ODS 1
Capitais brasileiras mais envelhecidas no Sul e Sudeste: Norte tem as capitais mais jovens


Envelhecimento populacional será a principal característica demográfica do Brasil no século XXI, mas ritmo de avanço é geograficamente heterogêneo


O Brasil, na maior parte da sua história, teve uma estrutura etária jovem. Em 1950, o Índice de Envelhecimento (IE) era de 9,4 idosos de 60 anos e mais para cada 100 jovens de 0-14 anos. Isto quer dizer que havia 11 vezes mais jovens do que idosos em meados do século passado. No ano 2000, o IE passou para 26 idosos para cada 100 jovens. O Censo 2022 indicou um IE de 80 idosos por 100 jovens.
Portanto, o Brasil está passando por um rápido processo de envelhecimento populacional e, em breve, atingirá uma marca histórica: pela primeira vez, o país terá mais pessoas de 60 anos ou mais do que crianças e adolescentes de 0 a 14 anos. Segundo as projeções do IBGE, em 2029 o país terá 40,1 milhões de idosos, superando os 39,2 milhões de jovens e 0-14 anos.
Leu essa? Da sociedade envelhecida à sociedade da longevidade
O Censo Demográfico 2022 também indicou que em dois estados a população idosa já superava a jovem: no Rio Grande do Sul, havia 115 idosos para cada 100 jovens; no Rio de Janeiro, 106 para cada 100. Para o ano 2070, o IE deve alcançar 315 idosos 60+ para cada 100 jovens com menos de 15 anos. Desta forma, o envelhecimento populacional será a principal característica demográfica do Brasil no século XXI.
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Veja o que já enviamosMas o envelhecimento é bastante heterogêneo em termos geográficos e o ritmo de avanço é diferenciado nas Unidades da Federação e nos municípios. A tabela abaixo mostra o IE para o Brasil e as capitais em 2022. Nota-se que Porto Alegre é a capital mais envelhecida com 137 idosos para cada 100 jovens de 0-14 anos. Belo Horizonte vem em seguida com IE de 129. Vitória e Rio de Janeiro empataram com IE de 121 idosos por 100 jovens. Em oito capitais, o IE estava acima de 100. Em 14 capitais, o IE estava acima do índice médio nacional. No outro extremo, Macapá (34) e Boa Vista (29) apresentaram os menores índices.


A tabela abaixo mostra a população total, os três grandes grupos etários e o Índice de Envelhecimento para o Brasil e as capitais em 2022. No Rio de Janeiro havia 1,03 milhão de jovens de 0-14 anos e 1,25 milhão de idosos de 60+ em 2022, enquanto em São Paulo havia 1,95 milhão de jovens e 2,02 milhões de idosos de 60+. Para a média nacional eram 40,1 milhões de jovens e 32,1 milhões de idosos.


A mudança da estrutura etária começou a ganhar tração a partir da década de 1960, quando teve início a transição da fecundidade em algumas sedes estaduais. Foram as capitais das regiões Sudeste e Sul que estiveram à frente da redução do número de filhos e, portanto, estão à frente na percentagem de idosos na população. Por outro lado, a região Norte iniciou de maneira mais tardia a transição da fecundidade e, assim, as suas capitais possuem os menores Índices de Envelhecimento.
A maioria das capitais das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste ainda vive a janela de oportunidade do primeiro bônus demográfico. Isto quer dizer que a proporção da população em idade ativa está aumentando, com baixa razão de dependência demográfica nestas regiões. A configuração populacional favorece o crescimento econômico.
Contudo, as capitais das regiões Sudeste e Sul já possuem uma razão de dependência elevada e se encontram na fase final do primeiro bônus demográfico. Todavia, é um exagero falar em catástrofe demográfica. Pois, para além dos desafios, o envelhecimento populacional também traz oportunidades, especialmente se forem aproveitadas duas outras janelas estratégicas para promover prosperidade e bem-estar.
O segundo bônus demográfico, ou bônus da produtividade, ao contrário do primeiro, não é transitório. Seus efeitos podem se prolongar indefinidamente, desde que haja investimentos contínuos em educação, saúde, ciência e infraestrutura. Esses fatores elevam a produtividade do trabalho, permitindo que a economia produza mais com menor uso de insumos humanos e ambientais, compensando a redução da força de trabalho.
A outra oportunidade estratégica acontece com o terceiro bônus demográfico, ou bônus da longevidade, associado à expansão de vidas saudáveis e ativas. Esse bônus depende de como a sociedade se organiza para viver mais e melhor, ampliando os anos com autonomia e sem incapacidades severas. Nesse contexto, o capital humano acumulado ao longo da vida permite que os idosos continuem contribuindo, compartilhando experiência, conhecimento e capacidades produtivas.
Segundo o professor Andrew Scott, da London Business School, devemos superar a visão de uma “sociedade que envelhece” para construir uma “sociedade da longevidade”. Na primeira, acrescentam-se anos à vida; na segunda, adiciona-se vida aos anos.
A “sociedade que envelhece” costuma ser analisada sob a ótica dos problemas e dos custos. Já a “sociedade da longevidade” enfatiza a transformação do ciclo de vida. Scott destaca a maleabilidade do envelhecimento — isto é, a possibilidade de intervenções que permitam viver não apenas mais, mas com melhor saúde, maior integração social e níveis mais elevados de produtividade.
Em síntese, o envelhecimento populacional não representa o fim da linha. É possível construir uma economia da longevidade capaz de enfrentar o etarismo, ao mesmo tempo em que se promovem trajetórias de vida mais flexíveis e multietapas, com requalificação contínua, transições de carreira e maior inclusão das gerações maduras no mercado de trabalho. Esse processo também exige maior capacidade de adaptação por parte dos indivíduos, das empresas, das comunidades e das políticas públicas.
Assim, o grande teste para o Brasil nas próximas décadas não será conter o avanço do Índice de Envelhecimento — um fenômeno natural e irreversível da nossa evolução demográfica —, mas sim acelerar as reformas estruturais necessárias para ampará-lo. O futuro do país depende fundamentalmente de transformarmos o topo da nossa pirâmide etária em um ativo social e econômico. Se as cidades brasileiras souberem migrar do assistencialismo passivo para uma agenda de inclusão produtiva e saúde preventiva, o envelhecimento deixará de ser visto como um fardo fiscal e passará a ser celebrado como o que realmente é: uma das maiores conquistas sociais da nossa história.
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José Eustáquio Diniz Alves
José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.





































