Muito além do absorvente: os desafios da pobreza menstrual no Brasil

Modelo mostra absorvente interno e coletor menstrual: itens básicos de higiene menstrual (Foto: Wayhomestudio / freepik / magnific)
Modelo mostra absorvente interno e coletor menstrual: itens básicos de higiene menstrual (Foto: Wayhomestudio / freepik / magnific)
Modelo mostra absorvente interno e coletor menstrual: itens básicos de higiene menstrual (Foto: Wayhomestudio / freepik / magnific)

De acordo com a Unicef, seis em cada dez jovens já deixaram de ir à escola ou ao trabalho durante a menstruação

Por Victoria Reis Sales | ODS 3

Publicado em 17/07/2026 - 10h35 (Atualizado há 6 minutos)

Tempo de leitura: 10 min

A condição de não poder passar pelo período menstrual de forma digna tem nome: pobreza menstrual. Uma das muitas mazelas da desigualdade social do Brasil, pobreza menstrual é definida pela falta de recursos socioeconômicos para enfrentar a menstruação com um mínimo de higiene, o que impacta a saúde física e mental das mulheres. Já a dignidade menstrual se caracteriza como o oposto: quando existe o acesso aos itens básicos de higiene menstrual e a emancipação da mulher em circunstâncias de pobreza extrema.

Em 2024, o Unicef no Brasil divulgou uma pesquisa com 2,2 mil entrevistadas apontando que 19% das jovens adultas e adolescentes não tinham dinheiro para comprar absorventes –  outros 37% enfrentavam dificuldades de acesso aos itens de higiene em escolas ou locais públicos. Também foi constatado que 6 em cada 10 jovens já deixaram de ir à escola ou ao trabalho durante a menstruação. Esses dados revelam que o tema, apesar de relevante, ainda não desperta tanta atenção da sociedade quanto deveria.

Ao falar de itens básicos de higiene menstrual, estamos tratando de absorventes externos, os mais comuns e procurados, absorventes internos, calcinha menstrual e coletor menstrual. Todos estes estabelecem a dignidade menstrual.

De acordo com a Unicef, 19% das jovens no Brasil não possuem dinheiro para comprar absorventes (Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil)
De acordo com a Unicef, 19% das jovens no Brasil não possuem dinheiro para comprar absorventes (Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil)

Um exemplo de solidariedade: de mulher para mulher

 A assistente social Ana Paula Cardoso participou do projeto sem fins lucrativos, fundado por quatro mulheres, chamado “Todas por Todas” que atuava na distribuição direta de absorventes para mulheres em situação vulnerável do Rio de Janeiro. Recebeu o convite para atuar no projeto, em 2021, durante a pandemia; infelizmente ele acabou três anos depois por falta de recursos. As mulheres atendidas foram em sua maioria eram jovens de 20 a 35 anos; mais de 5 mil kits de higiene foram distribuídos.

Em relação a uma situação marcante para a profissional, ela  relata o momento em que observou homens rindo e zombando de uma mulher em situação de rua com transtorno mental, provavelmente esquizofrenia, encharcada com o sangue de sua menstruação. Vivenciar esse tipo de situação interfere no emocional de qualquer pessoa, inclusive nas que querem ajudar as mais necessitadas.

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Ao ser questionada se é possível separar a emoção da ação que deve ser feita, ela define que ser uma assistente social é ter uma “profissão de afetos”, não só no sentido carinhoso, mas também porque as histórias precisam a afetar. E como o autocuidado, terapia e lazer são necessários para continuar: “Posso chorar, mas isso não me paralisa”.

Estudante posa para campanha do projeto “Livres para Estudar”
(Foto: Michell Albuquerque / Prefeitura do Rio)

Livres Para Estudar

 O projeto da prefeitura do Rio de Janeiro intitulado “Livres para Estudar”, em vigor desde 2021, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, atua contra a pobreza menstrual nas escolas através da distribuição gratuita de absorventes. O projeto é realizado nas escolas públicas municipais e possui como objetivo evitar que as alunas entrem na estatística da evasão escolar causada pela falta de higiene menstrual.

A professora e pesquisadora Carolina Guedes tem ampla experiência no projeto da prefeitura e trabalho na pesquisa realizada na rede municipal sobre a pobreza menstrual nas escolas. A pesquisa apontou que 1 a cada 4 alunas falta aula por causa de sua menstruação e que quase 50% das meninas de bairros como Bangu, Padre Miguel, Campo Grande e Caju, não vão para as aulas durante o período menstrual. Carolina aponta que a pandemia escancarou a problemática ao mesmo tempo que em 2020, houve um primeiro passo importante: foi sancionada a lei que a cesta básica no Rio de Janeiro deve incluir absorventes.

Outro dado ressaltado pela professora é que as estudantes podem ter uma falta escolar total de 30 a 70 dias ao ano, e por isso Carolina descreve o quão fundamental é ter acesso a higiene básica: “É um item do material escolar”. Além de levantar uma questão sobre a desigualdade de gênero no vestibular e na busca por um emprego: “Com essa frequência escolar, elas vão ter as mesmas condições de preparo de um menino? Não.”

