ODS 1
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Veja o que já enviamosNão era amor, era cilada
Dados do Datafolha mostram que a sociedade repudia violência contra a mulher mas ainda tem dificuldade (ou má-vontade) de identificar os mecanismos que a produzem
A vida também se mede por essas pequeníssimas alegrias, quase imperceptíveis ao nosso olho nu tão cansado de telas e demandas. O primeiro gole de café ou qualquer bebida quentinha quando o inverno chega. O alívio de tirar um sapato bonito, mas que come o calcanhar de um jeito que não há band-aid que resolva. Receber uma mensagem inesperada de alguém de quem temos saudade. Achar dinheiro numa peça da estação passada, ainda mais num tempo em que ninguém carrega dinheiro. Desentupir o nariz depois de muitos dias de gripe ou crise alérgica. Alegrias bestas, que não mudam a vida de ninguém, mas que arrancam um sorriso genuíno ou um esboço dele. Tenho pensado bastante nisso, nas tantas sutilezas da vida, que muitas vezes não percebemos diante de tudo que é maior. Passam batidas, invisíveis. Para bem e para mal.
Leu essa? Justiça, palavra feminina (mas, infelizmente, violência também)
E como nem tudo são as pequenezas poéticas do cotidiano, a violência contra as mulheres mostra bem essa invisibilidade seletiva. Uma pesquisa fresquinha do Datafolha para o Movimento Mulher 360 mostra que, finalmente, 61% dos brasileiros consideram a violência contra a mulher o crime mais grave do país, à frente até do tráfico de drogas e dos assaltos à mão armada. O mesmo dado mostra que 95% reconhecem como violência o marido forçar uma relação sexual. Há, sem dúvida, uma mudança importante na forma como a sociedade percebe as agressões mais explícitas contra as mulheres.
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Mas o mesmo levantamento revela outra realidade, tão sutil quanto violenta. 62% dos brasileiros não consideram violência um homem exigir que a parceira troque de roupa antes de saírem juntos. 45% não enxergam como abuso impedir que uma mulher vá sozinha a uma festa. Só se reconhece a violência quando ela já explodiu em soco, em ameaça, em morte. Mas seguimos relativizando muitos dos mecanismos que a constroem, contrariando a Primeira Lei de Molejo, e chamando, equivocadamente, tantas ciladas do que não são: “amor”.
Qualquer mulher que já passou por um relacionamento abusivo sabe que as opressões começam como gotinhas de homeopatia. Na frase passivo-agressiva dita como quem não quer nada, no controle disfarçado de zelo, no ciúme tratado como prova de amor, e na sociedade que tenta fazer a gente acreditar que precisamos estar do lado de um homem para estarmos completas.
É aí que mora o problema. A sociedade avançou para condenar o absurdo explícito, mas ainda tropeça em reconhecer o machismo cotidiano, aquele que diminui a mulher aos poucos e se apresenta com bons modos e pinta de “cara legal”. No fim das contas, o que é um pedido para trocar de roupa senão a tentativa de controlar um corpo que não lhe pertence? O que é impedir uma mulher de sair sozinha senão limitar sua autonomia, sua circulação e sua liberdade de existir no mundo?
O corpo da mulher continua sendo tratado como um território sobre o qual muitos acreditam ter direito de opinar, vigiar e decidir. E talvez o dado mais perturbador da pesquisa esteja entre os mais jovens. Enquanto a gente cai no conto de que as novas gerações seriam mais igualitárias, 3 em cada 10 homens de 16 a 24 anos afirmam que o homem deve ter a última palavra dentro de casa e 53% associam ciúme a amor. É uma cultura que continua sendo reproduzida e atualizada, um reboot do machismo e da misoginia que cruz credo, eu não quero ver de jeito nenhum.
O problema não está apenas nos agressores excepcionais, que chamam equivocadamente de monstros, doentes e outros eufemismos para homem. A questão está numa gramática social que ainda ensina homens a possuírem mulheres, e mulheres a lutarem pela própria liberdade. E enquanto essa gramática seguir operando nas relações, nos memes, nas músicas, nas igrejas, nas famílias e nos algoritmos, a violência continuará parecendo surpresa no fim, quando, na verdade, ela já vinha sendo anunciada desde o começo, a silenciosos berros.
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