ODS 1
Em tempos de IA e redes sociais, o desafio de encontrar os pequenos leitores


Hábito de leitura cai no Brasil, mas especialistas veem caminhos para o retorno do prazer de ler entre os jovens


As irmãs Michelle e Louise, de 14 e 8 anos, respectivamente, são conhecidas pela família por dividirem uma mesma paixão: os livros. Embora com pouca idade, as pequenas leitoras já possuem uma admirável trajetória na literatura. Michelle, a mais velha, começou a ler aos quatro anos, e a mais nova, Louise, no ano passado, com sete. Ambas ressaltam o papel da família como um fator importante para a adoção do hábito, uma vez que a leitura nunca foi imposta como uma obrigação. A mãe, Yohanna, apesar de ter sido contrária a alfabetização precoce das filhas, conta que não tentou impedir a primogênita, Michelle, de mergulhar nos livros e conta, com orgulho, que ela foi primeira da sala a começar a ler.
Leu essa? Como a IA impacta o trabalho de professores e a relação de adolescentes com o aprendizado
Enquanto Michelle gosta mais dos livros de romance e fantasia, Louise prefere os de ação e aventura. Quando questionadas sobre a razão pela qual leem, Michelle conta que os livros possibilitam uma viagem para um novo mundo, principalmente quando há a presença de um personagem narrador, que oferece uma absorção ainda maior do que está sendo contado. “Me traz a sensação de como se eu estivesse vivendo a história também”, diz.


Tanto Michelle quanto Louise acreditam que o hábito de ler pode influenciar positivamente no desempenho escolar dos alunos. “Principalmente em matérias como português e redação”. Michelle explica que o contato diário com os livros possibilita a extensão do vocabulário e a familiarização com linguagens que se distanciam da coloquial, além de auxiliar no aprendizado de novos idiomas.
As irmãs acreditam que o hábito de ler, além de trazer inúmeros aprendizados, pode oferecer experiências de imersão, de contato com o imaginário, e ainda reforçam que a prática da leitura deve ser exercida por mais jovens. “Tentem ler pelo menos 4 livros por ano, acho que ajuda muito pessoas com ansiedade, desacelera um pouco a mente”, afirma Michelle.
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Veja o que já enviamosQuanto ao uso das redes sociais, ambas relatam que têm acesso somente ao WhatsApp, onde trocam mensagens com os amigos. Segundo elas, tanto os colegas da escola quanto os da vizinhança também demonstram curiosidade pela literatura. Mas admitem que, apesar do interesse, estes passam mais tempo nas redes sociais do que lendo livros.
Na opinião de Louise, os sites e as redes sociais não parecem ser tão interessantes quanto os livros e afirma, com alguma segurança, que pretende manter o hábito da leitura ao longo da vida, como uma espécie de companheiro para as horas vagas. Para Michelle, a realidade é outra. Embora seja uma leitora fiel, de longa data, já demonstra sinais de preocupação em relação ao seu futuro com os livros. “Depende de como vai estar a minha rotina de estudante nos próximos anos”. A irmã mais velha conta que, apesar de desejar continuar com hábito, talvez não consiga conciliá-lo com as suas demandas escolares e, futuramente, acadêmicas. A história das duas irmãs abre as portas para uma discussão cada vez mais presente e necessária: a importância da literatura para o público infanto juvenil, frente aos acelerados avanços tecnológicos e, consequentemente, ao crescente uso das redes sociais.
Um Brasil que lê menos
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, tem como objetivo analisar o comportamento do leitor brasileiro. Em 2024, quando foi publicada a sua 6ª Edição, constatou-se que o número de leitores do país caiu de 56% para 47%, sendo a primeira vez, desde 2007, que o grupo de “não leitores” é maior do que o de “leitores”.
