Protesto à luz de velas em Macapá durante o apagão: blecaute de 22 dias no Amapá em 2020 expôs falhas do sistema elétrico e ainda hoje traumatiza a população (Rudja Santos / Amazônia Real - 06/11/2020)

Protesto à luz de velas em Macapá durante o apagão: blecaute de 22 dias no Amapá em 2020 expôs falhas do sistema elétrico e ainda hoje traumatiza a população (Rudja Santos / Amazônia Real - 06/11/2020)

Amapá entre o apagão e o apagamento

Amapá entre o apagão e o apagamento

Por Clarice Candido ODS 10ODS 7

Blecaute de 22 dias no estado em 2020 expôs falhas do sistema elétrico e, mais de cinco anos depois, ainda traumatiza a população

Publicada em 16 de junho de 2026 - 01:45

No dia 3 de novembro de 2020, em meio à pandemia de covid-19, todas as luzes do Amapá foram apagadas. Eram aproximadamente 21h quando a trajetória dos amapaenses foi mudada. Dali em diante, eles enfrentariam um dos mais longos blecautes já vistos no Brasil, o que deixou quase 800 mil pessoas às escuras. Os primeiros dias foram os piores: sem acesso a luz, água e comunicação, a população não entendia o que estava acontecendo. Quando a energia voltaria?

O que eles não sabiam até então era que, segundo a investigação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) só concluída mais de um mês depois, houve um curto-circuito em um transformador na Subestação Macapá II, na zona norte da capital, seguido de uma explosão e um incêndio. Sem o funcionamento dela, houve uma interrupção generalizada, desconectando o estado das linhas de transmissão que o ligam ao Sistema Interligado Nacional (SIN). O apagão deixaria os amapaenses no escuro por 22 dias, sendo os três primeiros um blecaute total e os outros num esquema de racionamento de energia. O que poderia ser apenas um acidente técnico se transformou em algo muito maior: uma grande crise social, econômica e sanitária sem precedentes que atingiu 13 dos 16 municípios do estado e revelou o quanto a população do Amapá vive à margem das prioridades nacionais.

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O blecaute tomou proporções muito além da falta de luz, afetando diversas esferas. Na saúde pública, profissionais se desdobravam para cuidar de pacientes e mantê-los vivos num contexto pandêmico; nas casas, famílias perdiam alimentos, lidavam com prejuízos e conviviam com a falta de segurança; nas ruas, o comércio parou, deixando pequenos empresários com dificuldades. O episódio trouxe um apagamento tanto literal quanto simbólico, com o silêncio de autoridades, a ausência no debate público em escala nacional e a pouca visibilidade jornalística. No meio da pandemia, enquanto o país acompanhava as tensões políticas e as estatísticas de contágio, um estado inteiro foi deixado às escuras.

Mais de cinco anos depois, o blecaute de 2020 ainda serve como exemplo para expor o que há muito tempo vinha sendo ignorado: as desigualdades regionais e o descaso histórico com as populações da Amazônia. Mais de cinco anos depois, os moradores do Amapá ainda sofrem com a insegurança energética, com as dificuldades no fornecimento de energia, com as altas tarifas da conta da luz e com o medo de um novo apagão.

Os dias foram passando e a energia não voltava. Como não havia luz, também não era possível sacar dinheiro. Teve uma corrida enorme aos postos de gasolina e logo ficou difícil conseguir até o básico: gelo, água, qualquer coisa que ajudasse a suportar aquele caos

Andrew Costa
Professor da Unifap

Mais de cinco anos depois, aqueles dias de novembro estão acesos na memória dos amapaenses. “Eu estava na casa da minha namorada, e a gente tinha acabado de pedir uma janta. Estava com ela e com a minha sobrinha, que na época tinha três anos. Quando a luz apagou, não estranhamos tanto porque aqui isso é muito recorrente. Estava uma tempestade surreal, com muito raio e vento. Pensamos: ‘vamos esperar voltar’. Passou uma hora, duas e nada”, conta a designer gráfica Dayanne Farias.