O projeto atende alunas desde o 4° ano até o PEJA, programa de educação de jovens e adultos, atua em mais de 800 escolas e já teve mais de 2 milhões de reais investidos, levando não só itens higiênicos, mas também informação. A professora conta que essa parte do programa também é fundamental, pois a menstruação ainda é um assunto considerado tabu. Para romper com esse aspecto, são propostas rodas de conversa, oficinas e eventos nestas escolas. Segundo Carolina, o projeto se transformou em algo maior devido ao surgimento de temáticas importantes como violência doméstica e empoderamento feminino.

Ao ser questionada sobre um momento que a tenha marcado ao longo desses anos, a professora relata quando estava em um evento de dia da mulher na escola Thomas Mann, no Cachambi, quando uma aluna perguntou se poderia levar mais absorventes, por causa das suas 4 filhas. Também narrou sobre o evento que participou na Vila Vintém, onde um pai contou que pensou que a filha, ao chegar em casa, tinha roubado os absorventes. Mais tarde, descobriu sobre o projeto e ficou positivamente surpreso, também expôs como o programa desafogou seu bolso.

A profissional declarou durante toda a entrevista como o projeto é de extrema importância, dando segurança para muitas alunas concluírem a sua etapa escolar normalmente, entendendo que a menstruação é um processo natural, biológico e que não deve atrapalhar seus direitos essenciais como a educação. Carolina informou também que, atualmente no Rio de Janeiro, cada escola municipal possui no mínimo um professor que entende sobre a pobreza menstrual e as suas consequências.

Para enfrentar a pobreza menstrual

Além das ações do município do Rio de Janeiro, foram criadas medidas a nível nacional, como o “Programa Dignidade Menstrual” em curso desde 2024, promovido pelo Governo Federal. O programa oferece absorventes gratuitos por todo território nacional através da Farmácia Popular, para as meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade social e com baixa renda. Segundo o governo brasileiro, mais de 1,7 milhão de brasileiras foram beneficiadas pelo programa em apenas um ano. Da região Sudeste, o Rio de Janeiro ficou em segundo lugar na procura pelo programa, atrás de São Paulo.

Para conseguir fazer a retirada dos absorventes, é necessário apresentar na Farmácia Popular um documento de identificação oficial com CPF e a autorização impressa ou digital do Programa de Dignidade Menstrual emitida pelo aplicativo ou site “Meu SUS digital”. É recomendado em casos de dificuldade, procurar alguma Unidade Básica de Saúde para um melhor auxílio.

No entanto, ambas as entrevistas revelam os desafios do programa desenvolvido pelo Governo Federal – principalmente a barreira tecnológica, como apontou a assistente social Ana Paula Cardoso: “Ao mesmo tempo que facilita para uns, dificulta para outros”, afirmou. Muitas pessoas ainda não possuem acesso à internet e, portanto, não conseguem participar do programa e nem chegam a elas a informação de como procurar ajuda para possuir o benefício.

A professora Carolina Guedes também falou sobre as pessoas que não conseguem acessar a internet ou que não têm celular. Além disso, ressalta os muitos casos de analfabetismo no país, questionando como que a informação vai chegar para esta parte da população. Outro ponto citado pela professora, é que geralmente as unidades da Farmácia Popular estão localizadas nos centros das grandes cidades, contestando o quanto que uma pessoa do interior vai gastar com a quantidade de deslocamento até lá, visto que o programa distribui absorvente suficiente apenas para um mês de uso.

De maneira geral, o combate à pobreza menstrual ainda enfrenta muitos desafios, não só no Rio de Janeiro, mas como em todo Brasil. Trazer visibilidade ao assunto, não rompe apenas com o tabu, mas também ajuda milhões de meninas e mulheres que precisam ter os seus direitos garantidos. Afinal, o debate é uma questão relevante da saúde pública, só com a propagação de tal temática, a sociedade poderá desenvolver uma dignidade menstrual para todas.

Com o objetivo de elevar a pauta a nível internacional, a Organização Mundial da Saúde (OMS), criou o Dia Internacional da Dignidade Menstrual, celebrado no dia 28 de maio. A ação busca conscientizar o corpo social mundial sobre a importância do assunto que atinge diretamente e diariamente grande parte da população feminina.

(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.

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Victoria Reis Sales

Victória Reis é estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Moradora do subúrbio carioca, tem interesse nas áreas de comunicação que envolvam cultura, entretenimento e esporte. Entende que o jornalismo pode ser uma ferramenta para dar voz a quem não é sempre escutado.

Victoria Reis Sales

Victória Reis é estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Moradora do subúrbio carioca, tem interesse nas áreas de comunicação que envolvam cultura, entretenimento e esporte. Entende que o jornalismo pode ser uma ferramenta para dar voz a quem não é sempre escutado.

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