Tal redução revela-se difundida independente da faixa etária, gênero, escolaridade, classe e renda, entre estudantes e não estudantes. Evidenciando, portanto, uma questão generalizada, e não específica de determinados grupos. No que se refere ao público infanto juvenil, embora não tenha sido registrada redução no percentual de leitores da faixa etária entre os 11 e 13 anos, houve uma diminuição significativa entre a população com 5 a 10 anos, e com 14 a 17 anos. Torna-se assim, necessário investigar as raízes da situação, buscando por respostas que revelem a razão pela qual a leitura está deixando de ser adotada pelos pequenos, e porquê os mais velhos estão abrindo mão de tal hábito.


Simultaneamente, há a presença cada vez mais intensa das redes sociais na vida dos Indivíduos, especialmente dos jovens. A pesquisa Retratos da Leitura também revelou o que as diferentes faixas etárias gostam de fazer durante o seu tempo livre. Não só os adultos e os idosos, como as crianças e os adolescentes indicaram que preferem utilizar a Internet, o WhatsApp/Telegram ou então assistir à televisão. É importante sinalizar que, tanto os “leitores” quanto os “não leitores”, ao serem questionados sobre a razão pela qual não leem mais, responderam que é devido à falta de tempo.
Afeto: Uma porta para a leitura
Isabella Zappa, pedagoga, psicopedagoga e mestre em Educação pela PUC-RIO, além de especialista em leitura para crianças e jovens pelo Instituto Vera Cruz-SP, explica que o afeto tem um papel de extrema relevância quando se trata da adoção do hábito da leitura pelo público infanto juvenil. Tendo trabalhado durante 15 anos como professora da Educação Básica em escolas particulares, Zappa conta algumas de suas observações e experiências vividas em sala de aula. A entrevistada aborda, em um primeiro momento, com o objetivo de contextualizar o conteúdo de sua fala, a drástica mudança que as crianças sofrem durante a transição do ensino fundamental 1 para o 2. É explicado como, do primeiro ao quinto ano, o aluno tem um professor que é responsável por todas as questões que o envolvem, ou seja, além de dar aulas de língua portuguesa, matemática e história, por exemplo, o profissional acompanha o contato da criança com a literatura, leva os alunos até a biblioteca e orienta no processo de escolha dos livros. Logo, está ciente do perfil de cada um de seus alunos.
“Quando você chega no sexto ano, tem seis professores especialistas e ninguém olhando para aquela criança”. Zappa explica que a leitura fica, exclusivamente, nas aulas de língua portuguesa, nas quais o professor propõe aos alunos os livros clássicos, faz algumas perguntas e coloca uma proposta de escrita. Entretanto, ninguém vai levá-los à biblioteca, saber pelo que estão optando e lendo. “E ao mesmo tempo, é um momento que eles querem fazer coisas diferentes, a leitura vira algo relacionado à escola, então acabam se afastando um pouco dela”, diz.
Ao longo de todos os seus anos de estudo, acompanhado de inúmeras conversas com outros especialistas, Zappa concluiu que “o afeto é uma grande porta para a leitura”. Ela explica que as famílias, ao verem seus filhos crescerem, acreditam que não seja mais necessário a leitura em conjunto, isto é, ler o livro lado a lado, compartilhar perspectivas e opiniões sobre a obra, criando, assim, um distanciamento em relação ao hábito de ler de seus filhos. “A partir do momento que a criança já lê, as famílias acham que é só pôr o livro nas mãos dela e pronto”. É reforçado que os responsáveis devem sempre buscar pela experiência compartilhada, em acompanhar a jornada literária da criança, visto que se tal não for feito, é possível que, ao se encontrar sozinha no processo, ela acabe se desinteressando pelos livros.


A profissional, frente aos desafios enfrentados em meio às redes sociais, relata que vem intensificando o trabalho de leitura com os seus alunos particulares, tanto com os mais novos, quanto com os mais velhos, fazendo com que eles leiam um livro com ela, independentemente do fato de estarem estudando matérias relacionadas à literatura ou não. Ela propõe que, juntos, leiam uma parte do livro, e como dever de casa, que os alunos leiam mais 10 páginas, para que na semana seguinte compartilhem como foi a experiência.
