Tortura de animais on-line alimenta radicalização de crianças e adolescentes

Foto colorida de um filhote de gato escondido em um sofá, com cara de assustado. Tortura de animais cresce em plataformas digitais

Levantamento identifica mais de 83 mil links com conteúdos de maus-tratos compartilhados em plataformas digitais

Por Micael Olegário | ODS 15
Publicada em 8 de junho de 2026 - 09:34  -  Atualizada em 8 de junho de 2026 - 09:50
Tempo de leitura: 8 min

Foto colorida de um filhote de gato escondido em um sofá, com cara de assustado. Tortura de animais cresce em plataformas digitais
Maioria dos casos envolve filhotes de gatos; mobilização pressiona por legislação mais eficaz (Foto: Magnific)

Transmissões ao vivo em que adolescentes torturam animais têm se espalhado em plataformas digitais. Investigações do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD), da Polícia Civil de São Paulo, apontam que entre 10 e 15 animais são mortos ou submetidos a violência extrema por noite, principalmente, em servidores do Discord e grupos fechados de aplicativos de mensagens.

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O zoossadismo – termo usado para descrever esse tipo de violência contra animais – é descrito como uma das etapas na escalada da dessensibilização e radicalização de crianças e adolescentes, principalmente, em ambientes digitais. 

Em última escala, os maus-tratos contra gatos e cachorros, por exemplo, impulsionam outras situações que afetam a segurança de jovens na internet, como automutilação, estupro virtual, incentivo ao suicídio, exploração sexual e apologia à violência extrema.

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Levantamento realizado em 2024 pela Coalizão contra a Crueldade com os Animais nas Redes Sociais (SMACC, na sigla em inglês) identificou mais de 83 mil links contendo conteúdo de crueldade animal em 11 grandes plataformas digitais. 

No Brasil, registros da Polícia Civil de São Paulo indicam que os casos de maus-tratos contra animais veiculados na internet cresceram 120% desde 2024. Foram 175 casos registrados pelo NOAD em 2024, número que passou para 340 em 2025 e continua aumentando.

Falta de moderação

Delegada responsável pelo NOAD, Lisandréa Salvariego explica que a investigação começou a partir de ataques cometidos por adolescentes em escolas, em 2023. Ao vasculhar as plataformas digitais usadas por esses menores infratores, os policiais notaram a presença frequente do zoossadismo.

O Discord não remove imediatamente e se remove demora muito. Ou seja, o gatinho ou cachorrinho – sempre filhote – já foi morto

Lisandréa Salvariego
Delegada da Polícia Civil de São Paulo

As investigações conduzidas pelo núcleo indicam que cerca de 90% dos autores identificados são adolescentes e jovens, enquanto aproximadamente 90% dos animais vítimas desses crimes são gatos, principalmente filhotes.

“É a porta de entrada tanto para dessensibilização quanto para outras práticas criminosas, como a automulação ou indução ao suicídio de outras crianças e adolescentes, naquilo que eles chamam de desafios”, explica Lisandréa. Essas trends de desafios costumam circular em diversas plataformas, como Instagram e TikTok.

A delegada pontua que o Discord é a plataforma mais utilizada para esse tipo de transmissões, em virtude da sua organização voltada ao compartilhamento de telas, pensada para o universo gamer. Além disso, a falta de critérios mínimos de moderação facilita a proliferação desses conteúdos.

“Dentro da plataforma, qualquer um pode montar um servidor. Nós identificamos um em que um gatinho estava sendo torturado a mais de meia hora”, conta Lisandréa. Enquanto a tortura acontece, outros jovens assistem e alguns sugerem ações para o autor.

Foto colorida que mostra um gato no lado esquerdo da imagem, com um computador do lado direito. No computador, é possível ler a mensagem: "Maus-tratos não é conteúdo. É crime".
Mobilização entre organizações de diferentes países busca chamar atenção para a crueldade contra animais em ambientes digitais (Foto: Divulgação / Imagem gerada por IA)

Mobilização da sociedade civil

Uma mobilização liderada pelo Instituto Ampara Animal pretende pressionar plataformas e aprimorar a legislação sobre crimes digitais que envolvem crueldade contra animais. A iniciativa internacional, batizada de “Animal Safety”, conta com a participação de organizações, protetores independentes, ativistas e especialistas.

“A internet não pode continuar sendo um ambiente onde a crueldade vira conteúdo e gera engajamento. Precisamos endurecer as leis e responsabilizar quem produz e quem permite que crimes contra animais sejam exibidos e incentivados nas plataformas digitais”, afirma Juliana Camargo, presidente do Instituto Ampara Animal.

Um dos eixos da campanha é o PL 1043/2026, redigido pelas organizações e proposto na Câmara pelo deputado federal Matheus Loiola (União-PR). O texto prevê a criação de uma Política de Prevenção e Repressão a Crimes Cibernéticos contra Animais

O texto visa estabelecer medidas preventivas e de responsabilização. A proposta considera diferentes tipos de conteúdo digital: imagem, vídeo, transmissão ao vivo, áudio, texto, e/ou produções feitas com inteligência artificial (IA) que promovam maus-tratos e/ou morte de animais. A mobilização inclui também uma abaixo-assinado, atualmente com cerca de 62 mil assinaturas.

Foto colorida que mostra ícone do Discord em tela de celular. O ícone é circular, nas cores azul e branco, com um desenho que parece um rosto e um console. Zoossadismo cresce em servidores do Discord
Falta de moderação é apontada como motivo para conteúdos de zoossadismo se proliferarem no Discord (Foto: Ivan Radic/Flickr)

Responsabilização

A proteção de crianças e adolescentes na internet levou à aprovação do chamado ECA Digital, instituído pela lei 15.211/2025. Apesar de trazer diferentes avanços do ponto de vista da responsabilização das plataformas, por exemplo, a nova norma não trata do acesso à conteúdos de maus-tratos contra animais por crianças e adolescentes na internet.

Lisandréa lamenta a pouca cooperação das plataformas e a lentidão nas ações. “O Discord não remove imediatamente e se remove demora muito. Ou seja, o gatinho ou cachorrinho – sempre filhote – já foi morto”. Ela compara com os filtros que identificam letras de músicas e, rapidamente, geram a remoção dos conteúdos e a notificação dos responsáveis.

“Não estamos pedindo muito…Se não fornecer esse acesso para a criança e o adolescente, e ter esse sistema de filtro, da mesma forma que as plataformas fazem com relação às marcas e aos direitos autorais, por exemplo, já seria muito importante”, acrescenta a delegada.

Em nota enviada à reportagem do #Colabora, o Discord afirma que “mantém políticas rigorosas que proíbem o abuso de animais e outros conteúdos prejudiciais, por meio de sistemas robustos de fiscalização e moderação”. O texto não menciona detalhes sobre esses mecanismos.

Ainda segundo a plataforma, “a segurança é uma prioridade para o Discord e seguimos comprometidos em continuar investindo em ferramentas avançadas de segurança e tecnologias de detecção proativa para ajudar a criar um ambiente mais positivo e seguro para nossos usuários no Brasil”.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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