ODS 1
‘Plantar butiá no lugar de soja’: a sociobioeconomia no Pampa


Equipe do Laboratório Brasileiro de Agrostologia trabalha em parceria com produtores para salvaguardar butiazais. Desocupação de prédio em Porto Alegre afeta pesquisas e acervo


Antes de serem transferidas por decisão judicial, as salas de pesquisa Laboratório Brasileiro de Agrostologia, conhecido como Herbário BLA, possuíam um cheiro característico de butiá. As espécies desse tipo de palmeira são símbolos do Pampa, porém, muitas delas tem sofrido com a degradação do bioma e o avanço das monoculturas em áreas de campos nativos.
Reverter esse cenário é um dos focos do trabalho de Gilson Schlindwein. Com um sorriso no rosto, o pesquisador comenta: “nunca imaginamos que as pessoas iriam querer plantar”. O foco do trabalho da equipe do laboratório é acelerar o processo de germinação das sementes de butiá e pesquisar formas de aproveitamento de suas diferentes variedades. O objetivo final é criar um tipo de sociobioeconomia baseada no cultivo dos butiazais.
Uma das pessoas que abraçou esse projeto foi Bruna Abeijon. “Queríamos fazer uma coisa diferente, não só seguir arrendando e nem vender”, explica, sobre o diálogo com a mãe para decidir o destino de uma propriedade rural da família em Santa Vitória do Palmar, no extremo sul gaúcho.
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Veja o que já enviamosEm 2024, foram plantadas cerca de 400 mudas de butiá em uma área cercada por plantações de soja e arroz. A seca que afetou a região em 2025 dificultou a continuidade do projeto, porém, neste ano, outras 220 mudas foram cultivadas, em uma área próxima de um hectare.
Em geral, as palmeiras de butiá demoraram cerca de 3 a 5 anos para produzir, prazo que pode chegar a 7 anos. Para Bruna, é uma espera que vale a pena, porque se trata de um investimento de longo prazo. “A ideia é que fosse algo que a gente pudesse plantar e durasse a nossa geração e as futuras”.
A pesquisa com espécies de butiazais feita pela equipe do Herbário BLA é um dos 130 projetos afetados pela desocupação da sede do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária (DDPA), iniciada no dia 8 de maio. O setor é vinculado à Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do RS (Seapi).
Um processo aberto em 2015 pelo Ministério Público do Trabalho acusa o Estado do Rio Grande do Sul de descumprir normas de segurança previstas nas NR-10 e NR-12, da Portaria nº 3.214/78 do Ministério do Trabalho. A decisão que determinou a transferência do local cita problemas na rede elétrica e falhas nos procedimentos de manutenção do prédio, localizado no bairro Menino Deus, em Porto Alegre.


Pesquisa
As mudas plantadas por Bruna em Santa Vitória do Palmar foram produzidas no projeto “Integrando conservação e geração de renda através do manejo, cultivo e valorização econômica em áreas com butiazeiros nativos do RS”, do DDPA. O trabalho com as diversas espécies de butiá teve início há cerca de 20 anos e, atualmente, a demanda é de 50 mil mudas por ano. A pesquisa conta com colaboração de produtores de 40 municípios e com recursos de renúncias fiscais de empresas que atuam no Estado.
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As biólogas Priscila Ferreira e Thaís Magalhães explicam os detalhes da iniciativa que envolve oito espécies de butiás que existem no RS: odorata, catarinensis, eriospatha, exilata,. lallemantii, paraguayensis, witeckii e yatay. “Selecionamos as matrizes que são de interesse comercial – aquelas que têm frutos grandes, bons e de bastante rendimento – coletamos e fazemos a germinação”, detalha Priscila, doutora em Botânica e natural de Quaraí, na Fronteira Oeste do RS.
Em condições normais, as sementes de butiá levam cerca de dois anos para germinar, processo reduzido para entre 45 a 60 dias, graças ao método desenvolvido no Herbário BLA. Essa técnica é chamada de quebra de dormência e envolve o uso de diferentes estufas.
O butiá é uma fruta cítrica de cor amarela, semelhante a um coquinho. O sabor das variedades mais comuns – como o odorata – é uma combinação de doce e ácido. A fruta costuma ser utilizada para produção de geleias, sucos e bebidas alcoólicas, como licores e cachaça.
“Uma questão do projeto é identificar outros usos para as espécies que são mais fibrosas ou oleosas”, observa Thais, mestre em Botânica. Natural de São Paulo, ela está há seis anos trabalhando no Herbário BLA. “O bioma Pampa é maravilhoso, muito diverso e rico”, comenta, sobre o motivo de ter ficado no RS..


Incerteza
Desde a desocupação no início de maio, os arquivos e a coleção de mais de 20 mil amostras de plantas do Herbário BLA tiveram de ser transferidas para um espaço provisório no Jardim Botânico de Porto Alegre. O banco de sementes e a pesquisa para germinação de mudas de butiá continuam também em local temporário, enquanto os pesquisadores aguardam as definições do Estado e da Justiça.
A reportagem do #Colabora visitou a antiga sede do Herbário BLA antes da desocupação. Ao receber a informação sobre a decisão, questionamentos sobre o impacto e o futuro das pesquisas foram encaminhados à Seapi. Porém, até o momento da publicação, a secretaria não havia oferecido respostas.
“Isso mostra um descaso do governo com a pesquisa. Na mídia eles [governo do estado] falam de investimentos ambientais, mas toda essa agricultura resiliente produzida aqui, que ajuda em questões climáticas, é tratada assim“, disse Gilson, em entrevista ao portal Humanista, após a desocupação do prédio do DDPA.
Criado em 1947, o acervo do Herbário BLA está entre os três maiores do Rio Grande do Sul e o seu registro mais antigo é de 1865. A maior parte desse banco de dados está disponível online na rede Specieslink.
Em fevereiro, a equipe celebrou a coleta do exemplar de número 20 mil, justamente uma das espécies mais raras e ameaçadas do bioma, o butiá witeckii, no município de Júlio de Castilhos (RS). As estimativas indicam a existência de menos de 100 indivíduos adultos da espécie, que é endêmica do Pampa gaúcho.


Sentinelas
Reconhecido com símbolo estadual pela lei Lei nº 15.922/2022, os butiás servem como espécies sentinelas da preservação do Pampa. “Quando tu tens butiazais, tu tem áreas campestres e, nessas áreas, existem outras espécies que também são campestres”, destaca Priscila.
Entre as espécies ameaçadas que sobrevivem em aliança com os butiazais estão a bromélia – Dyckia strehliana – endêmica das margens do Rio Toropi, em Júlio de Castilhos, associada com Butia witeckii; e a Pavonia subrotunda, um tipo de flor da família dos hibiscos, existente em areais de Maçambará e Unistalda, associada à Butia paraguayensis.
Além da interdependência que se estabelece entre a flora próxima a essas palmeiras, o artesanato com a palha de butiá é reconhecido como patrimônio cultural imaterial do RS desde 2023. A atividade atravessa gerações de famílias rurais de Torres, no Litoral Norte do Estado.
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Micael Olegário
Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.




































