ODS 1
Coreia do Sul: prosperidade na Economia da Longevidade


Mesmo diante do envelhecimento populacional, país asiático continua avançando em termos econômicos, sociais e demográficos


A Coreia do Sul sofreu profundamente com o colonialismo japonês e com sucessivas guerras ao longo de grande parte do século XX, figurando entre os países mais pobres do mundo. Até o final da década de 1960, a renda per capita sul-coreana era inferior à de Cuba. Mesmo no fim da década de 1980, a renda per capita da Coreia do Sul ainda permanecia abaixo da brasileira. Contudo, esse cenário se transformou radicalmente nas décadas seguintes, impulsionado pela rápida industrialização, pelos investimentos em educação e inovação tecnológica e pela forte inserção no comércio internacional. Atualmente, a Coreia do Sul integra o grupo dos países de alta renda e apresenta elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), tendo inclusive superado o Japão em renda per capita.
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A transformação da Coreia do Sul de um país pobre e devastado pela guerra em uma das economias mais avançadas do mundo é considerada um dos casos mais impressionantes de desenvolvimento econômico do século XX. Em poucas décadas, o país passou de uma economia agrária e dependente de ajuda externa para uma potência industrial, tecnológica e educacional. Esse processo resultou da combinação de planejamento estatal, investimentos em capital humano, industrialização acelerada, inserção internacional e forte capacidade de adaptação tecnológica. Alguns fatores foram decisivos nesse processo:
- Reforma agrária e construção de um Estado desenvolvimentista
Após a ocupação japonesa (1910-1945) e a Guerra da Coreia (1950-1953), o país estava destruído e extremamente pobre. Nos anos 1950, foi realizada uma ampla reforma agrária que reduziu a concentração fundiária e ampliou a base de pequenos proprietários rurais. Isso ajudou a diminuir desigualdades sociais e criou condições para a formação de um mercado interno mais dinâmico.
Ao mesmo tempo, o Estado sul-coreano assumiu um papel central no planejamento econômico. O governo definiu metas de longo prazo, coordenou investimentos, protegeu setores estratégicos e utilizou bancos públicos para direcionar crédito subsidiado às empresas consideradas prioritárias.
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Veja o que já enviamos- Industrialização voltada para exportações
A partir dos anos 1960, especialmente sob o governo de Park Chung-hee, a Coreia do Sul abandonou o modelo baseado apenas na substituição de importações e adotou uma estratégia fortemente orientada para exportações.
O país começou exportando produtos simples, como têxteis e calçados, mas rapidamente avançou para siderurgia, construção naval, automóveis, petroquímica, semicondutores e eletrônicos. O governo exigia desempenho exportador das empresas que recebiam incentivos públicos, criando uma cultura de competitividade internacional.
- Formação dos grandes conglomerados industriais (Chaebols)
O Estado apoiou o crescimento de grandes conglomerados privados, conhecidos como chaebols, que se tornaram motores da industrialização. Empresas como Samsung, Hyundai, LG e SK Group receberam crédito, proteção temporária e incentivos para competir globalmente.
Esses conglomerados internalizaram capacidades tecnológicas, investiram pesadamente em pesquisa e desenvolvimento e criaram cadeias industriais integradas, permitindo ganhos de escala e sofisticação produtiva.
- Investimento massivo em educação
A Coreia do Sul fez da educação uma prioridade nacional. Houve forte expansão do ensino básico, técnico e universitário. A sociedade coreana passou a valorizar intensamente o mérito educacional e a qualificação profissional.
O resultado foi a formação de uma força de trabalho altamente disciplinada e capacitada, apta a absorver e desenvolver tecnologias avançadas. Hoje, a Coreia do Sul possui alguns dos maiores níveis de escolaridade e desempenho educacional do mundo.
- Absorção tecnológica e inovação
Inicialmente, a Coreia do Sul importou tecnologia estrangeira e realizou engenharia reversa. Posteriormente, avançou para inovação própria. O país investiu fortemente em ciência, tecnologia e pesquisa aplicada.
Atualmente, a Coreia do Sul está entre os países que mais investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D) proporcionalmente ao PIB, liderando setores como semicondutores, telecomunicações, baterias, inteligência artificial, robótica e biotecnologia.
- Alta taxa de poupança e investimento
Durante décadas, a sociedade sul-coreana manteve elevadas taxas de poupança doméstica, permitindo financiar investimentos produtivos sem depender excessivamente de capital externo. O país priorizou infraestrutura, energia, transportes, portos e capacidade industrial.