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A sensação de expectativa e insegurança também foi vivida pelo guia turístico Antonio Carlos, que relembra como tudo começou. “Eu estava em casa na hora em que deu o ‘pipoco’. Eu moro num residencial lá perto de onde estourou a barragem. Tinha começado uma chuva e, do nada, ouvimos um ‘bum’. Corri para a janela pensando que era um transformador, uma batida de carro forte, algo assim. Eu só via o clarão, a coluna de fogo levantando. Todo mundo olhava pela janela, o pessoal corria para a rua porque foi um estrondo muito feio”, afirma o guia.

De acordo com Dayanne, as primeiras horas da tragédia foram as mais confusas, já que a população não tinha certeza do que estava acontecendo ao redor do estado. A confirmação veio, dias depois, da explosão na Subestação de Macapá. “A gente foi descobrindo que faltou luz na cidade toda, mas, no momento que aconteceu, foi realmente bem tenso”, relembra. “Os três primeiros dias foram cenas de apocalipse. As pessoas realmente achavam que o mundo ia acabar. A gente estava no meio de uma pandemia e na época não tínhamos nem um vislumbre de uma vacina”, acrescenta a designer.

A designer Dayanne Farias relembra os dias de caos durante o apagão: "as pessoas realmente achavam que o mundo ia acabar" (Foto: Ricardo Beda)
A designer Dayanne Farias relembra os dias de caos durante o apagão: “as pessoas realmente achavam que o mundo ia acabar” (Foto: Ricardo Beda)

Para o professor Andrew Costa, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), a situação foi um exemplo claro de uma crise humanitária aguda. “Os dias foram passando e a energia não voltava. As pessoas começaram a ver a comida estragando nas bandejas, sem poder fazer nada. Como não havia luz, também não era possível sacar dinheiro. Teve uma corrida enorme aos postos de gasolina e logo ficou difícil conseguir até o básico: gelo, água, qualquer coisa que ajudasse a suportar aquele caos”.

Após os primeiros dias de blecaute total, o governo do Amapá instaurou uma política de racionamento de energia de seis em seis horas e um rodízio entre localidades para que a população tivesse acesso à luz em alguns momentos do dia. “Infelizmente, aqui [no bairro de Santana], a energia ficava duas horas funcionando e depois ia embora, daí ia para outro bairro. Ficou funcionando assim: pulando de cidade a cidade, bem pingado. Isso até restabelecer completamente. Foi muito triste. Nessas idas e vindas, muitos alimentos foram perdidos, aparelhos também. Eu perdi dois ventiladores, uma televisão. Estragaram também seis bandejas de frango e 4 kg de carne no congelador. A pessoa queria conservar uma comida, mas não tinha como, tinha que salgar”, lembra Antonio.

“Foi um processo todo muito humilhante. Por ter acontecido no começo do mês, acabamos perdendo compras de mês porque as coisas foram se estragando. As pessoas estavam perdendo familiares e todos tiveram que se deparar com uma realidade em que precisávamos limitar nosso uso de água, diminuir nossa alimentação, com pouco acesso à internet. Não tínhamos nada”, lamenta o estudante Walinson Bezerra, da Unifap. Ele conta que muitos dos amigos próximos da faculdade saíram de suas cidades natais para estudar na capital. Muitos perderam o contato com familiares devido ao episódio. “Era uma situação de muita aflição e ansiedade. Teve um impacto extremamente negativo”.

Amapá às escuras e sob forte calor: 22 dias de medo e incerteza (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 07/11/2020)
Amapá às escuras e sob forte calor: 22 dias de medo e incerteza (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real – 07/11/2020)

Calor intensificado pela crise climática

O colapso no fornecimento energético prejudicou os amapaenses em vários aspectos do cotidiano. Afinal, sem luz não é possível ter acesso à comunicação, à água e a serviços básicos. O Amapá, em especial, é cortado pela Linha do Equador e cercado pela floresta amazônica, o que confere ao estado um clima marcado por duas estações distintas: períodos chuvosos, de janeiro a julho, e de estiagem, de agosto a dezembro. Segundo o Instituto de Desenvolvimento Social e Urbano (Inorte), sediado em Macapá, a umidade e as temperaturas são elevadas durante todo o ano no estado, com médias que variam entre os 24º C e 32º C. Nos períodos de estiagem, as temperaturas podem passar dos 35º C, com altas sensações térmicas.

