Desmatamento em 2025 fica abaixo de 1 milhão de hectares com redução em todos os biomas

Foto colorida que mostra no lado esquerdo, campo de soja, dividido por uma estrada e, do lado direito, floresta e vegetação natural do Cerrado

Dados do Relatório Anual de Desmatamento mostram queda de 20,6% em relação a 2024. Cerrado continua sendo o bioma com maior área desmatada

Por Micael Olegário | ODS 15
Publicada em 27 de maio de 2026 - 09:18  -  Atualizada em 27 de maio de 2026 - 09:36
Tempo de leitura: 8 min

Foto colorida que mostra no lado esquerdo, campo de soja, dividido por uma estrada e, do lado direito, floresta e vegetação natural do Cerrado
Fronteira agrícola na região do MATOPIBA, oeste da Bahia; Cerrado lidera em área desmatada por expansão da agricultura (Foto: Rafael Coelho/IPAM)

O Brasil teve 984.794 hectares de vegetação nativa desmatados em 2025. Pela primeira vez desde 2019, o número ficou abaixo de 1 milhão de hectares em um único ano. Os dados fazem parte do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD) e foram divulgados nesta quarta-feira (27/05) pelo MapBiomas Alerta.

Em termos percentuais, o país registrou uma queda de 20,6% em relação a 2024, quando foram 1,24 milhão de hectares desmatados. A diminuição na supressão da vegetação nativa foi observada em todos os biomas, com destaque para o Pantanal que teve 12.260 hectares perdidos no ano e uma redução proporcional de 48,4% em relação a 2024.

No acumulado dos últimos sete anos, o Brasil perdeu 10.913.064 hectares de vegetação nativa, área superior à do estado de Pernambuco. Apesar da redução no total de desmatamento, a área média desmatada no Brasil foi de 2.698 hectares por dia em 2025, cerca de 112 hectares por hora. 

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É como se 17 parques do Ibirapuera – o maior parque urbano da cidade de São Paulo – fossem desmatados todos os dias. No Cerrado, foram perdidos 1.482 hectares de vegetação nativa diariamente. Já na Amazônia, o desmatamento foi de 792 hectares por dia, o que equivale à perda de cerca de 5 árvores por segundo.

Amazônia e Cerrado respondem pela maior parte (84%) da área desmatada no país em 2025. O Cerrado permanece como líder em devastação, com 540.614 hectares, concentrando sozinho 54,9% do desmatamento do país, apesar da queda de 16,9% em relação a 2024. Na Amazônia, o RAD aponta 289.478 hectares perdidos, uma redução de 23,5% frente ao ano anterior.

Formações savânicas e agropecuária

Pelo terceiro ano consecutivo, as formações savânicas foram as mais afetadas pelo desmatamento no Brasil, respondendo por 51,4% da área total desmatada. Esses ecossistemas são caracterizados por arbustos e árvores esparsas, comuns no Cerrado e Caatinga, por exemplo. Em segundo lugar, aparecem as formações florestais, com 46,3%.

A pressão sobre o Cerrado ocorre, principalmente, nos estados da região chamada de MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Ao lado do Mato Grosso, eles formam a lista das cinco unidades federativas com maior área desmatada em 2025, respondendo por 63% da área total no Brasil.

A expansão da agropecuária segue como a principal responsável pelo desmatamento. Esse vetor responde por 99% da vegetação nativa perdida no Brasil em 2025. Chama atenção também o desmate associado a empreendimentos de energia renovável, principalmente, para instalação de painéis solares. Em 2025, foram 1.375 hectares associados a esse vetor, sendo 97% na Caatinga e 3% no Cerrado.

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Fica na Caatinga também o município que lidera o ranking de desmatamento em 2025, trata-se de Canto do Buriti (PI). Foram 20.877 hectares desmatados no último ano, mais que o dobro dos 10.018 de 2024, e uma média diária de 57,2 hectares, o equivalente a cerca de 80 campos de futebol por dia.

Entre os estados, pela terceira vez consecutiva, o Maranhão ocupa o primeiro lugar no RAD em termos de vegetação nativa destruída. No total, foram 154.294 hectares, uma redução de 29,3% em relação ao ano anterior. 

Foto colorida que mostra caminhão andando em trecho da rodovia transcerrado, parte do Anel Rodoviário da Soja, no Piauí
Trecho da PI-392, parte do Anel Rodoviário da Soja, usada para o transporte da produção do MATOPIBA (Foto: Governo do Piauí / Divulgação)

Análise

O RAD também cruza os alertas com indícios de ilegalidade. No período de 2019 a 2025, apenas 5,5% das áreas desmatadas ocorreram sem irregularidades, entre os 9.707 eventos registrados. Em 2025, quase a totalidade dos alertas (96%) tinham pelo menos um indício de irregularidade.

A análise do MapBiomas também aponta uma concentração do desmatamento em determinados imóveis rurais. Um cruzamento com informações do Sistema de Cadastro Ambiental Rural (Sicar) indica que 0,6% dos imóveis rurais respondem por 79,8% dos eventos de desmatamento e 85,7% da área desmatada em 2025.

O relatório identifica uma maior resposta do poder público aos alertas de desmatamento. Em 2019, apenas 5% das áreas desmatadas receberam ações, como embargos, percentual que subiu desde então e chegou a 65% no ano passado, o que significa quase dois terços da área total de vegetação suprimida.

“Percebemos uma correlação entre a queda do desmatamento nos últimos anos com esse aumento das ações do poder público”, destaca Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas. Neste contexto, a aprovação na Câmara do PL 2.564/2025 preocupa o especialista, justamente, por restringir o uso de imagens de satélite para embargar áreas desmatadas.

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Tasso Azevedo ressalta que esse tipo de tecnologia permite fazer um comparativo entre imagens de determinada áreas antes e depois do desmatamento. “Deixar de usar uma tecnologia de ponta, desenvolvida no Brasil, parece um contrassenso. É muito mais barato fazer esse monitoramento com instrumentos remotos”.

UCs e Terras Indígenas

Dentro de Unidades de Conservação (UCs), foram desmatados 46.257 hectares em 2025, redução de 21,4% em relação ao ano anterior. As UCs de Proteção Integral (federais, estaduais e municipais) registraram queda de 55,8%, com 2.034 hectares desmatados. 

A Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Preto (BA), com grande parte de seu território no Cerrado, foi a UC com maior área desmatada (7.701 hectares) no Brasil em 2025, o que corresponde a uma alta de 44% em relação a 2024.

Em Terras Indígenas (TIs), a perda foi de 12.593 hectares, com redução de 22% em relação a 2024. Entre 2019 e 2025, apenas 1,7% (184.622 hectares) do total de terras desmatadas no Brasil estão em TIs. Os números evidenciam o protagonismo dos povos indígenas no cuidado da vegetação nativa e da biodiversidade brasileira.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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