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Veja o que já enviamosCopa do Mundo 2026 provoca a volta do pachequismo e do complexo de vira-latas
Mesmo com tropeços da seleção, febre coletiva atinge até de quem não gosta de futebol no Brasil
Como escrevi em 2022, adoro Copa do Mundo, muito por suas histórias, glórias e misérias, que mudam e encantam a cada quatro anos. Mas, para não me repetir, nem pretendia escrever sobre este inchado Mundial agora, quando ele ainda está no começo, com excesso de jogos medíocres só para ajudar a Fifa a faturar. Só que, por mais que eu tente me concentrar apenas no futebol, os brasileiros entraram num estado de frenesi pela Copa do Mundo, mesmo com o Brasil sem vencer há 24 anos, mesmo com a preparação tumultuada da seleção e participação medíocre nas Eliminatórias, mesmo quando 2026 começara sem esse clima todo.
Leu essa? Mário Filho e o futebol: o espírito carioca do ‘criador de multidões’
Não consegui fugir do assunto porque, com este bombardeio midiático por essa multidão de plataformas e telas do século 21, parece que todos os brasileiros não têm outro assunto, inclusive os que não gostam de futebol, implicam com a seleção e não estão aí para a pátria com ou sem chuteiras. O pior é que, como escreveu Nelson Rodrigues há quase 70 anos, tratando da seleção que partia para disputar a Copa do Mundo de 1958, “o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética”.
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Na verdade, essa febre coletiva – como a dos álbuns de figurinhas – costuma se repetir a cada quatro anos. Foi bobagem minha achar que talvez este ano fosse diferente porque havia um clima de indiferença no começo desse ano, inclusive pela falta de inspiração. Mas, de repente, começou a onda midiática e veio a febre coletiva – e, em tempos de redes sociais, as febres coletivas estão cada vez provocando mais delírios. E a convocação – ou não – de Neymar tomou conta das redes e mobilizou até as hordas da extrema direita que andam mais quietas, ruminando as verbas do cavalo escuro.
E, com Neymar convocado, começaram a aparecer surtos de pachequismo. Abro parêntesis na esperança de ter leitores mais jovens. Pacheco foi um personagem criado pelos publicitários para a lâmina de barbear Gillette para a Copa do Mundo de 1982 – representava o torcedor fanático, sempre vestido de amarelo-e-verde, apaixonado pela seleção, terrivelmente otimista e terrivelmente exagerado. O Brasil tinha uma seleção cheia de craques, uma das melhores de sua história. E perdeu para desespero da torcida que estava, na época, na vibe Pacheco mesmo.


Pachequismo virou sinônimo de torcedor apaixonado cedo e terrivelmente exagerado e otimista (fechando o parêntesis). Subitamente, pelo menos para mim, ressurgiram por aqui as ruas embandeiradas, os ambulantes vendendo todos os tipos de camisas da seleção, decorações em verde e amarelo até em farmácias e os Pachecos naquele clima de “o hexa vem aí”. Como assim? Nas resenhas das ruas, já começavam a chamar o técnico italiano da seleção de Mister – parece que Carlo Ancelotti gosta. Como assim?
Aí, começou a Copa do Mundo e o Brasil empatou com Marrocos – e o clima de esperança frenética deu lugar ao pessimismo obtuso. Não resisto e volto à mesma crônica de Nelson: “Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: ‘O Brasil não vai nem se classificar!'” – eram os comentários sobre uma seleção brasileira a caminho do Mundial da Suécia onde ganharia sua primeira Copa.
Por essas e outras, o escritor, dramaturgo e cronista esportivo é reconhecido como um dos maiores entendedores da alma nacional em geral e do torcedor brasileiro de futebol, em particular. Foi nesta crônica, de maio de 1958, na Manchete que Nelson Rodrigues criou a expressão “complexo de vira-latas”, incorporado à nossa rotina. “Por ‘complexo de vira-latas’, entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol”.
Poderia falar de muitos patrícios que gostam de alimentar isso, por interesses escusos ou piores, mas fiquemos no esporte. A seleção de Marrocos foi semifinalista da Copa do Mundo 2022 (o Brasil ficou nas quartas) e é a atual campeã mundial sub20 (o Brasil foi eliminado na primeira fase). Os marroquinos têm uma base sólida, muitos jogadores nas principais ligas do mundo. A seleção brasileira não jogou bem, mas não era nenhuma tragédia empatar com Marrocos. E o pachequismo reapareceu uma semana depois, com a vitória fácil do Brasil sobre o Haiti – imaginem se tivesse sido a goleada que chegou a se desenhar,


Mas o mais impressionante é que a febre coletiva parece ir muito além da seleção brasileira, pachecos e vira-latas. Meus despretensiosos comentários postados sobre os jogos da primeira foram objeto de mensagens de amigos que nem gostam de futebol, nem sabem que é o careca presidente da Fifa, nem mesmo que os dois melhores jogadores da seleção nas Eliminatórias – Rodrygo na era Dorival, Estevão na fase Ancelotti – estão fora da Copa por lesão (uma das razões para minhas poucas esperanças no hexa).
Fui cobrado porque não falei de Vozinha, o goleiro de Cabo Verde que fez um par de boas defesas – não mais do que isso, nada realmente espetacular – no 0x0 contra a favorita Espanha mas que, por conta da febre coletiva brasileira, ganhou 12 milhões de seguidores de uma hora para outra nas redes sociais, com campanha da CazéTV, a única a transmitir todos os jogos da Copa do Mundo por aqui. A história de Vozinha é muito boa, como quase todo mundo já sabe e está também aqui no #Colabora.
E a Copa do Mundo revela muitas outras – apesar do Trump, da Fifa, da ganância, do capitalismo, do excesso de jogos, dos torcedores xenófobos, racistas e misóginos. Apesar do pachequismo e do complexo de vira-latas. Melhor não resistir e aproveitar as boas coisas que o esporte oferece.
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