Poder paralelo: 89% do jornalismo local sofreu hostilidades e só 15,8% tem liberdade de imprensa plena no Brasil

Câmeras, microfones e capacetes usados pela imprensa em protesto no Rio contra violência: pesquisa mostra pressão do poder paralelo contra jornalismo local (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)

Levantamento inédito com 38 veículos das cinco regiões mostra que 60,5% já deixaram de publicar pautas por medo de represálias e que políticos corruptos pressionam mais que facções criminosas

Por Gabi Coelho e Igor Soares | ODS 16
Publicada em 29 de maio de 2026 - 09:28  -  Atualizada em 29 de maio de 2026 - 11:19
Tempo de leitura: 47 min

Câmeras, microfones e capacetes usados pela imprensa em protesto no Rio contra violência: pesquisa mostra pressão do poder paralelo contra jornalismo local (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)
Câmeras, microfones e capacetes usados pela imprensa em protesto no Rio contra violência: pesquisa mostra pressão do poder paralelo contra jornalismo local (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)

O fundador de um portal comunitário da Bahia foi detido por policiais durante uma operação no bairro onde trabalha. Não estava armado. Estava com a câmera na mão. Jornalistas de Rondônia deixaram de cobrir determinados temas porque os próprios parlamentares estaduais são os maiores anunciantes dos veículos onde trabalham. Em Maceió, um site ficou fora do ar por mais de seis meses depois de publicar uma reportagem que contrariava a narrativa da prefeitura sobre enchentes. Em Roraima, garimpeiros figuram entre os atores que pressionam comunicadores. Em um quilombo do Centro-Oeste, o avanço do agronegócio determina o que pode ou não ser publicado.

Esta investigação mapeou como diferentes formas de poder paralelo — políticos corruptos, empresários, forças de segurança, facções criminosas, garimpeiros e latifundiários — impactam a atuação, a segurança e as rotinas editoriais de veículos de jornalismo local nas cinco regiões do Brasil. A pesquisa (acessível neste link) ouviu 38 jornalistas e comunicadores entre fevereiro e maio de 2026, com apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF). É o primeiro levantamento estruturado e de alcance nacional com foco específico no jornalismo local. Os respondentes estão distribuídos entre Norte e Sudeste, com 26,3% cada; Nordeste com 21,1%; Sul com 13,2% e Centro-Oeste com 13,2%.

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O dado central vai contra o imaginário mais imediato sobre violência e imprensa: políticos são o ator de pressão mais citado, apontados por 12 dos 38 respondentes como o principal agente de interferência no seu território. Empresários aparecem em seguida, com sete menções, seguidos por forças de segurança do Estado, com seis, e facções criminosas, com cinco. Garimpeiros e latifundiários também foram mencionados, especialmente no Norte e no Centro-Oeste.

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O dado encontra respaldo no que a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) tem monitorado. “A nível local, agentes estatais ainda são os principais agressores contra a imprensa”, disse a advogada Letícia Kleim, coordenadora jurídica da organização. “O tema da cobertura política é o principal tema de ataques contra jornalistas. Isso fica evidente nos números em relação a quem são os agressores — justamente esses agentes políticos denunciados. E não só em termos de uma violência mais mascarada, de ameaças e agressões verbais, mas também em casos emblemáticos de assassinatos contra jornalistas encomendados por agentes políticos, que são os mandantes desses assassinatos”.

Por outro lado, a violência armada demonstra relevância, de acordo com os respondentes, sobretudo em territórios específicos na região Sudeste. De forma mais ampla, a ameaça mais disseminada ao jornalismo local tem rosto institucional. 

Levantamento sobre ação do poder paralelo sobre jornalismo local: 89% relataram ter sofrido ao menos algum tipo de hostilidade no exercício da profissão (Arte: Audrey Tigre)
Levantamento sobre ação do poder paralelo sobre jornalismo local: 89% relataram ter sofrido ao menos algum tipo de hostilidade no exercício da profissão (Arte: Audrey Tigre)

O silêncio que não aparece nos dados

No levantamento, 89% dos respondentes relataram ter sofrido ao menos algum tipo de hostilidade no exercício da profissão. As formas mais frequentes foram ataques em redes sociais e intimidação presencial, citados por 47,4% dos respondentes — que podiam marcar mais de uma opção —, seguidos de ameaças diretas e indiretas e pressão de autoridades públicas. Para 63,2% dos respondentes, essas hostilidades ocorrem de forma ocasional; para 13,2%, são recorrentes.

Outros 60,5% afirmaram que o veículo já deixou de publicar alguma pauta por medo de represálias. As pautas mais evitadas envolvem violência policial, corrupção política, uso do dinheiro público e disputas territoriais. Mesmo assim, para 55,3% dos respondentes, a linha editorial do veículo não sofreu alterações significativas — o que indica que a autocensura opera de forma seletiva, apagando pautas específicas sem alterar o perfil geral do veículo. Para 26,3%, houve alteração parcial; para 15,8%, as mudanças foram significativas.

O dado mais revelador, porém, é o que não chega a lugar nenhum: 76,3% dos respondentes nunca fizeram uma denúncia formal após sofrer ameaça ou pressão. Os motivos mais citados foram medo de represália e falta de confiança nas autoridades — este último apontado por 42,1% dos que não denunciaram. Esse índice indica que a maior parte da violência sofrida pelo jornalismo local no Brasil não existe em nenhum registro oficial, ou seja, não aparece nas estatísticas da Abraji, não chega ao CPJ (Comitê de Proteção a Jornalistas), não alimenta os índices da RSF.

A razão mais citada pelos respondentes aponta para uma contradição estrutural: os mesmos agentes do Estado que seriam acionados numa denúncia são, em muitos casos, os próprios responsáveis pelas pressões. “A gente vai à polícia denunciar a polícia?”, resumiu Andreia*, comunicadora da Bahia. (*Todos os nomes seguidos de asterisco são pseudônimos adotados para proteção das fontes).

A Abraji acompanha esse padrão de perto. “A subnotificação existe porque muitas vezes os autores das censuras e das ameaças são agentes públicos que têm uma proximidade muito maior com as forças policiais, com o Ministério Público, com as autoridades em geral, do que o jornalista”, disse Letícia Kleim. “Esse medo da represália é algo concreto. A gente sofre ainda no Brasil com falta de mecanismos para garantir a imparcialidade e que as investigações sejam feitas de maneira correta, sem sofrer com essas pressões”. Para a coordenadora jurídica da organização, há ainda dois outros fatores que alimentam a subnotificação: o desconhecimento dos jornalistas de que algo pode ser feito a partir do caso sofrido, e o despreparo das autoridades responsáveis por receber essas denúncias.

Para o professor Rogério Christofoletti, da Universidade Federal de Santa Catarina e membro do Observatório de Violência contra Jornalistas e Comunicadores do Ministério da Justiça, a forma mais comum de violência contra jornalistas locais é também a mais difícil de nomear. “São formas subterrâneas ou invisíveis. Difíceis de documentar, difíceis de comprovar numa denúncia, difíceis de combater. Por isso, são as mais perigosas. A tendência do profissional é absorver aquilo de forma solitária e não ver possibilidade de combater. Vai se autocensurar.”

A proximidade entre repórteres e poder em contextos locais é o que torna esse ambiente mais hostil que o nacional. “O jornalista que cobre buraco de rua numa cidade muitas vezes conhece o vereador, conhece o prefeito, conhece o juiz. Essa acessibilidade pode ser positiva, mas o contrário também acontece: pressões pessoais, formas de exercer poder sobre a agenda jornalística que deveriam atender ao interesse público”, disse o pesquisador.

Poder paralelo e as ameaças ao jornalismo local: políticos são o ator de pressão mais citado (Arte: Audrey Tigre)
Poder paralelo e as ameaças ao jornalismo local: políticos são o ator de pressão mais citado (Arte: Audrey Tigre)

O que é poder paralelo num território jornalístico

A investigação partiu de um conceito ampliado de poder paralelo: qualquer ator, estatal ou não, que exerça controle sobre o que é ou não publicado num território, seja por ameaça, coerção, dependência financeira ou represália. Isso inclui facções e milícias, mas também prefeitos que controlam a publicidade local, empresários que processam jornalistas, policiais que destroem equipamentos de cobertura e garimpeiros que intimidam comunicadores em territórios amazônicos.

Nesse contexto, significa encarar diversos impeditivos para publicar. Apenas 15,8% dos respondentes consideram haver liberdade de imprensa plena no território onde atuam. Outros 42,1% avaliam que ela é parcial. Para os demais 42,1%, ela simplesmente não existe.

Essa definição alargada é o que torna os dados desta pesquisa distintos dos levantamentos tradicionais. O relatório anual da RSF publicado em 2025 aponta que, pela primeira vez, mais da metade dos 180 países monitorados se encontra em situação “difícil” ou “muito grave” para o exercício do jornalismo. O Brasil ocupa a 52ª posição no índice daquele ano — uma melhora em relação ao período do governo Bolsonaro, quando o país despencou no ranking, mas que não se traduz no cotidiano dos veículos ouvidos por esta investigação.

“O Brasil tem melhorado as condições para o exercício profissional do jornalista. Mas ainda estamos longe. Ainda é indecente a violência que se pratica contra jornalistas no Brasil”, disse Christofoletti. Para o professor, os dois problemas mais destrutivos hoje são o assédio judicial e os crimes virtuais. “São os que tiram o jornalista de campo.”

O Atlas da Violência registrou, em levantamento de 2024-2025, uma redução de 7,7% no número de desertos de notícias no Brasil. Nesse período, 251 municípios deixaram de ser desertos de notícias, enquanto 43 ingressaram nessa condição. O saldo positivo se deve sobretudo ao crescimento de iniciativas digitais: o número de veículos online no Brasil cresceu de 5.245 para 5.712, aumento de 8,9%. Mas a ausência de veículos não é o único problema. Esta investigação documenta que onde os veículos existem, operam sob restrições que moldam o que é publicado sem que isso apareça em nenhum mapa.

“A população fica refém de grupos de comunicação hegemônicos que moldam a opinião pública, mantendo a população favelada anestesiada”, escreveu Caio*, comunicador do Rio de Janeiro.

Questionado sobre um aumento nos casos de pressão de poderes sobre veículos locais, o diretor do escritório da RSF na América Latina, Arthur Romeu, afirma que a organização faz conversas com diferentes mídias locais do país. “A partir do acompanhamento da RSF e das conversas recorrentes com jornalistas em diferentes regiões do país, está claro que facções criminosas, milícias e outras estruturas vinculadas ao crime organizado representam fatores crescentes de risco para a atividade jornalística. Na medida em que essas estruturas ampliam sua presença territorial e influência econômica e política em diferentes partes do país, também aumenta o nível de ameaça para jornalistas que cobrem temas relacionados à segurança pública, corrupção, disputas territoriais, crimes ambientais, tráfico e dinâmicas locais de poder”, afirma Romeu.

Impacto da pressão sobre o jornalismo local: maioria deixou de publicar reportagens devido a pressões ou ameaças (Arte: Audrey Tigre)
Impacto da pressão sobre o jornalismo local: maioria deixou de publicar reportagens devido a pressões ou ameaças (Arte: Audrey Tigre)

Norte

A Região Norte concentrou o maior número de respondentes desta investigação — 10 dos 38 veículos ouvidos, 26,3% do total, atuam em estados como Pará, Amazonas, Rondônia e Roraima. Todos relataram ter sofrido algum tipo de hostilidade no exercício da profissão. É também a região onde a combinação entre isolamento geográfico, dependência de publicidade governamental e presença de atores econômicos ligados ao extrativismo cria as condições mais adversas para o jornalismo local do país.

Em Rondônia, três veículos participaram da pesquisa. O que emerge dos relatos é consistente: políticos e empresários controlam o fluxo de publicidade, e esse controle funciona como mecanismo de censura sem que ninguém precise fazer uma ligação ameaçadora. “Os anunciantes são os próprios parlamentares”, escreveu Renato*. Em outro relato, a lógica aparece de forma ainda mais direta: “É impossível alguém aceitar a pauta sobre políticos, pois tem rabo preso com autoridades do estado que realizam a manutenção desses sites com dinheiro”, relatou Josias*. No mesmo estado, pautas envolvendo denúncias de corrupção, assédio e investigações de processos administrativos foram evitadas. “Significa correr risco de vida ou fazer um mau jornalismo”, descreveu Josias* sobre o que é fazer jornalismo ali.