Ela destaca os benefícios que o professor, ao ir construindo aos poucos esse hábito, traz para a criança. Zappa explica que a entonação é muito importante para a compreensão da história sendo narrada. “Porque muitas vezes a criança ou o adolescente lê sozinho e não entende o que lê, e se ele não entende, não acha graça, larga de mão”. Logo, o professor ou a família, tendo esse cuidado em ler para eles, fazendo a voz do personagem e dando ênfase na entonação, até quando eles são um pouco mais velhos, auxilia enormemente no nível de atenção, faz com que eles se prendam, sejam cativados pela obra.
Da Internet à falta de políticas públicas
Ao referir-se aos vídeos curtos que circulam na Internet, em plataformas como o Instagram e o TikTok, Zappa comenta que a atenção do indivíduo sofre significativas alterações. Ela explica que o leitor que assiste a tais vídeos por um longo período, depois passa ter dificuldades de concentração. “A leitura é zero passiva, ela precisa que você se conecte com o texto, com o autor, com o que você já conhece, com as suas experiências e seus sentimentos, não é fácil”, enfatiza.
Ainda sobre os desafios enfrentados, Zappa, que é idealizadora do projeto “Na corda bamba Literatura e Educação”, que promove a divulgação de obras, autores e a formação de leitores e mediadores, trabalhou durante 2 anos na formação de professores de escolas municipais do Rio de Janeiro. Ela explica que, embora haja um estereótipo sobre tais escolas em relação à literatura, no qual se imagina que não há bibliotecas tampouco livros disponibilizados aos alunos, a realidade é outra. As escolas possuem salas de leitura impecáveis, com um acervo impressionante, prontas para receberem os estudantes, entretanto, por questões administrativas, estas encontram-se trancadas.
Zappa explica que para uma sala de leitura funcionar, é necessário a presença de um profissional específico, conhecido como professor de sala de leitura. Devido à falta de professores em sala de aula nas escolas, eles são realocados e as bibliotecas encontram-se sem administração. Embora os alunos façam, ocasionalmente, visitas às salas de leitura, não têm a permissão de levar os livros para casa. Para Zappa, isto dificulta a criação de um laço, a conexão e o aprofundamento por parte dos alunos com a literatura, fazendo com que estes sejam privados da experiência completa.
Sobre o papel das escolas na adoção do hábito da leitura pelos alunos, Zappa comenta que é importante a criação de uma rotina de leitura, um currículo aprofundado e abrangente, pensar na obra literária todos os dias em sala de aula, de alguma forma, fazendo com que o livro esteja sempre em cima da mesa. “É dia a dia, uma construção diária. Conforme esse aluno vai crescendo, você vai expandindo a curadoria e apresentando livros mais profundos”.
Zappa ainda propõe que a literatura deva ser inserida em todas as disciplinas, dando como exemplo as aulas de história. Ao estudar sobre a Segunda Guerra Mundial, ela sugere que seja apresentado aos alunos o “Diário de Anne Frank”, como uma iniciativa de expandir as diferentes formas de aprendizado, buscando por inovações que se aproximem cada vez mais da literatura. “Eu acho que é isso, um projeto institucional de formação de leitores, que vai levar em conta que o livro tem que estar o tempo todo na vida deles, cotidianamente”, argumentando que o hábito de ler não pode estar à margem. Por último, e não menos importante, Zappa afirma que a presença do outro é a chave fundamental. “Porque ler sozinho não transforma ninguém. O que transforma as pessoas é a conversa sobre o que foi lido”.
Leitura é importante mas não determinante
“Os livros na minha infância foram a ponte para o mundo que eu não conhecia, dentro da minha realidade muito restrita”. Juli Mariano, bacharel em psicologia pela Universidade Santa Úrsula, além de psicanalista (SPAG-RJ) e psicopedagoga (Universidade Estácio de Sá), é também leitora voraz desde os seus 4 anos de idade. Com um olhar sensível e abrangente, a profissional explica que embora a leitura seja de extrema importância para o público infanto juvenil, não pode ser colocada como um fator determinante, abordando ainda, como o uso desenfreado das redes sociais, quando feito pelo jovem, impacta significativamente o seu desenvolvimento cognitivo.
