Estação Leopoldina, novo capítulo de uma saga centenária

Restauração de prédio histórico, inaugurado em 1926 e um marco do transporte ferroviário no Brasil, atrasa e só deve ser concluída 2027

Por Oscar Valporto | ODS 11

Publicado em 18/08/2026 - 09h12

Tempo de leitura: 9 min

Quando a Estação Barão de Mauá foi inaugurada, um século atrás, todos os principais jornais do Rio de Janeiro – O Paiz, Jornal do Commercio, Gazeta de Notícias, A Noite, Jornal do Brasil – deram destaque ao evento que marcava a abertura da nova estação inicial da Leopoldina Railway, que prometia ligar o então Distrito Federal pelos trilhos, com mais eficiência e rapidez, aos estados vizinhos: Minas Gerais, São Paulo e o próprio Rio de Janeiro, que cercava a capital do Brasil. “A Leopoldina tem, enfim, uma estação digna do Rio e da própria importância da companhia”, destacava o título da reportagem na edição do Jornal do Brasil de domingo, 7 de novembro de 1926, dia seguinte à inauguração.

Leu essa? A Estação Leopoldina e a dívida da União com o Rio de Janeiro

Um século depois, praticamente não há jornais impressos na cidade e só O Globo – que, em 1926, era o caçula dos periódicos cariocas, fundado um ano anos – deu algum destaque para o atraso na entrega das obras de restauração da Estação Leopoldina, como é mais conhecido o lugar, que, durante sete décadas, foi usada para transporte interestadual de passageiro, principalmente, e também de cargas. Ao ser anunciada pelo então prefeito Eduardo Paes, em 2024, a restauração deveria ficar pronta para celebrar o centenário: o prédio histórico abrigará cursos do Instituto Federal do Rio de Janeiro e equipamentos culturais; a área da antiga estação receberia um conjunto de prédios do programa Minha Casa, Minha Vida, um centro de convenções e a Fábrica do Samba, para os barracões da escolas de samba da Série Ouro (o grupo de acesso do Carnaval do Rio).

Estação Leopoldina com obras de restauração atrasadas: novo capítulo de uma saga centenária (Foto: Rafael Catarcione / Prefeitura do Rio - 02/07/2024)
Estação Leopoldina com obras de restauração atrasadas: novo capítulo de uma saga centenária (Foto: Rafael Catarcione / Prefeitura do Rio – 02/07/2024)

Ao ser inaugurada naquela tarde de sábado de novembro de 1926, a nova Estação Barão de Mauá recebeu autoridades e atraiu a curiosidade dos cariocas. No evento, o engenheiro britânico Charles Walter Bayne, diretor-geral da Leopoldina Railway, explicou que o nome da estação homenageava o empresário Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, pioneiro das ferrovias no Brasil e responsável pela inauguração da primeira linha férrea do país em 1854. A Companhia Estrada de Ferro Leopoldina, fundada em Minas Gerais em 1874, era responsável pelo transporte ferroviário da região produtora de café do estado até a divisa com o Rio, onde se conectava com a Estrada de Ferro Pedro II – Estrada de Ferro Central do Brasil, após a Proclamação da República.

Receba as colunas de Oscar Valporto no seu e-mail

Veja o que já enviamos

Em 1898, em crise financeira apesar de ter passado por um processo de expansão, a empresa foi vendida para investidores ingleses que criaram a Leopoldina Railway Company, construindo novas linhas e adquirindo 38 pequenas ferrovias, no centro e norte do Rio de Janeiro, e também no sudeste de Minas e no sul do Espírito Santo. De acordo com as reportagens de 1926, no ano de 1898, ao ser vendida, a Leopoldina transportou pouco mais de dois milhões de passageiros e 380 mil toneladas de carga. Em 1925, a Leopoldina Railway já administrava a maior malha ferroviária do país – mais de 3 mil quilômetros – e havia transportado, no ano, quase 21 milhões de passageiros e 1,5 milhão de toneladas de carga.

