O que fazer com as máscaras depois que isso tudo passar?

Máscaras de tecido: acessório virou item indispensável no combate ao coronavírus (Foto: Chris DELMAS / AFP)

Estima-se que moradores da cidade de São Paulo já consumiram em máscaras tecido suficiente para forrar 68 campos de futebol

Por Alessandra Ponce Rocha | ODS 12 • Publicada em 24 de julho de 2020 - 10:41 • Atualizada em 3 de agosto de 2020 - 10:21

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Máscaras de tecido: acessório virou item indispensável no combate ao coronavírus (Foto: Chris DELMAS / AFP)

Baratas, fáceis de fazer e acessíveis, as máscaras são nossas grandes aliadas no combate à pandemia do coronavírus. Só na cidade de São Paulo, entre abril e maio, foram produzidos dois milhões de máscaras de tecido em Escolas Técnicas Estaduais (ETCs) para distribuir à população carente. Sem contar as milhares de máscaras confeccionadas diariamente por artesãos, costureiros e adeptos do “faça você mesmo”. Sou estilista e consultora de moda, e nos últimos tempos um pensamento não sai de minha cabeça: nós temos que parar de descartar nossas roupas tão precocemente. Foi isso que me fez reunir material para escrever meu livro de estreia, “Alinhavos – O futuro do planeta está no seu guarda-roupa”, publicado em 2019 pela Panda Books. É o primeiro livro no Brasil que fala sobre moda sustentável para crianças. Hoje, quando falamos em uso consciente das roupas, temos que olhar também para as máscaras.

O acessório virou um item fashion, e já é comum uma pessoa ter várias máscaras em casa, de estampas e tecidos diferentes, para combinar com os figurinos. Fiz uma conta que trouxe um resultado assustador: imaginando que cada habitante de São Paulo tenha 5 máscaras diferentes, podemos considerar que, só na cidade, já foram gastos 439.698 metros quadrados de tecido. Com todo esse tecido, daria para forrar o gramado de 68 campos de futebol!

Enquanto consumidores de máscaras, poderíamos cobrar das confecções que as produzem que as recebessem de volta para que sejam encaminhadas a indústrias de reciclagem

Alessandra Ponce Rocha
Estilista

Esse número só tende a crescer. A produção de máscaras de tecido deve seguir em ritmo acelerado enquanto durar a pandemia, por um motivo muito simples: elas têm vida útil curta. Segundo a Anvisa, as máscaras devem ser descartadas depois de 30 usos, ou sempre que o tecido apresentar furo ou desgaste. O que fazer com essa montanha de tecido depois que isso tudo passar?

Nós, enquanto consumidores de máscaras, poderíamos cobrar das confecções que as produzem que as recebessem de volta para que sejam encaminhadas a indústrias de reciclagem. A Renovar Têxtil, que coleta resíduos têxteis na região do Brás e Bom Retiro, centro de São Paulo, é uma das empresas que recebem doação de tecido para desfibramento, processo que torna a fibra reutilizável para a produção de novos tecidos. Liguei lá e descobri que eles não exigem quantidade mínima para doação, mas precisam ter certeza de que os materiais são passíveis de reciclagem. Tecidos como algodão, poliéster e malha costumam ser compatíveis com o processo, mas não podemos esquecer de um detalhe importante: as máscaras podem estar contaminadas. Para que sejam recicladas de forma segura, elas devem ser devidamente higienizadas, com o laudo da lavanderia. Assim, é garantido que não contaminarão os demais materiais. O laudo é emitido por lavanderias industriais e, por isso, esse exemplo de doação se aplica a ações promovidas pelas confecções que já se utilizam desses processos. Outro ponto importante é que as máscaras sejam doadas apenas com a parte têxtil, então devemos lembrar de retirar a costura e materiais extras como elásticos.

Uma ideia mais caseira, que eu super recomendo, é utilizar os tecidos das máscaras descartadas para a confecção de artesanatos como fuxicos e colchas de retalhos. São atividades geralmente prazerosas, que não demandam grandes quantidades de tecidos, e promovem a conexão entre os membros da família. Como a recomendação é que a gente fique em casa até que a epidemia seja controlada, é mais um ótimo passatempo! Para ambas as atividades, é imprescindível que as máscaras estejam higienizadas. É só seguir as recomendações de limpeza da Anvisa, já praticadas no nosso dia a dia: deixar a máscara imersa numa solução com um litro de água e 10 mililitros de água sanitária durante 40 minutos.

Não é difícil pensar a moda de forma sustentável. Precisamos estimular as crianças a reaproveitar roupas, arrumar constantemente seus armários e dar vida nova a tecidos com pouco ou nenhum uso. Não vamos deixar as máscaras fora dessa missão: o Planeta Terra não tem mais fôlego para respirar sem nossa ajuda.

Alessandra Ponce Rocha

Alessandra Ponce Rocha nasceu em São Paulo (SP), é estilista e consultora de moda. Desde muito pequena, sua brincadeira favorita era criar roupas para as bonecas que tinha a partir dos retalhos de tecidos da oficina de costura de sua tia. Para a autora, criar roupas é muito parecido com contar uma história. Ela imagina o personagem principal, desenha modelos para ele e, por fim, fica pensando em quais momentos a roupa irá acompanhá-lo. Há mais de 15 anos cria roupas imaginando como influenciar e dar superpoderes a personagens da vida real. Publicou Alinhavos, o primeiro livro no Brasil sobre moda sustentável para crianças, em 2019, pela Panda Books.

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