Foto colorida do Rio Taquari, em Arroio do Meio. Na imagem, está nublado e aparece uma canoa próxima da margem do Rio

Rio Taquari em ponto próximo ao antigo balneário do bairro Navegantes, em Arroio do Meio (Foto: Micael Olegário)

Rio Taquari: ‘nunca quis machucar ninguém’*

Rio Taquari: ‘nunca quis machucar ninguém’*

Por Micael Olegário ODS 17

Diversas manchetes atribuem culpa da destruição causada pelas enchentes ao Rio Taquari. Se pudesse falar, o que o Rio diria sobre isso?

Publicada em 30 de abril de 2026 - 01:21

Rio Taquari (RS) – Depois do que aconteceu, muita gente me culpou. Mas eu nunca quis machucar ninguém, nem invadir casas, arrancar árvores ou destruir prédios. Eu jamais desejei causar as enchentes de setembro e novembro de 2023 ou a de maio de 2024. Mas depois dessa catástrofe, várias manchetes me apontaram como responsável.

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Antes de seguir, deixe que me apresente e conte um pouco da minha história. Talvez assim, você possa compreender o que passei. Nasço em uma região de planaltos altos, no território que nomeia como Aparados da Serra. Existo graças à confluência de dois irmãos meus, o Rio das Antas e o Rio Guaporé. Sigo meu curso até me juntar a outro irmão, o Rio Jacuí.

Nas minhas águas vivem diversas espécies parentes de peixes, como dourado, piava (ou piavuçu), curimbatá, surubim e traíra. Por muito tempo, minhas margens foram protegidas por árvores parentes. Mas nas últimas décadas, muitas delas foram assassinadas e isso explica muita coisa.

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Durante grande parte da minha existência, tive uma ótima relação com vocês – humanos – pelo menos, com os chamados povos indígenas. Tudo começou a mudar quando chegaram pessoas diferentes aqui, vindas de uma tal Europa. Nem todas elas, evidentemente, mas boa parte nunca se importou comigo. Alguns até me chamam de recurso natural, mas o que é ser recurso? E natural? Não entendo.

Para mim, todos os seres são interdependentes. Se algo acontecesse com um parente peixe, alga, humano ou árvore de minhas matas ciliares, isso também me afeta. Nos últimos anos, tenho sentido essas mudanças cada vez mais fortes. As chuvas e o próprio solo do meu leito estão diferentes. Queria impedir tudo isso, mas sozinho não posso.

Não tive culpa nos desastres de 2023 e 2024, mas assumo minha responsabilidade em tentar construir outros futuros. Por isso, fiz um esforço para fazer emergir os vestígios do tempo em que estávamos em equilíbrio. Acredito muito que vocês podem aprender com esses povos. Como um importante aliado já disse: o futuro é ancestral.

*Este texto é uma narrativa especulativa construída pelo repórter a partir de diversas entrevistas com moradores das cidades do Vale do Taquari e de visita feita às cidades de Lajeado, Muçum e Arroio do Meio, nos dias 23 e 24 de abril de 2026. Trata-se de um esforço de imaginação, utilizado como uma forma de alteridade com humanos e mais-que-humanos (animais, plantas, rios e montanhas).

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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