ODS 1
El Niño já começa a afetar clima e projeções indicam que pode ser o mais forte da história


Ciclones tropicais estão surgindo em profusão no Pacífico e temperaturas nos EUA e na Europa apresentam um comportamento caótico e atípico


Cientistas vêm alertando que é quase certo que a tendência de aquecimento do planeta – impulsionada pela atividade humana, sempre importante lembrar – atingirá níveis recordes em 2027, e talvez até mesmo neste ano, com um fenômeno de El Niño em formação prestes a liberar uma enorme quantidade de calor oceânico para a atmosfera. Novos resultados obtidos este mês a partir de uma série dos principais modelos climáticos globais reforçaram a previsão de um El Niño potencialmente avassalador, capaz de quebrar todos os recordes anteriores, com pico provável no final do ano.
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Em artigo detalhado no The Climate Brink, o cientista climático Zeke Hausfather descreve um cenário alarmante: os modelos climáticos mais avançados apontam para condições verdadeiramente inéditas, com o El Niño se desenvolvendo ainda mais rapidamente do que indicavam as previsões — já impressionantes — de múltiplos modelos. “Com base nas simulações de julho provenientes de 667 membros de conjuntos (*ensemble*) em 14 modelos diferentes de previsão sazonal, tudo indica que o El Niño deste ano não apenas tem grande probabilidade de ser o mais intenso desde o início dos registros confiáveis, como também pode acabar sendo o mais forte por uma margem surpreendente”, alerta Hausfather.
O El Niño — um aquecimento periódico das águas do Pacífico tropical oriental — é o principal fator determinante da temperatura global e do clima regional em escalas de tempo que variam de alguns meses a mais de um ano. O calor armazenado no oceano durante o fenômeno oposto, o La Niña, é liberado a partir do Pacífico tropical oriental durante o El Niño. O resultado é uma elevação acentuada da temperatura global, além de repercussões climáticas que tipicamente incluem secas na Indonésia e em partes da América do Sul e da África, invernos chuvosos no sul dos EUA e uma mudança na atividade de tempestades tropicais: menos furacões no Atlântico e mais furacões e tufões no Pacífico Norte – uma tendência que já está em curso, afirmam os cientistas.
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Veja o que já enviamosHá meses, os modelos climáticos vêm prevendo a ocorrência de um super El Niño para o período de 2026-2027. O aspecto surpreendente, de acordo Hausfather, é que os modelos estão convergindo para um consenso, mesmo enquanto suas previsões apontam para uma intensidade recorde. A análise feita pelo climatologista de todos os eventos de El Niño registrados em dados confiáveis desde 1877, avaliados em relação à climatologia oceânica de sua épocas, aponta que a previsão de consenso para 2026-27 indica que o El Niño atingirá seu pico com temperaturas cerca de 3,6 graus Celsius acima da média, ao combinar todos os modelos climáticos.
Esse valor fica quase 1°C acima do recorde anterior dos últimos 149 anos — uma margem enorme para uma gama tão ampla de modelos, destaca Hausfather. “Os modelos estão prevendo algo que foge a tudo o que já observamos”, reforça o cientista climático.
Os climatologistas vem alertando também que qualquer evento de El Niño ocorre agora em um contexto de oceano e atmosfera cada vez mais quentes. Estudos recentes sugerem que esse cenário de maior aquecimento pode influenciar a intensidade e até mesmo a localização dos efeitos sazonais desencadeados pelo El Niño.
Com base nessas avaliações, a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) substituiu seu Índice Oceânico do Niño (ONI) original pelo Índice Oceânico do Niño Relativo (RONI), que ajusta a intensidade de cada evento com base na temperatura média da superfície do mar nas regiões tropicais globais, alterando a classificação de vários eventos de El Niño.
Ao utilizar esse critério atualizado, o cientista climático Zeke Hausfather mostra que o fenômeno de 2026-27 tem grandes chances de ser inédito, com uma probabilidade de cerca de 77% de se tornar o El Niño mais forte já registrado. Hausfather observa que o atual El Niño surgiu a uma velocidade recorde. “Os sistemas de previsão sazonal têm capacidade real e comprovada para esse horizonte de tempo em eventos comuns, mas nenhum conjunto de modelos jamais previu (e depois confirmou) um El Niño de 3,6°C, simplesmente porque um evento dessa magnitude nunca ocorreu”, destacou, lembrando que “o oceano observado já se encontra em águas desconhecidas”.
Dados de temperatura da superfície do mar indicam que as condições no Pacífico já são de um Super El Niño. Segundo as medições da NOAA, a anomalia de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Centro-Leste, chegou à marca de +2,0º C, valor mínimo usado para classificar um El Niño como muito forte. Os cientistas da NOAA destacam que a dado surpreende não apenas pela força, mas por ocorrer muito antes do que seria esperado: da última vez que esse patamar foi atingido, em 2023, isso ocorreu em novembro.
Para os cientistas, são evidentes as digitais do El Niño nos ciclones tropicais deste ano ao norte do Equador. A temporada no Atlântico registra seu início mais lento desde 2009: até 13 de julho, havia ocorrido apenas a fraca e breve tempestade tropical Arthur. Paralelamente, os serviços de meteorologia monitorava quatro sistemas no Pacífico oriental e central, incluindo três com probabilidade superior a 50% de evoluírem, no mínimo, para tempestades tropicais até sexta-feira, 17 de julho.
O Sul e o Sudeste Asiático estão entre as regiões mais populosas onde o El Niño exerce efeitos profundos e esses efeitos já estão sendo sentidos. No fim de semana, mais de 2 milhões de pessoas foram evacuadas na China e em Taiwan após a passagem do supertufão Bavi que causou deslizamentos de terra e inundações, isolando comunidades. Em todo o leste chinês, mais de 1,2 mil voos foram cancelados, e diversas cidades suspenderam as aulas e o transporte público. Antes de atingir a China, o tufão deixou pelo menos 17 mortos nas Filipinas e causou danos nas ilhas de Guam e Marianas do Norte.
Estados Unidos e Europa já enfrentam uma sequência atípica de ondas de calor. O Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos prevê que mais de 90 recordes de temperatura serão igualados ou quebrados no país nesta semana, e a maioria deles serão de calor noturno. Essa onda de calor atinge boa parte dos EUA e deverá se estender pelos próximos dias, contribuindo para a propagação de incêndios florestais no oeste do país e também no Canadá. Na Europa, após três ondas de calor consecutivas, França e Inglaterra enfrentam incêndios florestais, que também já destruíram áreas de mata na Espanha, Itália e Grécia.
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Oscar Valporto
Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade








































