ODS 1
Em busca da escuridão: poluição luminosa ameaça sobrevivência de anfíbios no semiárido


Mapeamento identifica como a iluminação urbana desorienta espécies e aumenta risco de atropelamentos e ataques de predadores


As fases da Lua que inspiram tantos artistas humanos também exercem impacto nos comportamentos de anfíbios do semiárido no Piauí. Porém, a poluição luminosa das cidades tem afetado essas espécies de animais mais-que-humanos*, ao aumentar a exposição à predadores e ao risco de atropelamentos. Neste contexto, a escuridão passa a ser refúgio para a sobrevivência de sapos e rãs nativas.
Leu essa? A jornada de sobrevivência do sapinho-admirável-de-barriga-vermelha
Estudo publicado nesta sexta-feira (19/06), na revista Brazilian Journal of Biology, mostra que 60% das espécies de anfíbios avaliadas restringem suas atividades para os períodos lunares de menor luminosidade. O estudo é fruto de parceria entre cientistas da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e da ONG Bioma.
A equipe monitorou a rotina de animais durante 13 meses consecutivos no município de Floriano (PI), região de transição ecológica entre a caatinga e o cerrado. Ao todo, foram registrados 1.921 indivíduos de 12 espécies diferentes. A pesquisa teve como foco aspectos como a vocalização, os comportamentos reprodutivos e as escolhas ambientais desses anfíbios.
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Veja o que já enviamosOs dados foram cruzados com a chamada taxa de albedo lunar, índice que mede a quantidade de luz solar refletida pela Lua para a superfície da Terra. As conclusões indicam que a penumbra é essencial para a atividade externa e a sobrevivência desses seres mais-que-humanos. O estudo chama atenção ainda para a necessidade de planos de manejo e políticas governamentais de iluminação pública ecológica em biomas fragilizados.
O Brasil é o país com a maior diversidade de espécies de anfíbios do mundo, sendo 1.251 já registradas. No Piauí, são 54 espécies identificadas, número que pode estar subnotificado, em virtude do baixo número de pesquisas sobre a fauna de determinadas áreas da região. Somado a isso, a ação antrópica pode apagar histórias ainda nem conhecidas desses seres mais-que-humanos.


Poluição luminosa e reprodução
Doutor em Ciências Biológicas pelo Museu Nacional, Jonas Pederassi estuda anfíbios desde a graduação e foi um dos autores do estudo no semiárido do Piauí. “A maioria das espécies prefere essa fase com menor luminosidade para vocalização e essa é uma atividade reprodutiva. Os machos vocalizam para atrair as fêmeas, para então poderem se reproduzir”, explica o pesquisador.
A espécie mais observada no estudo da UFPI e da ONG Bioma foi o sapo-cururu (de nome científico Rhinella diptycha), que prefere as noites antes do quarto crescente da Lua. Ainda assim, existe uma exceção no caso da perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus), com maior atividade em períodos de lua cheia.
Existe ainda um dilema associado à iluminação pública de cidades e rodovias, que oferecem um banquete farto e fácil de para esses anfíbios, ao reunir nuvens densas de insetos. Contudo, essa dinâmica leva os anfíbios a ficarem no asfalto, o que os expõe ao risco de atropelamentos e a ação de predadores, como cães e gatos que circulam no ambiente urbano.
Ao mesmo tempo, a poluição luminosa pode inibir a reprodução e aumentar a taxa de mortalidade de determinadas espécies. “Diminui aquela população local e, cada vez mais, reduz a diversidade que a gente tem”, aponta Jonas. O pesquisador cita ainda a fama dos anfíbios como “asquerosos”, o que dificulta ações de conscientização e preservação.
O estudo realizado no semiárido do Piauí foi inspirado em pesquisa semelhante também com anfíbios, realizada na Serra da Mantiqueira, em área de Mata Atlântica. Publicada em 2021, a investigação mostrou que 78% das 37 espécies observadas foram afetadas pela taxa de albedo lunar, com 32% preferindo as fases mais escuras da Lua.


O desaparecimento dos vagalumes
Os anfíbios não são as únicas espécies mais-que-humanas afetadas pela iluminação urbana. Diversas populações de aves e insetos também sofrem com o excesso de luz artificial durante a noite. Entre elas, estão os vagalumes – espécies que possuem uma característica de bioluminescência que encanta muitas pessoas e povoa a memória afetiva de tantas outras.
Em artigo recente no The Conversation, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) alertam para o desaparecimento silencioso dos vagalumes, causado principalmente pela poluição luminosa. Isso acontece porque a reprodução dessas espécies é muito sensível a alterações luminosas e químicas no ambiente.
Majoritariamente membros da família Lampyridae, os vagalumes apresentam uma vasta diversidade e nem todos brilham. Outros estudos anteriores mostram como a perda de habitat, o desmatamento, as mudanças climáticas e o uso de pesticidas são outros fatores que causam a redução na população dessas espécies.
Para Jonas Pederassi, conhecer a biodiversidade brasileira é essencial para estimular a atenção das pessoas para esses outros seres com os quais os humanos compartilham os territórios e biomas. Em um contexto de crise climática e ecológica, pensar em iluminação urbana menos agressiva a outras espécies pode ser uma alternativa para um maior equilíbrio entre pessoas, anfíbios e vagalumes.
*A noção de mais-que-humanos é utilizada como forma de reconhecimento da senciência de outras espécies e da interdependência entre diversas formas de vida (rios, plantas, animais), incluindo os seres humanos. Essa noção é inspirada no trabalho da antropóloga estadunidense Anna Lowenhaupt Tsing e em cosmovisões ameríndias.
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Micael Olegário
Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.





