“A leitura é uma grande aliada, tanto da saúde física e mental, quanto da emocional”. Mariano argumenta que o hábito da leitura vai muito além de desenvolver a parte intelectual, quando a criança, ou adolescente, lê, ela tem a oportunidade de entrar em contato com as suas próprias emoções, de conhecer seu íntimo. Os personagens podem dar voz aos sentimentos do leitor, fazendo com que este não se sinta mais tão sozinho frente às suas questões pessoais. A profissional conta que é comum ver crianças pedindo para os seus cuidadores contarem a mesma história repetidas vezes, que pelo fato dela já saber o final, ouvir a mesma narrativa com frequência, ela transmite uma sensação de paz. “Então olha que barato, a identificação que uma leitura pode trazer, o conforto e a possibilidade de nomear as próprias emoções”.


Juli Mariano, entretanto, aponta, com atenção, que não se deve estigmatizar os jovens que não leem, visto que as diferentes realidades vividas por eles nem sempre proporcionam o contato direto com a literatura. “Eu tenho experiências com muitas crianças e adolescentes que não tiveram nenhum contato com a leitura, e claro que poderiam ter ido muito além nas suas vidas, mas nem por isso deixaram de ter todas as suas habilidades desenvolvidas”. Logo, por se tratar de uma questão socioeconômica, não se pode colocar a leitura como um fator determinante.
Mariano explica que, sem dúvidas, o hábito da leitura abre um mundo de possibilidades, tanto em relação ao mundo exterior, quanto ao próprio mundo interno, entretanto, não é justo colocar aqueles que leem, ou que tiveram os meios necessários para acessar os livros, em um pedestal. “A leitura é muito importante, ela só não é determinante para que uma pessoa tenha essas habilidades, porque, caso contrário, a gente cria um abismo entre as pessoas que não têm esse acesso”.
A entrevistada esclarece que os cuidadores são figuras importantíssimas para a adoção de tal hábito, uma vez que os filhos que crescem vendo seus pais lendo, desenvolvem uma certa naturalidade com os livros. Embora Mariano afirme que não são apenas os cuidadores que desenvolvem tal papel, visto que estes podem não ter tido contato com a leitura, ou então não terem tido acesso à alfabetização. “Então ter uma figura de cuidado que estimule, seja ela a bibliotecária ou a irmã mais velha de uma amiga, é muito importante”. A profissional conta que já teve contato com crianças que foram a primeira geração de leitores da família, devido ao incentivo de seus professores, exemplificando como tal estímulo é essencial para os jovens. Porém, ela pontua que, embora seja necessário ressaltar a importância do papel dos cuidadores, ou das figuras de cuidado, em relação à adoção do hábito de ler, também não deve ser apontado como um fator determinante.
O lugar da literatura em tempos de tecnologia
A pesquisa TIC Kids Online Brasil, que tem como objetivo principal analisar o uso da Internet por crianças e adolescentes no Brasil, evidenciou, em 2024 que, de 93% das crianças e adolescentes que utilizam a Internet, 83% têm contas em redes sociais, como nas plataformas digitais WhatsApp, Instagram, TikTok e Youtube.


Tal uso, feito de forma precoce e, muitas das vezes, excessivo, sem nenhum tipo de monitoramento, pode acarretar uma série de desafios, psicológicos e emocionais, principalmente quando trata-se do público infanto juvenil, este que ainda se encontra em fase de desenvolvimento e amadurecimento, não possuindo as ferramentas psíquicas necessárias para acessar determinados conteúdos livremente. Além disso, ao priorizarem o ambiente virtual, deixam de lado outras atividades, sejam elas físicas ou criativas, como a prática de um esporte ou a arte de desenhar, que podem auxiliar enormemente no bem-estar do indivíduo.
“Poxa essa é uma questão tão importante, tão delicada, e às vezes tão difícil, que é esse excesso do uso das redes sociais pelos jovens, como se fosse a única janela possível para o mundo. E não é, porque as redes sociais têm objetivos”. Mariano reforça a noção, às vezes esquecida, de que as redes sociais não são um retrato da realidade, visto que passam por diversas manipulações. É necessário atentar-se à existência do algoritmo, e até mesmo ao próprio formato das redes sociais, que está sempre induzindo os usuários. A profissional explica que isso limita a liberdade do jovem de pensar, a liberdade de fazer escolhas, uma vez que é guiado pelo que o algoritmo pretende.
“É muito difícil lidar com isso, porque quem vive somente de redes sociais, se você já não vem apresentando outra realidade, não tem parâmetro, acha que a vida é só aquilo que as redes sociais apresentam”. Mariano, ao mencionar que muitas famílias afirmam não ter controle sobre tal uso feito pelos filhos, explica que apesar de nem sempre terem controle, por outro lado têm a oportunidade de propor novas dinâmicas. Sejam elas em casa ou ao ar livre, um lanche coletivo, uma tarde de jogos, uma ida ao teatro ou ao circo, já são formas de apresentar outros mundos, outras formas de vivenciar a experiência humana.
Os impactos do vício
“O vício não é uma consequência das redes sociais, as redes sociais são projetadas para despertar esse vício, essa que é a questão”. Quanto à dependência, principalmente entre os jovens, em relação às redes sociais, Mariano explica que tais plataformas são viciantes pois são desenvolvidas com tal objetivo, o de disparar estímulos no cérebro. A profissional destaca que o tempo todo isso é revisto. As redes sociais passam por frequentes atualizações, estão sempre se modificando a fim de se tornarem mais atrativas e, dessa forma, ativarem o sistema de recompensa do cérebro dos usuários, levando a um prazer imediato. Contudo, tal prazer é curto, e faz com que o usuário precise imediatamente entrar em contato com outra coisa que gere prazer.
A entrevistada reforça a seriedade da questão, principalmente para os jovens, uma vez que ainda estão no processo de formação física e psicológica. “Então se o cérebro é formado o tempo todo em cima de respostas rápidas de recompensa, o indivíduo vai ter a tendência em querer respostas rápidas de recompensa em tudo, tudo tem que ser novo, rápido e prazeroso de alguma forma”, diz.
É esclarecido que as redes sociais usadas sem critérios e limites, podem desencadear graves impactos no desenvolvimento cognitivo das crianças e adolescentes. A profissional destaca a presença, cada vez mais frequente, de casos em que jovens têm dificuldades de atenção, uma vez que ao acessarem as redes sociais com frequência, em que tudo é muito rápido, não conseguem se prender à nada que seja um pouco mais demorado.


Divulgação/Montagem Pedro Zambarda/Drops de Jogos.
“Se a gente não tem outros parâmetros, só têm as redes sociais como uma leitura da realidade, a gente não tem senso crítico”. Mariano acrescenta que a formação do senso crítico é prejudicada, impossibilitando o jovem de julgar o que ele está vendo, uma vez que só recebe aquele tipo de informação. Outra questão é a criatividade. Quando a criança ou o adolescente tem a oportunidade de entrar em contato com os livros, ou até mesmo um caderno e uma caneta, o lado criativo é desenvolvido com uma maior profundidade. Diante de uma tela, não é que o jovem não possa, mas torna-se muito mais limitado. Entretanto, Mariano também defende que as redes sociais podem ser uma excelente ferramenta. É feita uma observação importante, na qual é exemplificada que determinados jogos online, sob supervisão, em um determinado contexto, podem ser extremamente benéficos, inclusive para trabalhar o foco. A profissional relata experiências que teve com crianças com TDAH que apresentavam dificuldades em se concentrar. Entretanto, ao serem introduzidas a jogos online, que prendem a atenção do indivíduo, Mariano observou que estas se encontravam absolutamente concentradas, sem nenhum sinal de distração. Logo, com um bom direcionamento, tudo é possível.
