e compositor Zé Martins, ambos falecidos neste ano.

Apoie o #Colabora.

Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

Newsletter do #Colabora

A ansiedade climática e a busca por informação te fizeram chegar até aqui? Receba nossa newsletter e siga por dentro de tudo sobre sustentabilidade e direitos humanos. É de graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *