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Um verdadeiro gol na Copa: tirar o futuro dos jovens das mãos das bets

Em dia de jogo da seleção, a única vitória que realmente importaria no agora é resgatar a juventude da máquina de moer sonhos

ODS 10 • Publicada em 19 de junho de 2026 - 09:30 • Atualizada em 19 de junho de 2026 - 09:30

No país tido como o “do futuro”, uma geração cresceu escutando que o estudo era a única saída, e que a sala de aula era a possibilidade de elevador social. Só que num Brasil de desigualdades regionais, a tentativa de apresentar um projeto de longo prazo para um jovem que tem, na tela do próprio celular, a promessa piscante de ganhar um salário inteiro em dez minutos, tem sido ineficaz. Atualmente, 35% dos jovens simplesmente pausaram ou adiaram a graduação porque o dinheiro escorreu para as casas de apostas. Não é pouca coisa.

Assistimos então, de camarote, uma parcela inteira trocar a faculdade por um giro na roleta; uma gente que não consegue pagar a mensalidade (14% estão com boletos atrasados) tentando recuperar no “tigrinho” o que perdeu….ontem. O rombo não é só no bolso. Nos últimos cinco anos, a busca por atendimento no SUS para tratar vício em jogos saltou 140%. É desespero puro desaguando nos postos de saúde e clínicas da família.

A febre dos jogos digitais: um verdadeiro gol do Brasil seria tirar o futuro dos jovens das mãos das bets (Foto: Joédson Alves / Agência Brasil)
A febre dos jogos digitais: um verdadeiro gol do Brasil seria tirar o futuro dos jovens das mãos das bets (Foto: Joédson Alves / Agência Brasil)

Renato Barreiros, pesquisador e especialista em juventude, foi direto ao ponto sobre essa sangria ao participar do podcast Associativismo: “Eles adiaram a graduação na faculdade devido aos gastos com bets, ou seja, você tem jovens que vão entrar na faculdade, que não entram na faculdade e deixam entrar porque eles estão devendo por causa de gastos nas apostas. No Sudeste, isso sobe para 41%. Então você tem quase 50% dos jovens dizendo o seguinte: ‘ó, eu não consigo entrar na faculdade porque eu gastei meu dinheiro com o bet”.

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No entanto, é fácil culpar o jovem, chamar de “irresponsável” e virar a página, mas precisamos responder enquanto sociedade: o que ofertamos para que ele não crie essa dependência das bets? Qual alternativa damos para eles?

A escola, que deveria ser o contraponto, tem ampliado o nó da desigualdade. Uma reportagem recente da Folha, escrita por Rafael Cariello, jogou luz sobre o tema: nosso sistema escolar segrega, agrupa e pune quem já nasce com menos. Separa por CEP, divide por turma e, no fim das contas, entrega o pior ensino justamente para quem precisava do melhor. Pesquisas já deixam claro que essa baixa qualidade crônica das escolas ajuda a explicar a perpetuação da desigualdade e a expansão das favelas.

Quando a educação pública deixa de ser um caminho crível de ascensão e vira só um depósito de gente, é o cassino de bolso que entrar para preencher o vazio. A aposta, em si, oferece a ilusão de vitória imediata num país que tem o positivismo religioso como dogma, com educação precária e o mercado de trabalho informal que aumenta a todo minuto.

A febre das bets não é só um debate econômico ou de regulamentação digital. É crise de saúde pública e um desastre na educação. Pra hoje, dia da seleção jogar mais uma vez, o único gol que realmente importaria no agora, é o resgate da juventude. Afinal, se não barrarmos a máquina de moer sonhos, não vai ter prorrogação para o futuro de uma geração.

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