- Inserção geopolítica favorável
A Guerra Fria também teve importância. Por razões estratégicas, os Estados Unidos apoiaram fortemente a Coreia do Sul econômica e militarmente para conter a influência comunista no Leste Asiático. O acesso ao mercado americano, ajuda financeira e cooperação tecnológica ajudaram a acelerar o crescimento sul-coreano.
- Transição democrática e modernização social
Embora o crescimento inicial tenha ocorrido sob regimes autoritários, a Coreia do Sul consolidou uma democracia robusta a partir do final dos anos 1980. O avanço institucional foi acompanhado pela expansão da classe média, melhoria dos indicadores sociais e fortalecimento da inovação cultural.
Hoje, além da força industrial e tecnológica, a Coreia do Sul também exerce grande influência cultural global por meio da chamada Hallyu (“onda coreana”), envolvendo música, cinema, séries e entretenimento, com destaque para produções como Round 6 e o grupo BTS.
- Acelerada transição demográfica
No início da década de 1950, a Expectativa de Vida ao Nascer (Eo) da Coreia do Sul estava abaixo de 30 anos, a Taxa de Fecundidade Total (TFT) superava 6 filhos por mulher e a idade mediana da população era de apenas 18 anos, evidenciando uma estrutura etária extremamente jovem.
A TFT permaneceu em torno de 6 filhos por mulher até 1960, mas caiu rapidamente até atingir o nível de reposição (2,1 filhos) em 1983. Nesse mesmo ano, a Eo subiu para 67 anos e a idade mediana alcançou 22 anos. Em 2025, a Coreia do Sul apresentava a menor fecundidade do mundo (apenas 0,75 filho por mulher), uma das maiores expectativas de vida do planeta (84,4 anos) e idade mediana de 46 anos, revelando uma estrutura etária fortemente envelhecida.


Coreia do Sul, decrescimento demográfico e avanço econômico
Essa rápida transição demográfica ocorreu de forma sincronizada com o desenvolvimento socioeconômico e foi um dos fatores fundamentais do sucesso coreano. A redução das taxas de mortalidade e fecundidade diminuiu a razão de dependência demográfica, ampliou a participação da população em idade ativa e favoreceu o aumento da poupança, do investimento produtivo e dos gastos em educação e saúde por criança.
Nenhum país alcançou elevados níveis de renda, bem-estar social e desenvolvimento humano mantendo, simultaneamente, altas taxas de natalidade e mortalidade. Nesse sentido, a transição demográfica constituiu um elemento essencial para a superação da pobreza e para a elevação das condições de vida da população sul-coreana.
O gráfico abaixo, com dados do FMI, de abril de 2026, mostra que a população da Coreia do Sul era de 47 milhões de habitantes no ano 2000, chegou ao pico de 51,9 milhões em 2020, caiu para 51,7 milhões em 2025 e deve ficar em 51,2 milhões em 2031. No ano 2000, a renda per capita coreana, a preços constantes e em poder de paridade de compra (ppp) era de US$ 26,5 mil (o dobro da brasileira e bem menor do que a japonesa). Em 2016, a renda per capita coreana chegou a US$ 46,3 mil, ultrapassando a renda per capita japonesa e sendo 2,5 vezes a renda brasileira. Para 2031, o FMI estima uma renda per capita coreana de US$ 63,4 mil, cerca de 20% maior do que a japonesa e quase três vezes maior do que a brasileira.
Um fenômeno relevante indicado no gráfico é que a renda per capita da Coreia do Sul continuou aumentando, mesmo com o país tendo mais idosos (60+) do que jovens de (0-14 anos) e mesmo diante do decrescimento demográfico. Para muitos alarmistas do envelhecimento populacional, a Coreia já deveria estar apresentando estagnação econômica e desequilíbrios orçamentários devido à “Armadilha fiscal geriátrica”. Porém, a Coreia do Sul continua avançando em termos econômicos, sociais e demográficos, mesmo diante do envelhecimento populacional.


Enquanto a maioria dos analistas enxerga o envelhecimento rápido da população como uma “ameaça catastrófica” que inevitavelmente levará à estagnação econômica e à escassez de mão de obra, as pesquisas do economista Daron Acemoglu, laureado com o Prêmio Nobel de Economia (especialmente em parceria com o economista Pascual Restrepo), trazem um contraponto fascinante em defesa da Economia da Longevidade. O pensamento de Acemoglu sobre o tema está estruturado em três pilares principais:
- O Envelhecimento impulsiona a automação
A tese central de Acemoglu é a de que a escassez de trabalhadores jovens e de meia-idade gerada pelo envelhecimento da população funciona como um gatilho para a inovação tecnológica. Em vez de colapsar, os países que envelhecem mais rapidamente reagem adotando robôs industriais e tecnologias de automação de forma muito mais intensa. Os dados de Acemoglu mostram que o envelhecimento demográfico sozinho explica cerca de 35% da variação entre países na adoção de robôs industriais. Países como Coreia do Sul, Japão e Alemanha lideram a automação justamente porque enfrentam as transições demográficas mais severas.
- Ausência de impacto negativo no PIB per Capita
Muitos economistas tradicionais defendem a teoria da “estagnação secular”, argumentando que uma população mais velha reduz a produtividade e a participação no mercado de trabalho. No entanto, ao analisar os dados macroeconômicos das últimas décadas, Acemoglu quebrou esse paradigma. Ele demonstrou que não há uma correlação negativa entre o envelhecimento da população e o crescimento do PIB per capita. O avanço tecnológico induzido pela falta de mão de obra manual compensa (e às vezes supera) o impacto negativo de ter menos pessoas em idade ativa trabalhando.
- O Alerta: Desigualdade e o tipo de automação
Apesar de sua visão otimista de que a tecnologia “salva” o crescimento econômico diante do envelhecimento, Acemoglu faz uma advertência severa sobre o tipo de tecnologia que estamos criando. Ele divide a automação em duas categorias:
- Automação de alta produtividade: Aquela que substitui o trabalho humano em tarefas onde a máquina é muito superior, abrindo espaço para os humanos desempenharem novas funções mais complexas.
- Automação “Mais ou Menos” (So-so Automation): Tecnologias que substituem o trabalhador apenas para cortar custos de folha salarial, mas que não trazem ganho real de produtividade (como caixas de supermercado de autoatendimento).
Para Acemoglu, o grande desafio da economia da longevidade não é a falta de pessoas para trabalhar, mas sim garantir que a transição tecnológica seja inclusiva. Se os governos e as empresas utilizarem a automação e a Inteligência Artificial apenas para descartar a mão de obra mais velha, sem criar novas tarefas e requalificar essa população para o mercado de serviços e cuidados (setores que demandam forte componente humano), o resultado será um aumento drástico na desigualdade salarial.
O caso da Coreia do Sul reforça a tese central de Daron Acemoglu de que o envelhecimento populacional não é uma sentença de morte econômica. A demografia molda a tecnologia: a escassez de braços jovens obriga o capitalismo a se reinventar através de robôs e IA. Além disto, uma população saudável, ativa e mais longeva pode ser uma fonte importante de progresso, especialmente em uma sociedade que leve em consideração as relações intergeracionais.
Em suma, a trajetória da Coreia do Sul consolida o país como o laboratório definitivo para a Economia da Longevidade no século XXI. Ao transformar o desafio de uma fecundidade ultrabaixa e de um decréscimo demográfico em um motor para a vanguarda tecnológica e a automação de alta produtividade, a sociedade sul-coreana prova que o envelhecimento populacional não rima, necessariamente, com declínio.
O verdadeiro teste para o futuro de Seul, contudo, residirá na sua capacidade política e social de atender ao alerta de Acemoglu: converter o ganho de eficiência dos robôs e da inteligência artificial em políticas de inclusão produtiva e requalificação para a sua crescente população idosa. Se for bem-sucedida em harmonizar essa transição tecnológica com a equidade intergeracional, a Coreia do Sul não apenas preservará sua riqueza material, mas desenhará o mapa de navegação para todas as outras nações que, mesmo em diferentes ritmos, trilharão o mesmo caminho demográfico da longevidade.
Referências:
ALVES, JED. Decrescimento populacional com prosperidade social em Portugal, Ecodebate, 10/07/2024
ALVES, JED. Decrescimento populacional com prosperidade na Polônia, Ecodebate, 17/12/2025
https://www.ecodebate.com.br/2025/12/17/decrescimento-populacional-com-prosperidade-na-polonia/
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José Eustáquio Diniz Alves
José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.







