Foi este sucesso que impulsionou a construção da Estação Barão de Mauá, na Avenida Francisco Bicalho, perto do terminal da companhia na Praia Formosa, vizinho ao Porto do Rio – desde 1910, a empresa britânica tinha conseguido autorização para levar seus trilhos até ali. Muitos jornais da época anunciaram que a nova sede da companhia seria erguida na “Praia Formosa”, como era conhecida a região (a praia mesmo, seguidamente aterrada, já havia desaparecido em 1926, com a expansão do porto). Com inspiração em palácios da realeza britânica, a estação foi projetada pelo arquiteto escocês Robert Prentice, com quatro andares, fachada de 130 metros de largura, oito plataformas e espaço para oficinas.

A Leopoldina deserta 90 anos depois da inauguração festiva: decadência e abandono (Foto: Márcio Menasce - 09/01/2016)
A Leopoldina deserta 90 anos depois da inauguração festiva: decadência e abandono (Foto: Márcio Menasce – 09/01/2016)

A Estação Barão de Mauá só deixou de ser a maior da cidade em 1943, com a inauguração do prédio da sua concorrente Central do Brasil. Em 1950, com o Brasil concentrando seus investimentos nas rodovias, a Leopoldina foi encampada pelo governo federal e, em 1957, incorporada à nova Rede Ferroviária Federal (RFFSA), que reuniu 18 companhia férreas, inclusive a Estrada de Ferro Central do Brasil, já a maior do país. Com a privatização da RFSSA, as linhas da Leopoldina no interior passaram, em concessão, a empresas particulares e a Estação Barão de Mauá acabou finalmente desativada e deixou de receber trens em 2001. Foi abandonada como mostrou o próprio #Colabora constatou, às vésperas dos 90 anos da inauguração, em 2016.

Em 2024, depois de anos de negociação entre as três esferas de governo, a União assinou um acordo de cooperação técnica com a Prefeitura do Rio para fazer a revitalização do histórico imóvel da Estação da Leopoldina. As boas notícias de 2024 não tiveram a sequência esperada: obras em marcha lenta, briga da prefeitura com a empresa responsável, atrasos na retirada de equipamentos, cobranças do Ministério Público Federal. A intenção anunciada era a entrega pelo menos do prédio restaurado para a celebração do centenário da inauguração da Estação do Barão de Mauá.

A Estação Leopoldina não recebe trens há duas décadas: retrato da decadência do transporte ferroviário no Brasil e do caos no transporte público do Rio (Tomaz Silva / Agência Brasil - 20/09/2018)
A Estação Leopoldina não recebe trens há duas décadas: retrato da decadência do transporte ferroviário no Brasil e do caos no transporte público do Rio (Tomaz Silva / Agência Brasil – 20/09/2018)

Mas a saga da velha estação ferroviária ainda não vai terminar em 2026. Esta semana, a Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar), empresa municipal pela contratação da restauração, confirmou o adiamento para 2027 – ainda sem data – da entrega das obras, orçadas R$ 80 milhões em alegando necessidade de rever o cronograma pelo porte das intervenções estruturais e modernizantes. afirma que as intervenções seguem em andamento em diferentes frentes, como recuperação estrutural, restauração e modernização do conjunto histórico. A desocupação do terreno ao lado da estação, onde estão antigas composições de trem e milhares de aduelas (estruturas de concreto que deveriam ter sido usadas na expansão do metrô), é responsabilidade do governo estadual e está ainda mais atrasada. A Fábrica do Samba Rosa Magalhães, tão sonhada pelas escolas da Série Ouro, ficou para o Carnaval 2028.

Aos cariocas, resta esperar – “vamos torcer, vamos cobrar”, como costuma dizer o colunista Ancelmo Góis, de O Globo, que publicou a má notícia do adiamento. E ter esperança de parafrasear em breve o título do Jornal do Brasil – “A Leopoldina tem, enfim, uma estação digna do Rio e da própria importância” do histórico prédio.

Apoie o #Colabora!

Faça parte da campanha “10 anos, 101 apoiadores” e ajude a fortalecer nosso jornalismo independente e de qualidade. Com apenas R$ 20 por mês (menos de R$ 0,70 por dia), você já contribui para manter histórias e reportagens que fazem a diferença, como esta.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Comentários

Compartilhe: