Meio ambiente dá voto? O silenciamento climático nas eleições

Foto colorida que mostra lente ou vidro com gotas de chuva e no fundo, o prédio do Congresso Nacional. Mais ao fundo, nuvens carregadas

Estudos analisam desafios da inserção de temas como mudanças climáticas e desastres nas eleições e na democracia brasileira

Por Micael Olegário | ODS 16
Publicada em 5 de junho de 2026 - 09:35  -  Atualizada em 5 de junho de 2026 - 09:35
Tempo de leitura: 11 min

Foto colorida que mostra lente ou vidro com gotas de chuva e no fundo, o prédio do Congresso Nacional. Mais ao fundo, nuvens carregadas
Desastres climáticos passaram a fazer parte do cotidiano da população, mas será que serão considerados na hora de votar? (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)

O Brasil tem sofrido com constantes desastres climáticos. Eventos extremos de chuva, ondas de calor e secas severas deixam marcas na vida das pessoas, porém, até que ponto esse contexto pode influenciar as eleições? De que forma a democracia brasileira e seus representantes tratam de temas como adaptação às mudanças do clima?

Existem temas consolidados que têm peso importante em qualquer corrida eleitoral, como saúde, educação, segurança pública e economia. Direta ou indiretamente, eventos extremos climáticos afetam todas essas áreas, além de agravarem desigualdades socioambientais nas cidades e zonas rurais.

“A pauta de clima tem crescido e ocupado mais espaço. Isso não quer dizer que seja uma pauta que vai converter votos, mas vai estar no debate também”, avalia Liuca Yonaha, vice-presidente do Instituto Talanoa, organização voltada para o estudo de políticas climáticas.

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A presença do clima nas eleições é inevitável, porque boa parte da população já sente de perto os seus impactos. Um em cada quatro brasileiros das classes A, B e C já precisou sair de casa devido a um evento extremo. É o que mostra pesquisa feita pela Ipsos para o Instituto Talanoa e que analisa a percepção sobre adaptação climática no Brasil.

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O estudo indica que 63% das pessoas aprovam a ideia de que novas construções devam considerar as mudanças climáticas. Esse percentual aumenta para 76% se a obra for financiada por recursos públicos. O levantamento, divulgado em março deste ano, entrevistou mil pessoas em dezembro de 2025.

Apesar desses números, Liuca pondera que a compreensão acerca da adaptação climática ainda não está presente no cotidiano das pessoas. Essa observação dialoga com pesquisas que revelam como desastres climáticos, a exemplo das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, não geram impacto decisivo nas campanhas eleitorais ou no voto das pessoas.

As eleições de Porto Alegre

Em 2024, mais de 95% do território do Rio Grande do Sul foi afetado pelas chuvas extremas e inundações de abril e maio, consequência de um combo de fenômenos meteorológicos e intensificadas pelas mudanças climáticas. Na capital Porto Alegre, 160.210 pessoas foram atingidas diretamente, segundo dados da Secretaria Municipal  de  Meio  Ambiente,  Urbanismo  e  Sustentabilidade.

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As águas do Guaíba chegaram à 5,33 metros acima do nível normal, deixando vários bairros, residências e prédios históricos debaixo d’água. Cerca de 70% da população ficou sem abastecimento de água e os sistemas de proteção de cheias apresentaram diferentes falhas.

Surpreendeu bastante que o programa da candidata Maria do Rosário simplesmente não tematizou a questão das mudanças climáticas, como um elemento importante para o acontecimento de 2024

Sara Alves Feitosa
Professora e pesquisadora da Unipampa

Diante da dimensão do desastre, a expectativa era que o tema das enchentes dominasse os debates da eleição municipal de 2024. Porém, o assunto foi secundário e praticamente silenciado, especialmente, no 2° turno, disputado entre Sebastião Melo (MDB) e Maria do Rosário (PT). Na ocasião, Melo foi reeleito com 61,5% dos votos válidos.

Dados de análise feita por pesquisadoras do Núcleo de Comunicação Pública e Política (NUCOP), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mostram que os candidatos não estabeleceram conexões do acontecimento com as mudanças climáticas. 

O foco da pesquisa foi o uso do horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE). Ao todo, foram 110 programas analisados considerando o 1° e o 2° turno. O estudo partiu de uma pesquisa da Quaest em que 33% dos eleitores de Porto Alegre apontaram as enchentes como o principal problema da cidade.

Foto colorida do centro antigo de Porto Alegre cercado de prédios: desenvolvimento urbano totalmente insustentável (Foto: Gustavo Mansur / GOVRS - 07/05/2024). Meio ambiente e eleições
Centro antigo de Porto Alegre cercado de prédios: mudanças climáticas foram tema silenciado nas eleições municipais de 2024 (Foto: Gustavo Mansur / GOVRS – 07/05/2024)

Silenciamento climático

“Começamos pensando que as enchentes seriam o grande tema da campanha eleitoral de 2024 para o pleito de Porto Alegre”, conta Sara Alves Feitosa, professora da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e uma das autoras do estudo, publicado em maio deste ano.

No 1° turno, foram analisadas também as propagandas eleitorais de Juliana Brizola (PDT). As conclusões mostram que especialistas quase não aparecem nos programas e nenhum candidato abordou os efeitos ambientais do desastre.

