ODS 1
Turismo instagramável: do cenário de cartão postal ao descaso ambiental


Impulsionado pelas redes sociais, turismo de massa provoca impactos negativos nos ambientes naturais do Rio de Janeiro


A trilha do Pico da Caledônia, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, está com o seu trajeto marcado por buracos, alguns trechos exalam um forte cheiro de urina, mas a fila de aproximadamente 2h para tirar a famosa foto entre as nuvens continua lá. Com 2.200 metros de altitude, o lugar tem atraído milhares de turistas nos últimos anos em busca da imagem perfeita. É uma das trilhas onde Francisco Nunes, guia turístico carioca, nota danos frequentes à fauna e à flora pelo excesso de visitantes: “Tá sendo muito procurada agora para ver o nascer do sol, exatamente pela divulgação nas redes sociais, mas não tem só essa”, relata Francisco a respeito do aumento da procura por trilhas.


As trends virais das redes impulsionam a procura diária por praias e trilhas no Rio de Janeiro. O Parque Estadual dos Três Picos, onde fica o Pico da Caledônia, lida diretamente com os efeitos do turismo excessivo. Já as trilhas localizadas no Parque Nacional da Tijuca, por não estarem tão expostas ao cenário digital, são mais preservadas. Embora ambos os parques tenham políticas de preservação do ecossistema, um encontra-se mais vulnerável aos danos naturais.
Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosA estética “Brasil”, “Rio de Janeiro”, “natureza” e “carnaval” tornou-se um fenômeno no TikTok. A trend de 2024 atraiu centenas de influenciadores de diversos países em busca da “vibe carioca”. A hashtag “Brazil” já soma mais de 8 milhões de publicações e as buscas globais por conteúdo brasileiro registram um aumento de 80% em comparação a 2023, segundo a CNN.
Leu essa? Programa Hortas Cariocas cria um ambiente sustentável em escolas do Rio
O impacto cultural promovido pelo TikTok está diretamente ligado ao trabalho dos algoritmos, que impulsionam conteúdos de interesse comum entre os usuários. A tendência da “vibe carioca” passou a ditar o estilo de vida de turistas no país com a padronização de roupas, acessórios, destinos e até meios de transporte. Segundo o portal Gov.br, no ano de 2024, o país teve uma alta de 46,6% de visitantes entre os meses de janeiro e agosto em relação ao mesmo período no ano anterior. O aumento das publicações coincide com a alta de turistas e de gastos no Brasil, alcançando aproximadamente US$ 7 bilhões, maior valor em 15 anos, de acordo com os dados do Banco Central.
-






Estética brasileira no TikTok estrangeiro. Foto: Anna Malygon (TikTok); Andrea Pettersen (TikTok); Clakovi (TikTok), respectivamente
A turismóloga e professora do Senac Fernanda Gomes observou, em pesquisa para sua tese de doutorado, pela Universidade Federal Fluminense, o aumento da procura pelo passeio à Ilha da Gigóia, na Barra da Tijuca, uma vez que a localidade viralizou. No entanto, a velocidade com que esses destinos ganham popularidade não acompanha a capacidade de resposta da infraestrutura local. O poder público, que deveria regulamentar a capacidade em respeito a carga do ambiente, não tem se mostrado eficaz na preservação ambiental. Fernanda alerta para a situação atual da Pedra do Telégrafo, famoso cartão-postal carioca, que reflete a ausência do poder do Estado na organização de visitantes e na conservação do meio ambiente.
Levantamento do Ministério do Turismo revelou que o Brasil atraiu US$ 81 milhões em investimentos estrangeiros apenas no primeiro semestre de 2025 e US$ 360 milhões em 2024, de acordo com a Embratur. Esse crescimento sinaliza maior valorização do setor e reforça o potencial do país em impulsionar a preservação e revitalização de patrimônios históricos, culturais e naturais. Apesar do cenário promissor, a infraestrutura brasileira continua marcada pela sobrecarga e pela falta de manutenção adequada. A pressão do turismo de massa, somada à “espetacularização” de manifestações culturais e naturais nas redes sociais, evidencia que o avanço econômico não tem agido de forma benéfica na gestão e conservação dos espaços. Mesmo com iniciativas de incentivo ao turismo sustentável, os mecanismos de fiscalização e cuidado ainda são insuficientes para conter os impactos do excesso de visitantes.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei, no dia 28 de julho, que institui a Política Nacional de Incentivo à Visitação a Unidades de Conservação, uma medida que busca estimular o turismo sustentável em áreas naturais protegidas, garantindo que por meio dela os parques mantenham sua função de preservação. A Organização Mundial do Turismo (OMT) também defende o fortalecimento de práticas ecológicas, mas alerta que a ausência de controle efetivo pode transformar a visitação em uma atividade exploratória. O desafio está em conciliar o fluxo crescente de turistas com políticas que assegurem equilíbrio ambiental e urbano.
Para a OMT as consequências mais evidentes da atividade turística excessiva são as que afetam o meio ambiente, como: poluição do ar e da água, tanto como a sonora e visual, tráfego massivo de pedestres, o lixo deixado por turistas, desequilíbrio ecológico, perturbação da vida selvagem e riscos ambientais como erosão e deslizamento de terra. A sobrecarga gerada pelo overtourism compromete a infraestrutura de áreas naturais e, como consequência, atinge as próprias áreas turísticas.
Pequenas ações, grandes impactos
Francisco, que trabalha na agência de ecoturismo Mãe Natureza desde 2016, relata os principais impactos que observa em seu cotidiano. Em trilhas de montanhas, mirantes, picos e, principalmente, cachoeiras tornou-se comum ver visitantes com caixas de som, provocando poluição sonora. De acordo com o site 123 Ecos, esse tipo de ruído afeta o comportamento dos animais, impactando desde a migração até a reprodução e sobrevivência.
Em entrevista com Glória Molina, turista argentina, a dinâmica do turismo brasileiro revelou-se incomum. Ao falar sobre as trilhas, ela cita a árvore de 100 anos, um atrativo da Floresta da Tijuca, em que suas raízes expostas, desprotegidas, viram palco para os turistas posarem com a planta. Embora o lixo na floresta não tenha chamado sua atenção, Glória se preocupa com a situação das praias cariocas: “Por mais que tenha muitas lixeiras, na areia ainda tem muito lixo (…) Não vejo tanto no meu país, mas aqui tem muito mais gente”.
De acordo com a ONU, a ameaça do plástico é a segunda maior que põe em risco o ambiente e o Brasil ocupa a 8ª colocação entre os países que mais descartam plástico no planeta, alcançando a média de 1,3 milhão de toneladas por ano. “Fico surpreendida, mas também horrorizada com a quantidade de plástico que vocês usam aqui. É plástico dentro de outro plástico, dentro de uma sacola de plástico…”. A fala de Glória remete a um problema abordado com Gabriel Martins, fundador do projeto universitário Praia Viva, que atua na preservação do ecossistema marinho. “Encontramos uma garrafa de produto de limpeza na praia. Quando abrimos, tinha um siri lá dentro. Ele provavelmente entrou pequeno, cresceu e não conseguiu mais sair”. Gabriel fala sobre o perigo do descarte impróprio de plástico, seja micro ou macro, na morte de animais aquáticos, no transporte de espécies invasoras (rafting) e na troca de calor da areia, afetando a flora e a fauna costeira.