Para a cientista política Mónica Banegas, especialista em Justiça Energética do Instituto Pólis, torna-se mais do que nunca necessário pensar em políticas que visem a adaptação para o “novo normal climático”, para dar alívio térmico aos cidadãos. “No Amapá, é um calor diferente. A gente se pergunta como as pessoas conseguem viver assim todos os dias. Quando chove, chove muito, e essa chuva intensa foi até um dos fatores que levaram ao incêndio na subestação, por causa de um curto-circuito. Tudo isso também se relaciona com as mudanças climáticas, já que os eventos extremos estão mais frequentes”, explica.

Os desafios para combater a pobreza energética e garantir justiça no setor elétrico são grandes em todo o Brasil, e ainda maiores na Amazônia, onde os custos logísticos são altos, a infraestrutura é mais precária e a vulnerabilidade socioeconômica é mais profunda

Leonardo Frazão
Economista e especialista em energia da consultoria PSR

A energia permite que as pessoas vivam com dignidade por garantir condições mínimas de conforto, segurança e saúde, especialmente em um país marcado por desigualdades regionais e climáticas. “Muitas famílias vivem em comunidades onde dividem um freezer ou compartilham equipamentos básicos para aliviar o calor. É preciso ter sensibilidade para compreender que o acesso à energia não é um luxo, mas se tornou uma necessidade para a própria sobrevivência. O poder público e as empresas do setor precisam pensar nas mudanças climáticas de forma transversal, criando soluções que realmente atendam às necessidades dessas populações, que já estão na linha de frente dos impactos e lutam para se adaptar”, analisa a especialista.

​Mas, sem eletricidade, a impossibilidade de usar ventiladores ou ar-condicionado se tornou muito grave para a saúde dos amapaenses durante o blecaute. Nos 22 dias sem energia, a temperatura passou várias vezes dos 30 graus, com sensação térmico perto dos 40º C. “Para conseguir aguentar o calor, as pessoas pegavam papelão e colocavam no chão para as crianças conseguirem dormir. Elas ficavam fora das casas e dos apartamentos, pegavam um vento e tentavam tirar um cochilo. Mas, quando acordavam, já estavam banhadas de suor devido ao calor daqui”, relembra o guia turístico Antonio.

Para Leonardo Frazão, especialista da consultoria do setor de energia PSR, a tendência é que temporais e altos índices de calor se tornem cada vez mais comuns para a população brasileira como um todo. Mas, para os amapaenses, que já encaram bastante calor e dias chuvosos pela maior parte do ano, a situação tende a se agravar. “O mundo está aquecendo e, como consequência, os eventos extremos têm se intensificado. No ano passado, ultrapassamos globalmente a marca de 1,5° C acima dos níveis pré-industriais”, afirma.

“Com eventos assim mais frequentes, faltará luz mais vezes e por mais tempo, porque são mais graves”, analisa o especialista. Segundo Frazão, uma grande preocupação é também o aumento das sensações térmicas: para quem mora em lares mal ventilados e construídos com materiais pouco isolantes – madeira, amianto, zinco, tijolos sem reboco – essa desigualdade se intensifica.

Depois do apagão, todo mundo criou um grande trauma. Hoje tenho vários amigos que, quando uma chuva forte cai, ficam com medo. A gente não fica calmo

Dayanne Farias
Designer em Macapá

Moradores de áreas ribeirinhas são grandes afetados, já que suas casas, muitas vezes erguidas sobre palafitas e sem isolamento térmico adequado, acumulam o calor durante o dia e o retêm à noite. O interior das moradias pode ser vários graus mais quente do que a temperatura ambiente, tornando o calor quase insuportável e aumentando o risco de desidratação, intermação e outras complicações para a saúde.