Passei a receber e-mails com minha foto, minha localização e minha rotina. Precisei sair às pressas da minha casa, passei um tempo fora do meu estado e de licença do trabalho

Taís*
Repórter em Belém (PA)

Em Roraima, garimpeiros aparecem entre os principais atores de pressão — uma realidade que dialoga com os dados do Instituto Socioambiental sobre o avanço do garimpo ilegal em terras indígenas no estado, especialmente após o pico da invasão Yanomami entre 2020 e 2022. Nenhum dos respondentes do estado fez qualquer denúncia formal após sofrer pressão ou ameaça. “O grupo político que paga melhor é o que tem controle sobre o que é noticiado”, escreveu Conceição*. A avaliação sobre o que significa fazer jornalismo em Roraima é seca: “Na maioria das vezes, seguir uma editoria política velada, mesmo quando o veículo é supostamente independente”, acrescentou.

No Pará, a pressão tem face mais difusa. Alice*, jornalista em Belém, relatou ter redirecionado uma apuração por risco de segurança — a pauta “envolvia pessoas poderosas de um município do interior”. Taís*, também de Belém, descreveu uma sequência de ameaças de morte recebidas após uma reportagem sobre tráfico de drogas. “Passei a receber e-mails com minha foto, minha localização e minha rotina. Precisei sair às pressas da minha casa, passei um tempo fora do meu estado e de licença do trabalho”. Taís* foi uma das poucas da região a formalizar denúncia, levando o caso ao Ministério Público, a organizações de direitos humanos e à polícia. O resultado foi inconclusivo.

A subnotificação é especialmente grave no Norte: nenhum dos demais respondentes da região afirmou ter feito denúncia formal após sofrer ameaça ou pressão. O índice contrasta com a média nacional já alta de 76,3% de não-denúncia — e aponta para um vazio de proteção ainda mais profundo nesses territórios.

Para a cientista social e advogada Maria Tranjan, coordenadora da Artigo 19 e da Rede de Proteção a Jornalistas e Comunicadores, esse dado não significa necessariamente que a violência seja menor nessas regiões. “Quando acontece algum tipo de violência contra comunicadores em São Paulo, isso dá notícia, a gente fica sabendo por vários meios, as organizações são rapidamente acionadas. Mas, por exemplo, quando teve a ocupação da Seduc no Pará, também aconteceram diversos casos de violência contra profissionais da comunicação que estavam fazendo a cobertura — e isso repercutiu pouquíssimo, tanto a nível de mídia quanto para as organizações da sociedade civil”.

Segundo Trajan, há ainda uma segunda camada de invisibilidade: comunicadores indígenas ou de comunidades tradicionais que sofrem violência têm sua condição de comunicador apagada pela categorização racial ou territorial. “A notícia foi que havia violência policial contra povos indígenas. E aí se perde o nexo causal entre o exercício da comunicação e a violência que aconteceu. Ela acaba sendo reduzida a outros processos”.

Ainda no Pará, Luana* trabalha num veículo que cobre comunidades tradicionais e povos originários da Amazônia. O veículo relatou ter evitado pautas sobre grilagem de terras e denúncias envolvendo políticos. A pressão é descrita como recorrente. O veículo adota protocolos de viagem e cuidados digitais — entre os poucos da região com esse tipo de estrutura. “Informar para potencializar vozes de povos e comunidades tradicionais da Amazônia, mesmo que isso signifique estar exposto a ameaças”, escreveu Luana* sobre o que representa o trabalho.

No Amazonas, Karina* representa um veículo investigativo que já sofreu ameaças formais, denunciou casos aos órgãos de proteção e recebeu apoio de organizações nacionais e internacionais. A liberdade de imprensa no território, na sua avaliação, é parcial. “É defender a democracia e garantir os direitos ao acesso à mídia dos cidadãos”.

O padrão que emerge do Norte combina violência explícita em alguns territórios com pressão política e econômica mais difusa em outros. Em ambos os casos, o efeito é o mesmo: pautas que não saem, apurações abandonadas, comunicadores que aprendem sozinhos onde estão as linhas que não podem cruzar.

Nordeste

O Nordeste foi representado por 8 veículos — 21,8% dos respondentes — de estados como Bahia, Alagoas, Pernambuco e Maranhão. Todos relataram ter sofrido algum tipo de hostilidade. 75% dos veículos da região afirmaram ter deixado de publicar alguma pauta por medo de represálias, índice acima da média nacional de 60,5%. Nenhum dos respondentes da região afirmou haver liberdade de imprensa plena no território onde atua.

Na Bahia, Roberto* fundou um portal comunitário em uma região com forte presença de facção criminosa. Durante uma cobertura, Roberto* foi detido por policiais enquanto ocorria uma operação no próprio território . A cobertura de violência no bairro é feita com uma régua própria, construída pela experiência e pelo risco. 75% dos respondentes do Nordeste afirmaram não ter apoio suficiente para continuar operando em situação de risco — e o principal obstáculo citado é financeiro. “Aqui, é nós por nós mesmos. A gente não tem verba de prefeitura nem de governo, porque a gente critica os dois”, disse Roberto.*

Em Maceió, Solange* dirige um portal que cobre comunidades periféricas e acompanha de perto o caso do afundamento do solo causado pela mineradora Braskem — um dos maiores desastres socioambientais urbanos do Brasil, que deslocou mais de 60 mil famílias e completou oito anos sem responsabilização penal da empresa. Após uma reportagem sobre enchentes que confrontava a narrativa da prefeitura, o site do portal foi hackeado e ficou fora do ar por mais de seis meses. “O nosso TI disse: foi hackeado. Apagou basicamente o nosso site. Tive que entrar em um projeto para pagar a reconstrução”, relatou.

Fazer jornalismo aqui é um ato de resistência. É disputar narrativa todos os dias

Roberto*
Fundador de portal de notícias na Bahia

Solange* descreve o ambiente político de Alagoas com precisão: “Você tem dois lados políticos bem polarizados e dentro desses dois lados, cada um tem um veículo de mídia que comanda. Eles mandam na política, mandam na mídia e mandam em canais ao redor através do networking deles. Fica muito complicado saber para onde você tem que ir, onde você está pisando, e calcular muito bem se vai querer pisar nesse calo ou não. E geralmente a gente sempre escolhe pisar”, contou

No Recife, dois veículos participaram da pesquisa. Vinícius* relatou ter evitado pautas negativas sobre políticos e eleições. “Sinto que a pauta da transparência e do uso do dinheiro não ganha a repercussão que merece, sobretudo quando envolve nomes grandes da política local. Falta apoio dos órgãos de controle e de outros veículos da mídia tradicional.” Beatriz* trabalhou num jornal impresso da cidade cujo dono é empresário. “Não podíamos publicar nada que ia contra seus interesses econômicos. Pautas negativas relacionadas a bets e políticos nem pensar, porque o jornal recebia patrocínio de ambos.”

No interior do Maranhão, Amélio* atua num veículo de TV e relatou ter evitado denúncias políticas. A pressão, segundo ele, é recorrente e direta. Nunca fez nenhuma denúncia formal, e o motivo é medo de represália.

A estratégia mais comum dos veículos nordestinos para continuar publicando em contextos de risco é a checagem redobrada antes da publicação, não apenas como rigor jornalístico, mas como proteção jurídica. “A gente trabalha mais com questão investigativa, porque a gente precisa de um tempo para checar, rechecar e ver se tá tudo certo para poder publicar, porque se vier um processo a gente nem tem como arcar”, disse Solange*.

Outro mecanismo amplamente adotado é a reformulação das notas policiais. “A gente sempre muda as aspas da polícia. A nota sempre vem: ‘ah, troca de tiro com confronto armado’, e nunca é assim. A gente que mora na periferia sabe que não é assim. A polícia sempre chega atirando mesmo”, relatou Roberto*. “Fazer jornalismo aqui é um ato de resistência. É disputar narrativa todos os dias”, ressaltou.

Centro-Oeste

O Centro-Oeste teve a menor participação nesta investigação — cinco veículos, 13,2% dos respondentes, de Goiás, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. Todos os respondentes da região relataram algum tipo de pressão. Nenhum considera haver liberdade de imprensa plena no território onde atua, especialmente para aqueles que cobrem conflitos fundiários, mineração e crimes ambientais ligados ao agronegócio.

Em Goiás, Hélio* trabalha num veículo que atua dentro de um quilombo do interior do estado — um dos maiores do país, historicamente pressionado pelo avanço da mineração e do agronegócio. O veículo relatou ter evitado pautas sobre invasão do território e conflitos internos, e adota comunicação criptografada e omissão de detalhes territoriais como protocolos de segurança. “O agronegócio tem chegado aos nossos quilombos”, escreveu Hélio*. “É lutar todos os dias para mostrar o nosso território com o nosso olhar e voz. É ir contra um sistema e mídias que distorcem nossas realidades, nos colocando em posições estereotipadas”.

Em Brasília, José* trabalhou numa emissora de televisão e descreveu como o financiamento público direto produzia censura editorial explícita. “O GDF é um dos principais financiadores da emissora e pautas contra o governador vigente eram proibidas”. O mecanismo é o mesmo que aparece em outras regiões: publicidade como instrumento de controle editorial. A diferença, no caso da capital federal, é que o agente é o próprio governo distrital.

Em Campo Grande, Fábio* descreveu fazer jornalismo como “atender aos anseios do dono do jornal” — uma formulação que sintetiza a subordinação editorial a interesses privados que atravessam veículos de diferentes perfis e regiões. A pressão, segundo ele, é velada e constante. O veículo já deixou de publicar pautas por medo de represálias e não tem qualquer protocolo de segurança estabelecido.

O professor Rogério Christofoletti explica o que está em jogo quando o jornalismo se dobra a esses poderes. “Esses veículos vão deixar de trabalhar por interesse público local, para os laços comunitários, para os interesses daquelas comunidades. Vão adequar a sua agenda jornalística aos poderosos. O jornalismo vai se tornar muito mais declaratório, muito menos investigativo, e vai ser muito mais promocional dos poderes. A longo prazo, aquelas sociedades vão perder um importante instrumento social de escrutínio público”.

Operação policial em favela do Rio: jornalismo local enfrenta ameaças de poderes diversos (Foto: Bento Fábio)
Operação policial em favela do Rio: jornalismo local enfrenta ameaças de poderes diversos (Foto: Bento Fábio)

Sudeste

O Sudeste concentrou 10 respondentes — 26,3% do total —, sobretudo no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. É a região onde facções criminosas aparecem com maior frequência como ator de pressão, mas onde esse funcionamento é também mais sofisticado, menos explícito e, por isso, mais difícil de nomear: 60% dos respondentes da região afirmaram que o veículo já deixou de publicar alguma pauta por medo de represálias; 70% relataram impacto psicológico na equipe.

André* é integrante de um portal de jornalismo comunitário numa favela do Rio de Janeiro. Seu depoimento é um dos mais detalhados desta investigação sobre o que significa calcular risco antes de publicar. “Independente de tudo, você está na favela. Você lida com diferentes tipos de poderes: o tráfico, a política, a polícia, o governo. Toda pauta tem que levar em consideração o seu cálculo de risco”, afirmou. Até mesmo pautas aparentemente simples carregam risco. “Se você vai pautar falta de luz, mesmo que isso seja um problema da concessionária, ela também traz um risco, porque você não conhece as pessoas que trabalham nessa concessionária. E essa concessionária pode ter contato dentro da favela”.

Reportagens sobre obras públicas são as mais problemáticas. “Às vezes você vai produzir uma reportagem de fiscalização do orçamento público e isso tende a enfraquecer porque você sabe, em dado momento da apuração, que as informações não batem. Ou você consegue perceber que há um desvio de recurso público. E quando você percebe isso, você tem uma linha muito tênue entre denunciar ou recuar”, apontou André*. No caso do portal onde trabalha, a decisão pelo recuo já aconteceu mais de uma vez. “Infelizmente, tem de recuar porque a gente sabe que ali não tem como mexer. A gente opta pela nossa segurança física. Não só a nossa, mas pela segurança familiar. Porque por mais que você queira ser jornalista, você também é morador do território”, explicou.

Toda pauta tem que levar em consideração o seu cálculo de risco

André*
Comunicador no Rio de Janeiro

Para continuar publicando temas sensíveis, o portal desenvolveu uma estratégia que se tornou protocolo: a assinatura coletiva. “Colocamos moradores para assinar junto a matéria. Cria uma camada de segurança e uma camada de apelo comunitário. Isso gera uma força maior e acaba forçando algum tipo de atenção para esse tema no território”, contou. A prática reflete um dado mais amplo da pesquisa: parceria com outros veículos e publicação coletiva estão entre as estratégias mais adotadas pelos veículos locais para continuar informando em contextos de risco.

André* descreveu como funciona a pressão após a publicação no Rio de Janeiro. “Existe essa pessoa ou pessoas que fazem essas leituras e de forma instantânea já entra em contato com o veículo, questionando aquela informação e exigindo a retirada. Isso configura um grave ataque à liberdade de expressão. E nessas horas não existe nenhum manual de organização externa de proteção a jornalistas que suporte aquela agressão.”

Em São Paulo, Antônio* relatou que ataques em redes sociais levaram à queda de publicações e à exclusão de posts para proteger fontes. “Não tivemos pautas evitadas, mas algumas reportagens tiveram ataques nas redes sociais que levaram à queda do site. Já excluímos posts por conta disso para preservar algumas fontes.” O caso ilustra uma forma de censura que não aparece nas estatísticas: a autocensura retroativa, que apaga o que já foi publicado. A pesquisa mostra que 36,8% dos respondentes sentem algum tipo de censura na cobertura e outros 23,7% relatam censura em temas específicos. Por outro lado, a maioria, 39,5%, afirma não sentir censura direta, o que não significa ausência de autocensura.

Em Belo Horizonte, Francisco* relatou ter abandonado uma pauta sobre relações entre crime organizado e um pré-candidato a deputado federal. Descreveu o que significa fazer jornalismo no território com uma síntese direta: “Luta por sobrevivência editorial e financeira.”

“A população fica refém de grupos de comunicação hegemônicos que moldam a opinião pública, mantendo a população favelada anestesiada”, escreveu Caio*, comunicador do Rio de Janeiro.

Sul

O Sul foi representado por cinco veículos — 13,2% dos respondentes —, em Porto Alegre e Florianópolis. É a região onde as forças de segurança do Estado aparecem com maior frequência como o principal ator de pressão sobre o jornalismo local, dado que contrasta com o padrão das demais regiões, onde políticos e facções lideram; 40% dos respondentes do Sul relataram ter deixado de circular em determinadas áreas do território por medo. Todos adotam algum tipo de protocolo de segurança. Nenhum considera haver liberdade de imprensa plena no território onde atua.

Em Porto Alegre, Gustavo* teve vídeos deletados diretamente da sua câmera por policiais militares durante uma cobertura de repressão. “Já tive vídeos excluídos da minha câmera por parte da PM por estar cobrindo cenas de repressão”. Thaís*, de outro veículo da capital gaúcha, relatou que a pressão não vem do território onde está sediada, mas de forças externas. “A pressão veio de políticos e de milícia digital de vários estados”, contou.

É muito doloroso sentir que não podemos contar a verdade sem correr risco de retaliação. Tem casos que chegam para nós e sentimos que decepcionamos as famílias por não podermos dar a denúncia da forma que queríamos

Brenda*
Comunicadora de Florianópolis

O relato da jornalista aponta como a violência online cruzou a barreira geográfica e passou a atingir veículos com cobertura mais ampla — um fenômeno que a pesquisa registra em diferentes regiões, com 47,4% dos respondentes citando ataques em redes sociais entre as formas de hostilidade mais frequentes.

Em Florianópolis, Brenda* trabalha num veículo que cobre periferias e comunidades negras da cidade. “Significa expor as engrenagens fascistas do sistema judiciário catarinense e das forças de segurança do Estado. Significa ver a cidade sem o véu de utopia vendido pela prefeitura. E significa, também, viver com medo da polícia — e da impunidade que é vista como direito de cada policial catarinense”, escreveu sobre o que é fazer jornalismo ali.

O veículo relatou ter evitado publicar uma reportagem que denunciava que um policial perseguiu e executou um jovem que havia sido preso por tentativa de assalto contra esse mesmo policial e depois inocentado. A decisão foi pela não publicação de nomes de policiais envolvidos em mortes decorrentes de ação policial — medida adotada como protocolo de segurança para os repórteres. “É muito doloroso sentir que não podemos contar a verdade sem correr risco de retaliação. Tem casos que chegam para nós e sentimos que decepcionamos as famílias por não podermos dar a denúncia da forma que queríamos”, lamentou Brenda*.

O padrão do Sul é distinto das demais regiões: a violência armada de facções é menos central, mas a pressão institucional — policial, política, judicial — é constante. O efeito sobre a cobertura é o mesmo que aparece em todo o país: autorregulação permanente sobre o que pode ser dito, como pode ser dito e com que grau de detalhe.

Jornalismo local sob ameaça: apenas 15,8% dos representantes de veículos consideram haver liberdade de imprensa plena no território onde atuam (Arte: Audrey Tigre)
Jornalismo local sob ameaça: apenas 15,8% dos representantes de veículos consideram haver liberdade de imprensa plena no território onde atuam (Arte: Audrey Tigre)

A cabeça que não para

Nesta investigação, 63,2% dos respondentes relataram impacto psicológico na equipe em decorrência das pressões sofridas. É o terceiro dado mais alto da pesquisa, atrás apenas do índice de hostilidades e da subnotificação. 

“Por que que eu tô fazendo isso aqui na favela se eu corro o risco de morrer?” A pergunta é de André*, comunicador do Rio de Janeiro, e resume o que atravessa o cotidiano de comunicadores que operam sob ameaça constante. O questionamento não é retórico, mas afeta decisões editoriais, relações de trabalho e, em muitos casos, determina o que é ou não publicado. “Isso acaba afetando a saúde mental de quem trabalha com comunicação e jornalismo na favela”, disse.

Quando o jornalismo é silenciado, a população perde acesso a informações confiáveis e passa a tomar decisões no escuro. Isso abre espaço para desinformação, manipulação e abuso de poder. No limite, o silêncio do jornalismo enfraquece a democracia, porque reduz a capacidade da sociedade de se informar, questionar e cobrar

Felipe*
Comunicador do Rio de Janeiro

O impacto não se restringe ao indivíduo. Ele se acumula nas equipes inteiras e altera a forma como os veículos funcionam. Entre os relatos de impacto psicológico estão: crise de ansiedade, medo permanente, sensação de isolamento e desgaste emocional crônico, sintomas que raramente chegam a qualquer protocolo de proteção ou política pública. “Existe um cuidado constante em equilibrar a informação com a segurança, porque estamos dentro do território e lidamos diretamente com essas realidades. Isso acaba funcionando como uma forma de limitação na cobertura, já que nem sempre é possível abordar os temas com total liberdade”, escreveu André*.