Fonte: Gabriel Martins – Projeto Praia Viva O projeto realiza mutirões de limpeza ocasionalmente em praias da região. Segundo dados revelados por Gabriel, em dois anos de atividade, mais de 250 kg de lixo foram recolhidos. O problema se intensifica no Verão, quando o turismo de praia atinge seu pico. O aumento do número de viajantes no território fluminense eleva, de forma desproporcional, a concentração de resíduos, especialmente plástico, nas areias do Rio de Janeiro.
Pequenas ações, grandes mudanças
Os relatos anteriores expõem o cenário de urgência que a preservação natural enfrenta no contemporâneo. Nesse contexto, o projeto Praia Viva assume o papel de agente de resistência. A coleta regular de resíduos já salvou a vida de diversos animais, além de promover a conscientização a respeito da vida marinha e dos impactos ambientais gerados pelo descarte indevido de lixo.
O desenvolvimento do projeto ambiental Ecoboat foi um divisor de águas na luta pela preservação. A construção de embarcações verdes, que promovem limpeza e conscientização, já retiram aproximadamente 40.000 toneladas de lixo desde sua criação, em 2012. O sistema de remoção de resíduos atua por meio do mapeamento de águas, da identificação e retirada de materiais flutuantes e o encaminhamento para tratamento final. A ação do Projeto Ecoboat Ambiental recebe apoio de instituições públicas e privadas como a Fundação Projeto Tamar, a Marinha do Brasil, o Ministério do Meio Ambiente e diversas prefeituras estaduais, entre outros parceiros que possibilitaram sua expansão à nível nacional.


Resíduos retirados de uma toca de Maria Farinha. Foto: Praia Viva (ig) A Floresta da Tijuca, integrada ao Parque Nacional da Tijuca, é um dos principais espaços de preservação do país. O parque abriga a maior floresta urbana do mundo, contendo 3.972 hectares. As regras quanto aos cuidados com a mata e os animais são rigorosas, com entrada limitada de veículos, sinalização educativa, presença constante de guardas-ambientais e gestão do Instituto Chico Mendes (ICMBio) que promove programas de conhecimento e educação ambiental ao público visitante.
O Instituto trata de assuntos ligados à preservação, revitalização e acessibilidade. A procura em manter o equilíbrio entre sustentabilidade e turismo permite que a grande demanda dos pontos de visita seja trabalhada de forma educativa e menos danosa. Entretanto, a falta de recursos e de investimento contínuo impede que o órgão atue de forma mais proativa, deixando lacunas na fiscalização e no manejo dos parques, como foi apontado por Glória, ao abordar a árvore dos 100 anos. Com um aporte adequado, o instituto poderia ampliar sua presença e adotar estratégias mais eficazes para enfrentar os efeitos do turismo de massa.


Cartaz de conscientização do Parque da Tijuca pelo ICMBio. Foto: Isabella Ficagna A popularização de destinos naturais pelas redes revela o cenário ambíguo do turismo atual que aproveita a grande movimentação na área e que luta pelos cuidados com o meio ambiente. Organizações sociais como o Praia Viva e projetos institucionais como o Projeto Ecoboat Ambiental e o ICMBio revelam-se fundamentais para combater o cenário de degradação natural, mas ainda insuficientes para acompanhar a velocidade dos destinos virais. Tendo em vista a quantia de capital estrangeiro que foi direcionada ao setor no valor de milhões de dólares no último ano, é possível que o investimento em campanhas de conscientização, o controle de visitação e a gestão desses espaços se torne mais ativa, possibilitando que as paisagens que atraem milhares de turistas permaneçam para as futuras gerações.
(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.
Apoie o #Colabora.
Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.
Últimas do #Colabora
Relacionadas
Isabella Ficagna
Isabella Ficagna é jornalista em formação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seus interesses englobam pautas culturais, ambientais, sociais e políticas, nacionais e internacionais. Acredita que a arte de escrever pode mudar realidades e dar potência às vozes silenciadas.






