No total de 82 programas do 1° turno, o tema das enchentes apareceu na metade (42), sendo mais abordado por Rosário, em 35% do tempo e 60,7% dos programas, seguida de Brizola, 23,3% do tempo e 46,4% dos programas e, por último, Melo com 20,5% do tempo e 42,9% dos programas.

Já no 2° turno, o número de menções feitas pela candidata do PT subiu para 92,3% dos programas, enquanto  Melo  citou  as  enchentes  em  15,4%. Porém, o estudo mostra que as menções de Rosário foram frequentes, mas de curta duração, com apenas 7% do total do tempo, enquanto no caso de Melo foi 2,7% do tempo.

“Surpreendeu bastante que o programa da candidata Maria do Rosário simplesmente não tematizou a questão das mudanças climáticas, como um elemento importante para o acontecimento de 2024”, comenta Sara. Segundo ela, isso ocorreu apesar do intervalo de apenas cinco meses do desastre e das marcas ainda visíveis das enchentes na cidade na época

Votando verde

Em pesquisa de dissertação que relaciona meio ambiente, clima e eleições, Thais Pilipczuk Vieira investigou os impactos de desastres ambientais sobre os resultados das eleições municipais de 2012, 2016 e 2020. O estudo apresenta um cruzamento com dados do Atlas Brasileiro de Desastres Naturais e considera os municípios afetados por eventos extremos.

Nos resultados, Thais identificou um leve aumento de 4,3 pontos percentuais nos votos de partidos de esquerda e uma redução de 4,7 pontos percentuais nos votos de partidos de direita. Já partidos moderadamente alinhados à agenda climática cresceram 3,3 pontos percentuais.

Apesar dos números indicarem um aumento dos votos para partidos historicamente favoráveis à agenda ambiental, o estudo indica que fatores ideológicos ainda possuem maior peso na decisão dos eleitores do que questões ambientais e/ou climáticas.

“Essa lacuna entre o apoio à esquerda política e o engajamento efetivo com políticas ambientais revela desafios políticos e institucionais para o avanço da agenda climática em democracias em desenvolvimento, especialmente no nível local, onde os impactos dos desastres e as respostas governamentais são mais imediatos”, diz trecho da dissertação, defendida em agosto de 2025, no Programa de Pós-graduação em Economia Aplicada, da Universidade de São Paulo (USP).

Foto colorida de urna eletrônica
Cenário político polarizado dificulta que pautas ligadas ao meio ambiente e clima sejam abordadas nas campanhas (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)

Eleições 2026 e polarização

Para Sara Feitosa, existe um processo de polarização cristalizado na política brasileira e que inevitavelmente deve afetar as próximas eleições. Para a pesquisadora, apesar dos indicativos que mostram um aumento da percepção das pessoas sobre as mudanças do clima, o negacionismo ainda “nivela por baixo” muitos debates.

“Se parte da população não confia na ciência, isso deixa de ser relevante até para quem pode, em alguma medida, acreditar e confiar na ciência”, explica a professora da Unipampa. Esse contexto dificulta também que sejam evidenciadas as relações entre clima e outros temas, como saúde e educação.

Além disso, existe um negacionismo em relação às causas das mudanças climáticas, principalmente, por parte de parlamentares da extrema-direita e de bancadas ligadas ao agronegócio. Sara Feitosa também critica a postura de grande parte da mídia tradicional, por exemplo, ao não apontar as contradições do agro e as relacionar com o clima.

“Em geral, as pessoas não têm essa visão do todo, de como aquele candidato ou candidata vota em todas as pautas”, aponta Liuca Yonaha, do Instituto Talanoa. Ao comentar sobre a disputa de vagas para o Congresso Nacional, ela menciona a baixa expectativa e a falta de acompanhamento dos eleitores para com seus candidatos à Câmara e Senado.

Liuca cita também a influência da própria “máquina eleitoral” que viabiliza a destinação de emendas parlamentares que, na prática, servem para a manutenção do poder político. Essa dinâmica contribui para o fortalecimento de bancadas como a ruralista e, consequentemente, na aprovação de pautas que prejudicam o meio ambiente, o combate ao desmatamento e dificultam o avanço da agenda climática.

IA e El Niño

Pesquisa do Projeto Brief com 2.483 eleitores de todo o país sinaliza que 62,9% consideram consultar uma ferramenta de inteligência artificial (IA) para obter informações sobre candidatos nas eleições. Ao mesmo tempo, três em cada pessoas reconhece que a tecnologia pode ser usada para manipular eleitores e abalar a confiança na democracia.

Em conjunto com as preocupações com IA nas eleições, outro fenômeno começou a ser mais acompanhado pela população e pelas pesquisas: o El Niño. Sara Feitosa conta que o NUCOP está desenvolvendo uma pesquisa para analisar a forma como esse acontecimento vai aparecer durante a corrida eleitoral de 2026.

O foco do estudo deverá ser o Rio Grande do Sul e a base de coleta de dados publicações no X (ex-Twitter) e no Instagram. “O objetivo é perceber para aonde está caminhando o debate sobre clima no Estado, inclusive, para ver como os algoritmos das redes sociais recomendam alguns perfis e silenciam outros”, detalha a pesquisadora da Unipampa.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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