Portanto, para que o uso seja feito da forma mais saudável possível, é de extrema importância que os adultos interfiram no processo de introdução às redes sociais, delimitando horário de uso e de tempo. A ideia de que uma criança exerce sua própria autonomia, ou que é possível que os cuidadores trabalhem em tal, é equivocada, uma vezque a criança ainda não está emocionalmente apta para lidar com os conteúdos das redes sociais. Já com o adolescente, o cenário é um pouco diferente. É possível, aos poucos, e sempre com acompanhamento, introduzi-lo às redes sociais. Ao invés de proibir, buscar pelo diálogo, construir um ambiente seguro e confortável para todos.
Livros e redes sociais podem coexistir?
“Nossa, é totalmente possível e desejável a gente conciliar, porque tudo é o equilíbrio”. Quando questionada sobre a possibilidade de conciliar o hábito de ler com o uso das redes sociais, Mariano explica que, como as novas tecnologias persistem contemporaneamente, aprender a lidar com elas é a melhor solução. Logo, visando uma positiva conciliação, ela recomenda que, ao se desligar das redes sociais antes de dormir, se escolha um livro para ler, ou então ao acordar, para acompanhar o café da manhã. Até mesmo durante os intervalos do dia, para aqueles que possuem rotinas corridas, com jornadas extensas de trabalho.“É uma coisa sensacional, porque o livro é um companheiro, ele te lembra que não há limites para você desejar, sonhar e realizar”.
Mariano, em suas últimas reflexões, a fim de compactar o que foi discutido, explica que a leitura é importante pois “quem lê mais escreve melhor, fala melhor, se comunica melhor, se autopercebe melhor, porque já identificou através de personagens, através de livros, inclusive didáticos, as suas próprias emoções, reconhece o que está no mundo, percebe a realidade de outra forma”.
A entrevistada, ao concluir sua fala, expressa a sua imensa gratidão pela literatura e que, por ser apaixonada por livros, vê o quanto isso é importante na formação de uma pessoa. “E é tão maravilhoso que eu volto a dizer, já tive contato com pessoas que não tiveram referências leitoras na família e que se apaixonaram por livros e se tornaram grandes leitoras”.
Apesar da realidade alarmante, na qual a literatura se vê frente à uma série de desafios, causados, em sua maioria, pela dominação das redes sociais, é importante destacar o surgimento de novos pontos de resistência. Em um país onde nem todos possuem as mesmas oportunidades, muito menos acesso em larga escala aos livros, torna- se necessário buscar novas formas de driblar as desigualdades sociais, econômicas e culturais.
É com esse viés, visando o máximo alcance da literatura para a população, para que assim, todos possam desfrutar da incrível experiência que é ter um livro em mãos, que são criados projetos que viabilizam tal acesso. De forma gratuita, tanto para crianças e adolescentes, quanto para aqueles que sempre desejaram o contato com os livros, porém nunca tiveram os meios necessários, o projeto Força para Crescer: Pontos de Leitura torna o sonho de milhares de pessoas, em realidade.
O Força para Crescer: Pontos de Leitura, nasceu a partir da noção de que o índice de analfabetismo funcional no Brasil precisa ser erradicado. O projeto propõe eventos literários, com ênfase na cultura e na educação, além da construção de bibliotecas comunitárias, buscando, assim, o surgimento de novos leitores, e a consolidação do hábito da leitura no país. Em março de 2025, o projeto inaugurou na favela Santa Marta, localizada no Morro Dona Marta, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, uma nova biblioteca comunitária. A notícia, veiculada pelo portal Drops de Jogos, (https://dropsdejogos.uai.com.br/noticias/cultura/morro-santa-marta-ganha-biblioteca- comunitaria-com-projeto-forca-para-crescer/), explica que o espaço é preparado para a recepção de eventos como saraus e contação de histórias, que por sua vez, proporcionam aos visitantes uma experiência imersiva no universo literário.
(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.
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Celine Schnabl
Celine Schnabl é jornalista em formação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e extensionista no projeto Cinerama UFRJ. Apaixonada por música, fotografia e cinema, tem forte interesse no âmbito do jornalismo cultural com foco na atividade crítica. Acredita que ao consumir, interpretar e escrever sobre arte, é possível realizar uma maior reflexão acerca das questões da vida.





