​“Quem vive em bairros sem arborização, com temperaturas cada vez mais altas, precisa desses aparelhos [ar-condicionado e ventilador] para manter o mínimo de bem-estar. Mas, para muitos, isso ainda é tratado como um luxo”, completa Banegas.

Para Frazão, o blecaute de 2020 escancarou que a energia não é apenas um insumo técnico, mas um direito que habilita todos os outros: sem luz, falta água, saúde, renda, educação e segurança. “Os desafios para combater a pobreza energética e garantir justiça no setor elétrico são grandes em todo o Brasil, e ainda maiores na Amazônia, onde os custos logísticos são altos, a infraestrutura é mais precária e a vulnerabilidade socioeconômica é mais profunda. A agenda de resiliência do setor precisa incorporar um olhar específico para essas realidades amazônicas, em tarifa, qualidade e acesso, se quisermos tratar a energia de fato como um direito e não como um privilégio geográfico ou de renda”, analisa.

Moradores de Macapá à noite na rua durante o apagão para tentar se refrescar: crise climática agrava problemas de energia (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 07/11/2020)
Moradores de Macapá à noite na rua durante o apagão para tentar se refrescar: crise climática agrava problemas de energia (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real – 07/11/2020)

Abandono e medo: traumas do apagão

​O sentimento da população amapaense foi de abandono, principalmente pela situação chegar ao ponto crítico que chegou. Para o estudante Walinson, os cidadãos acabaram pagando por um erro que não cometeram. Ele afirma que o apagão poderia ter sido evitado se houvesse mais responsabilidade e acompanhamento por parte das autoridades. Na avaliação dele, o que faltou foi gestão e, principalmente, sensibilidade com as pessoas que sofreram as consequências de uma falha que não era delas.

A designer Dayanne Farias concorda e afirma que a situação de instabilidade elétrica é “desumana”, sobretudo em áreas urbanas. “Precisamos de energia elétrica para tudo hoje em dia. Para nos comunicar, para os hospitais funcionarem, para basicamente tudo. Energia é um direito muito importante e, infelizmente, na Amazônia a gente é muito negligenciado nessa questão da estabilidade. Só quem vivenciou tudo que a gente viveu sabe o quão importante é ter um fornecimento que funcione, que seja de qualidade e que não nos deixe na mão”, reflete.

Após 22 dias no escuro, o apagão no Amapá chegou ao fim. Mais de cinco anos depois, o episódio permanece na memória da população, sempre torcendo que dramas como aqueles não voltem a acontecer. O blecaute em 2020 no estado expôs uma realidade difícil de encarar: os amapaenses foram deixados à espera da energia, de atenção e de dignidade, às margens da sociedade.

Nos 22 dias de blecaute, repetiram-se promessas de normalização do abastecimento, sempre frustradas. O Ministério de Minas e Energia (MME) criou um gabinete de crise, enviando uma comitiva ao estado para averiguar as medidas tomadas para que ocorresse o restabelecimento de energia. A pasta – chefiada pelo almirante Bento Albuquerque, homem de confiança do então presidente Bolsonaro -, ainda chegou a anunciar três prazos para que a energia fosse estabelecida, nenhum dos quais cumprido.

Agora, o que fica na mente do amapaense é o medo da energia faltar e, se faltar, quando ela vai voltar? “Depois do apagão, todo mundo criou um grande trauma. Hoje tenho vários amigos que, quando uma chuva forte cai, ficam com medo. A gente não fica calmo. Eu tenho um amigo que passou dois anos tendo crises de ansiedade toda vez que chovia muito forte, porque tinha esse medo que a energia fosse embora e a gente passasse por todo aquele terror de novo”, afirma Dayanne.

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Clarice Candido

Formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Clarice trabalhou nos jornais “O Dia” e “Meia Hora” e atua no setor de energia. Tem interesse em temas ligados a meio ambiente, mudanças climáticas, Amazônia, direitos humanos e transição energética. Ganhou o prêmio Expocom na categoria Reportagem Longform com “Entre o apagão e o apagamento”, republicada agora pelo #Colabora, em novo formato

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