Livro de fotografia documenta enchentes no Rio Grande do Sul

Centro de Porto Alegre inundada pela enchente do rio Guaíba em 2024. (Foto: Mirian Fichtner)

Fotógrafa Mirian Fichtner lança "Quando começa a chover o coração bate mais forte", um registro poético, triste e contundente sobre o evento extremo que transformou Porto Alegre num cenário de terror, em 2024

Por Liana Melo | ODS 13
Publicada em 22 de junho de 2026 - 09:48  -  Atualizada em 22 de junho de 2026 - 10:06
Tempo de leitura: 8 min

Centro de Porto Alegre inundada pela enchente do rio Guaíba em 2024. (Foto: Mirian Fichtner)
Centro de Porto Alegre inundada pela enchente do rio Guaíba em 2024. (Foto: Mirian Fichtner)

Ao traduzir em imagens o que os números das estatísticas não mostravam, a fotojornalista Mirian Fichtner transformou seu fotolivro “Quando começa a chover o coração bate mais forte” em um testemunho de uma tragédia anunciada, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Espalhadas por 212 páginas, as 107 fotografias do livro pertencem “a essa linhagem rara de imagens que não apenas registram, mas instaura um campo ético incontornável diante do qual não há neutralidade possível”, escreveu Eder Chiodetto, curador do livro.

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Para ele, ao folhear o livro, o leitor é atravessado “por uma visualidade de alta densidade formal”. Chiodetto considera que “a composição rigorosa, a leitura aguda da luz e o uso expressivo da cor, que tensionam até o limite entre o belo e o insuportável, inscrevem o ensaio de Fichtner em uma tradição que dialoga com a pintura, sem jamais abdicar da urgência do real.”

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Ao relembrar a cobertura fotojornalística, a fotógrafa conta que “tudo que era sólido desmanchou com a inundação”. Gaúcha de nascimento, mas radicada no Rio de Janeiro, Mirian havia viajado ao Sul, naquela ocasião, para visitar a família. Pouco mais de dois anos depois daquela viagem, seu livro de fotografia será lançado nesta quinta, 25 de junho, na Cinemateca Paulo Amorim, juntamente com a exibição do documentário de curta-metragem homônimo dirigido por Mirian e premiado em festivais.

O Rio Grande do Sul estava submergindo e os gaúchos contabilizavam o incalculável de suas perdas. Sem água e sem luz por dez dias, eu presenciava o inimaginável: o maior desastre por inundação da história do estado, e também um dos maiores ocorridos no Brasil”, relembra a fotógrafa, traduzindo em palavras o cenário de horror presenciado por seu olhar aguçado e suas lentes sensíveis.

O filme, assim como o livro, vai além de um registro histórico, mergulha no olhar dos atingidos pelas enchentes, tecendo um inventário dos medos, traumas na vida dos que perderam tudo, especialmente as populações periféricas negras, mulheres, idosas e crianças – vítimas preferenciais dos eventos extremos.

Chovia ininterruptamente há mais de uma semana. Nas periferias e na região metropolitana, os pássaros pararam de cantar. Os cães não latiam. Nada mais parecia ter vida nestes lugares, a não ser a água. O silêncio sinistro e perturbador só era rompido pelo som da urgência dos helicópteros e das ambulâncias. Profissão repórter: me senti convocada. À revelia do luto pela morte recente de minha mãe, fotografar tornou-se imperativo”, refletiu a jornalista e fotógrafa experiente, com uma carreira dedicada ao jornalismo e à arte.

Além de textos de Fichtner e Chiodetto, os cientistas Carlos Nobre, climatologista e uma das maiores autoridades mundiais em aquecimento global, e José A. Marengo, uma das principais referências científicas do país sobre mudanças climáticas e prevenção de desastres, contextualizam a tragédia das enchentes, com dados estatísticos, estudos e pesquisas.

No texto de Nobre e Marengo, os dois afirmam que o livro e o filme são importantes ferramentas, através das fotografias e do audiovisual, para a conscientização sobre as mudanças climáticas e a urgência de sensibilizar e preparar as populações para os eventos extremos. “Se não mudarmos o rumo do aquecimento global e das práticas devastadoras do meio ambiente, muitas regiões, com o estado do Rio Grande do Sul se tornarão inabitáveis”, diz um dos trechos assinados pelos cientistas.

As imagens de Mirian Fichtner são um relato poético, triste, belo e verdadeiro da enchente de 2024. E, sobretudo, respeitoso: “A minha sensação era a de estar em um filme de terror, documentando o fim do mundo. Evitei fotografar as pessoas e mostrar seus rostos dilacerados pela dor. Entendi, olhando em seus olhos, que uma fotografia dessas iria simbolicamente prendê-los eternamente àquele momento. Não os fotografar naquela situação era o único manifesto de esperança que eu poderia oferecer. Sim, há imagens que não devem ser feitas. Foi algo que aprendi naqueles dias, diante da dor dos outros”.

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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