Para o professor Rogério Christofoletti, esse esgotamento é parte do mecanismo de silenciamento. “Quando a pressão é feita de maneira subterrânea e invisível, a tendência do profissional é absorver aquilo de forma solitária e não ver possibilidade de combater. Ele vai se autopreservar. O que vai gerar autocensura. E isso vai fazer com que o direito à comunicação de todas as pessoas seja prejudicado.”

Para Maria Tranjan, da Artigo 19, a saúde mental é um aspecto central — e frequentemente subestimado — dos casos que envolvem poder paralelo. “Falar sobre poderes paralelos, ter esses poderes paralelos como agentes violadores, costuma ser um fator de agravamento de questões de saúde mental muito profundo. Existe toda uma parte de construção de rede e de recomendações relacionadas a apoio psicossocial que são absolutamente necessárias e que muitas vezes antecedem a implementação de algumas medidas de proteção. Porque se a pessoa não estiver bem e começar a implementar as medidas de proteção, isso pode fazer com que ela entre num ciclo de sofrimento psíquico que vai fazer com que ela não consiga nem se comunicar mais”.

Para a advogada, o objetivo final de qualquer protocolo de segurança não é apenas proteger — é garantir que a pessoa continue se comunicando. “Se o final dessa história é que a pessoa está segura, mas abandonou completamente o exercício da comunicação, a gente não considera que esse objetivo foi cumprido.”

Jornalismo resiste com o que tem

Na pesquisa, 78,9% dos respondentes afirmam não ter apoio suficiente para continuar operando em situação de risco; 84,2% apontam a falta de apoio jurídico como o principal gargalo e é o tipo de suporte mais citado como necessário, à frente de segurança física, segurança digital e apoio financeiro. É num contexto de abandono quase total que os veículos constroem, na prática, suas próprias estratégias de sobrevivência editorial.

Mais: 73,7% dos respondentes afirmam adotar algum tipo de protocolo de segurança — mas 26,3% não têm nenhum. Entre os protocolos mais comuns, estão comunicação criptografada, publicação sem assinatura, omissão de detalhes territoriais e não divulgação de nomes de fontes. Em muitos casos, especialmente nos veículos sem estrutura mínima, a proteção é construída na prática, à medida que os riscos aparecem. “A gente vai construindo esse limite. Se a gente tiver de produzir uma reportagem em um bairro com potencialidade criminosa, a gente evita, tenta falar com o morador em outro lugar. A gente tenta orientar a equipe”, descreveu Juliana*, da Bahia.

A linguagem indireta é outro recurso amplamente adotado. “O modo de escrever e dizer sobre o que acontece exige falar com cuidado e de forma indireta”, escreveu Juliana*. Ainda na capital baiana, Roberto* descreve como isso funciona na prática ao cobrir violência: o portal não toma partido nem da polícia nem das facções, e constrói uma narrativa neutra que permita ao veículo continuar operando em ambos os lados da disputa territorial. “A gente faz um texto neutro que não dê razão nem à polícia nem aos traficantes. Porque a gente cobra dos dois lados.”

A checagem redobrada antes da publicação também aparece como estratégia — não apenas jornalística, mas jurídica. “A gente trabalha mais com questão investigativa, porque a gente precisa de um tempo para checar, rechecar e ver se tá tudo certo para poder publicar, porque se vier um processo a gente nem tem como arcar”, disse Solange*. O temor do assédio judicial, identificado pelo professor Christofoletti como um dos mecanismos mais perigosos e difíceis de combater, aparece de forma consistente nos relatos. “É incapacitante e difícil de comprovar, por isso é mais complicado, é mais perigoso do que as demais violências”, disse o pesquisador.

A asfixia financeira dos veículos

Por trás das pressões editoriais, há uma dimensão econômica que as potencializa: a maioria dos veículos ouvidos por esta investigação opera sem financiamento estável, sem departamento jurídico e sem qualquer estrutura de proteção institucional. Essa precariedade não é acidental, mas uma forma de controle.

No levantamento, 39,5% dos veículos participantes têm entre 8 e 15 pessoas na equipe. 26,3% trabalham com equipes de 1 a 3 pessoas; 10,5% têm menos de dois anos de existência; 39,5% têm mais de dez anos de atuação — o que indica que a sobrevivência de longo prazo é possível, mas rara e quase sempre baseada em trabalho voluntário. São redações enxutas, muitas vezes sem remuneração regular, operando em territórios onde qualquer processo judicial pode significar o fim do veículo.

“Um dos principais limitadores de produzir notícia, quando a gente está falando de mídia independente, é financiamento. Para a gente aumentar a nossa linha de produção, é financiamento”, disse Juliana*. A falta de recursos cria uma dependência indireta de atores que os veículos deveriam fiscalizar, como prefeituras que distribuem publicidade, empresários que anunciam, governos estaduais que controlam concessões.

Privar sociedades do direito à comunicação é também afetar todos os seus outros direitos humanos

Rogério Christofoletti
Professor e pesquisador da UFSC e membro do Observatório de Violência contra Jornalistas e Comunicadores do Ministério da Justiça

Na amostra, 57,9% dos veículos usam portal ou site como principal formato de publicação; 15,8% são jornais impressos;15,8% são rádios comunitárias. A dependência da internet como plataforma de distribuição torna esses veículos especialmente vulneráveis a ataques digitais — como o que tirou o portal de Solange* do ar por mais de seis meses — e à volatilidade dos algoritmos das redes sociais.

Apenas uma parcela dos veículos recebe apoio de organizações nacionais ou internacionais. Entre as citadas pelos respondentes. estão RSF, Abraji, Artigo 19, CPJ, Fundo Brasil de Direitos Humanos, Media Defense e Google News Initiative. Para a maioria, o financiamento vem de editais pontuais, doações e trabalho voluntário. “Se não fosse o amor ao trabalho comunitário, a dedicação aos nossos conteúdos, a gente tinha cancelado. Outros projetos que começaram já acabaram porque sacrificar apenas no dinheiro a gente não conseguiria fazer isso”, disse Roberto*.

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), consultada por esta reportagem, informou que a distribuição de investimentos publicitários do governo federal segue critérios técnicos definidos pela Instrução Normativa nº 2 de 2023, com previsão de diversificação de veículos, incluindo os regionalizados. A secretaria também mencionou a abertura do cadastro de Microempreendedores Individuais no sistema de veiculação publicitária do governo e o lançamento da Incubadora de Soluções para o Jornalismo, financiada via CNPq. Na prática, nenhum dos veículos ouvidos por esta investigação relatou ter acessado recursos federais de publicidade de forma regular.

Jornalismo silenciado: 76,3% dos comunicadores ouvidos por esta investigação nunca denunciaram formalmente qualquer ameaça (Arte: Audrey Tigre)
Jornalismo silenciado: 76,3% dos comunicadores ouvidos por esta investigação nunca denunciaram formalmente qualquer ameaça (Arte: Audrey Tigre)

O que existe — e o que falta — em termos de proteção

Desde 2023, após os ataques de 8 de janeiro em Brasília, entidades representativas de jornalistas pressionaram o governo federal pela criação de mecanismos de proteção. O resultado foi a instalação do Observatório de Violência contra Jornalistas e Comunicadores no Ministério da Justiça, a criação de um canal específico de denúncias e o desenvolvimento do conceito jurídico de assédio judicial — instrumento destinado a orientar a comunidade jurídica sobre processos movidos com o objetivo de silenciar jornalistas. Mais recentemente, foi anunciado um protocolo nacional para orientar as forças de segurança estaduais sobre como agir quando o crime é cometido contra um jornalista no exercício da profissão.

Essas iniciativas existem num contexto em que 76,3% dos comunicadores ouvidos por esta investigação nunca denunciaram formalmente nenhuma ameaça, e em que 78,9% afirmam não ter apoio suficiente para continuar operando em situação de risco. Os mecanismos de proteção existem, mas não chegam a quem mais precisa deles.

Para Maria Tranjan, o primeiro obstáculo é o desconhecimento. “Hoje no Brasil a gente tem estruturas com mais ou menos 15 a 20 anos de existência que garantem a proteção de diversos grupos — como o PPDH, o Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas — e estruturas relativamente novas, como o Observatório da Violência contra Jornalistas. Infelizmente, ainda hoje comunicadores dificilmente acessam esses mecanismos, principalmente por desconhecimento da sua existência ou da hipótese de que poderiam ser acolhidos por essas estruturas estatais”.

Para a coordenadora, há ainda um segundo fator: muitos comunicadores não reconhecem o caráter político do seu próprio trabalho. “Não pode se considerar que o exercício da comunicação é meramente um exercício profissional. Existe um cunho político, especialmente num país como o Brasil, que passou nos últimos anos por processos massivos de desinformação e de estigmatização do jornalismo partindo de autoridades públicas.”

Para Letícia Kleim, o problema começa antes da denúncia. “Existe uma distância entre a política de proteção a defensores de direitos humanos e comunicadores como grupo. Os comunicadores têm menor representação nessa política de proteção. Existia até então uma dificuldade de reconhecer uma violação contra o comunicador como uma violação que poderia ser defendida por essa política.” Segundo ela, essa barreira foi removida, mas persiste a descrença sobre a efetividade do programa e o desconhecimento de que ele existe. “Falta muita comunicação dos próprios mecanismos para chegarem em potenciais acolhidos. E ainda existe um desenho institucional que precisa favorecer os desafios concretos sofridos por esses comunicadores — como eles podem responder a essa pressão considerando o poder local, sem precisar se distanciar do trabalho que realizam na região.”

“Eu faço parte desse coletivo, que tem membros da sociedade, da academia, do poder público, para não só entender o fenômeno da violência, mas também pensar ou sugerir políticas públicas para isso”, explicou Christofoletti, que integra o Observatório. Mas o pesquisador é o primeiro a reconhecer que as medidas são insuficientes. “Tem muita coisa para ser feita. O governo federal ou os governos de maneira geral precisam extrair uma garantia das plataformas digitais para que detenham a violência virtual contra jornalistas. Canais específicos de denúncia, diminuição de alcance de conteúdos violentos, sobretudo contra jornalistas mulheres, que são as mais penalizadas nesse tipo de violência.”

Para Christofoletti, há ainda uma lacuna conceitual que precede qualquer política pública. “Muita gente ainda não entende que comunicação é um direito. Quando veem jornalistas se queixando de violência, acham que é apenas um problema corporativo. Não é. Precisamos pensar em prerrogativas para a função jornalística, assim como existem para promotores, juízes, parlamentares.” O pesquisador cita a imunidade parlamentar como exemplo de instituto jurídico que protege o exercício de uma função pública e propõe raciocínio análogo para o jornalismo.

O efeito de longo prazo da ausência de proteção é, na avaliação de Christofoletti, a degradação irreversível do jornalismo local como instrumento democrático. “Aquelas sociedades vão perder um importante instrumento social de escrutínio público, de acompanhamento das políticas públicas, de acompanhamento dos decisores. O direito à comunicação é um direito meio — ele permite que a gente conheça outros direitos. Privar sociedades desse direito é também, de alguma forma, afetar todos os seus outros direitos humanos.”

“Quando o jornalismo é silenciado, a população perde acesso a informações confiáveis e passa a tomar decisões no escuro. Isso abre espaço para desinformação, manipulação e abuso de poder. No limite, o silêncio do jornalismo enfraquece a democracia, porque reduz a capacidade da sociedade de se informar, questionar e cobrar”, escreveu Felipe,* comunicador do Rio de Janeiro.

Tentativa de acesso a dados oficiais

Para cruzar os relatos coletados na pesquisa com dados públicos sobre violência contra jornalistas, a reportagem solicitou informações a diferentes órgãos do Estado.

Ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) foram pedidos dados sobre processos de assédio judicial movidos contra jornalistas e veículos de comunicação comunitários ou locais, desagregados por estado e ano, e sobre decisões liminares de remoção de conteúdo jornalístico no mesmo recorte. O CNJ informou não dispor desses dados.

À Procuradoria-Geral da República (PGR) foram solicitados dados do Sinesp sobre índices de violência nos municípios cobertos pela investigação e informações sobre investigações abertas envolvendo ameaças ou violações contra jornalistas e comunicadores. A PGR respondeu que esse tipo de crime tem natureza estadual, não federal, e sugeriu buscar os Ministérios Públicos estaduais. Nenhum MP estadual contactado forneceu os dados solicitados. Pedidos via Lei de Acesso à Informação foram encaminhados às Secretarias de Segurança Pública dos estados. Aguarda-se o cumprimento do prazo previsto em lei.

À Polícia Federal foram solicitados inquéritos policiais abertos por ameaças, intimidação ou crimes cometidos contra jornalistas e comunicadores, desagregados por estado e ano. A resposta foi que a atribuição é das polícias civis estaduais, não da PF. As polícias civis dos estados cobertos pela investigação foram contactadas. Não houve retorno até o fechamento desta reportagem.

A ausência de dados sistematizados sobre violência contra jornalistas nos órgãos do Estado — e o jogo de empurra entre instâncias federal e estadual — confirma, na prática, o que os próprios comunicadores relataram na pesquisa: 76,3% nunca denunciaram formalmente as ameaças sofridas, em parte porque falta confiança nas autoridades. Os dados não existem também porque o Estado não os produz.

Como esta investigação foi feita

Esta investigação combinou levantamento quantitativo, entrevistas qualitativas em profundidade e análise documental. O trabalho de campo foi conduzido entre fevereiro e maio de 2026, com apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), e tem como foco veículos de jornalismo local que atuam em territórios marcados pela presença de diferentes formas de poder paralelo nas cinco regiões do Brasil.

A coleta de dados foi feita por meio de um questionário estruturado, aplicado de forma remota e segura, com perguntas fechadas e abertas. O formulário abordou os seguintes eixos: tipos de hostilidade sofrida no exercício da profissão; frequência dessas hostilidades; impacto das pressões na linha editorial; restrição de circulação no território; adoção de protocolos de segurança; impacto psicológico na equipe; percepção de censura na cobertura; atores de pressão identificados no território; denúncia formal de ameaças e razões para a não-denúncia; estratégias adotadas para continuar informando; avaliação sobre apoio disponível e tipos de suporte necessários; e percepção sobre liberdade de imprensa no território.

Os respondentes podiam escolher entre anonimato total ou parcial. Todos optaram por não ser identificados. Os dados foram tratados de forma agregada e os relatos abertos foram usados apenas com pseudônimos, adotados pela equipe de reportagem para proteção das fontes. Nenhuma informação que permita a identificação de respondentes, veículos ou territórios de risco foi publicada.

A pesquisa – que pode ser acessada aqui – contou com 38 respondentes, distribuídos entre as cinco regiões do país: Norte com 26,3% (10 respondentes), Sudeste com 26,3% (10 respondentes), Nordeste com 21,1% (8 respondentes), Sul com 13,2% (5 respondentes) e Centro-Oeste com 13,2,% (5 respondentes). Os veículos participantes atuam majoritariamente em capitais — 76,3% — e em zonas urbanas — 21,1%. Do ponto de vista do formato, 57,9% são portais ou sites, 15,8% são jornais impressos e 15,8% são rádios comunitárias. Quanto ao tempo de atuação, 39,5% dos veículos têm mais de dez anos de existência e 10,5% têm menos de dois anos.

A amostra não é probabilística e não tem pretensão de representatividade estatística do universo total de veículos de jornalismo local no Brasil — cuja dimensão exata é difícil de mapear, dado o crescimento contínuo de iniciativas digitais e a informalidade de parte dos veículos comunitários. O objetivo do levantamento é documentar padrões e produzir evidências qualificadas sobre um fenômeno pouco sistematizado, a partir da escuta direta de jornalistas e comunicadores que atuam nesses territórios.

Após o questionário, parte dos respondentes foi convidada a participar de entrevistas em profundidade, conduzidas por chamada de vídeo ou áudio com gravação. As entrevistas foram transcritas e os trechos utilizados na reportagem foram submetidos à checagem para garantir fidelidade ao relato original. Todos os entrevistados tiveram sua identidade protegida por pseudônimos, adotados pela equipe de reportagem. Em nenhum caso foram publicados nome real, veículo ou detalhes territoriais que possam permitir identificação.

O professor Rogério Christofoletti, da Universidade Federal de Santa Catarina, foi entrevistado na condição de especialista e membro do Observatório de Violência contra Jornalistas e Comunicadores do Ministério da Justiça. Diferentemente das demais fontes, ele solicitou ser identificado pelo nome e instituição.

Fontes documentais e dados externos

A reportagem utilizou como fontes documentais o Relatório Mundial de Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) de 2025, o levantamento do Atlas da Violência sobre desertos de notícias de 2024-2025 e dados do Ministério das Comunicações sobre rádios comunitárias.

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) foi consultada formalmente sobre a distribuição de publicidade federal para veículos locais e respondeu por escrito. O Ministério da Justiça não foi consultado diretamente para esta reportagem, mas dados do Observatório de Violência contra Jornalistas foram referenciados a partir da entrevista com o professor Christofoletti.

As organizações Abraji, Artigo 19, Rede de Proteção a Jornalistas e Comunicadores e RSF Brasil foram contactadas para entrevista. As respostas obtidas até o fechamento desta edição foram incorporadas ao texto. As que chegaram após o fechamento serão incluídas em atualização da reportagem.

Critérios editoriais de proteção

Toda a apuração foi conduzida com prioridade absoluta à segurança das fontes. Os critérios adotados incluem anonimato garantido a todos os respondentes do questionário e entrevistados aprofundados; uso de pseudônimos sem relação com os nomes reais; não publicação de nomes de veículos quando a identificação puder gerar risco; generalização de referências territoriais em casos de alto risco — territórios quilombolas, comunidades em disputa fundiária, zonas de conflito armado — para evitar identificação cruzada por localização, tema e perfil do veículo; e avaliação de risco realizada pela equipe antes da publicação de cada relato.

A investigação foi conduzida com comunicação criptografada entre a equipe de reportagem e as fontes, e os dados brutos da pesquisa são mantidos em ambiente seguro, acessível apenas aos repórteres e editores responsáveis.

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Gabi Coelho e Igor Soares

Gabi Coelho é jornalista investigativa independente com foco na defesa dos direitos humanos, justiça social e socioambiental. Recém-especializada em gestão de organizações da sociedade civil e ex-diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), tem passagens pelo The Intercept Brasil e pelo Estadão. Igor Soares, jornalista formado pela UFRJ, atua como repórter freelancer do #Colabora, do Rio On Watch e é colaborador da Folha de S. Paulo no Rio. Tem experiência em cobertura de cidades, direitos humanos, segurança pública, economia e política, com passagem pelas redações do Estadão, da Agência Estado e do Portal iG.

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